Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza



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para o povo brasileiro, que condenava o capitalismo. Segundo, pelo 

reconhecimento da própria força política, exemplificada pela aspiração de 

conquistar a direção da UNE.  

Herbert de Souza foi protagonista nesse processo. Em sua fase de 

líder estudantil, foi o primeiro candidato jucista à presidência da UNE, 

no congresso de 1960. Não obteve êxito. No ano seguinte, foi um dos 

articuladores da vitória da chapa encabeçada por Aldo Arantes, que levou 

a JUC ao comando do movimento estudantil nacional. No início, a JUC 

valeu-se de uma aliança com estudantes do PCB, mas inaugurou-se uma 

hegemonia que se estenderia, por intermédio da Ação Popular, por toda a 

década de 1960: “Quando tomamos o movimento estudantil, a hegemonia 

foi tão avassaladora que no final só havia candidatos da AP e a AP 

sozinha poderia competir contra as forças da esquerda e da direita juntas” 

(SOUZA, 1976, p. 76). 

Apesar da relativa abertura ensejada pelo pontificado de João 

XXIII, a práxis da JUC, flertando com o marxismo e adotando alianças 

com a esquerda comunista, ultrapassava os limites tolerados pela 

hierarquia da Igreja Católica. Por isso, a Igreja censurou a aproximação, 

teórica e prática, com o marxismo e com agrupamentos nele inspirados 

(CNBB, 1961, p. 947). O impasse gerou uma ruptura: “não devíamos 

explicações a ninguém: nossa única obrigação, em relação à Igreja e à 

Ação Católica, era flexível, negociada. Quando a Igreja tentou mexer com 

a nossa independência, saímos da Ação Católica” (SOUZA, 1996b, p. 18). 

A esse impasse somavam-se as limitações de atuação política de 

uma organização que aglutinava por confissão religiosa. Estabeleceu-se, 

então, o objetivo de criação de uma organização política laica, não-eclesial, 

que desempenhasse, de maneira autônoma, uma função exclusivamente 

política. Em 1962 ocorreram várias reuniões e, no início de 1963, realizou-

se o I Congresso da AP, que formalizou sua fundação. Os impasses 

vivenciados pelo crescimento do movimento promoveram, pois, a 

passagem de uma visão religiosa a uma perspectiva política, quando se 

começou a sair, segundo suas palavras, da gestalt cristã e a entrar em uma 

visão de mundo influenciada pelo marxismo (SOUZA, 1976). 

Herbert de Souza descreve os meandros de sua participação na 

articulação da nova organização. Quando a JUC se tornou força dirigente 

da UNE, desencadeou-se o processo de mobilização estudantil por meio 

das caravanas conhecidas como UNE-volante. No próprio curso dessas 

caravanas, articulou-se a Ação Popular. De acordo com suas palavras: 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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Paralelamente, eu articulava a AP ao nível nacional. Enquanto 



o presidente da UNE entrava em contato com lideranças 

estudantis, eu entrava em contato com intelectuais, 

profissionais liberais, padres, líderes operários, camponeses, 

mostrando a necessidade de um movimento nacional 

alternativo ao PC (SOUZA, 1976, p. 74). 

Também teve participação na elaboração dos principais 

documentos da AP. Nos tempos da JUC, colaborara com a redação do 

documento  Ideal Histórico. Na seqüência, foi um dos elaboradores do 



Documento base, aprovado no congresso de fundação da AP. A experiência 

pessoal de Herbert de Souza está, pois, indissociavelmente ligada à 

experiência coletiva, no movimento de gestação da novidade política 

representada pela Ação Popular.  

Em relação à origem da AP, seus depoimentos fornecem uma 

interpretação que está intimamente vinculada à análise das fases 

seguintes. A aproximação e assimilação do marxismo fizeram-se, em seu 

entender, pela manutenção da mesma atitude: “passamos à política com a 

mesma mística que havíamos vivido na religião, a mesma perspectiva de 

compromisso, a mesma pureza, responsabilidade, auto-renúncia” 

(SOUZA, 1976, p. 71). A conversão procedeu-se com o sentimento, 

herdado do cristianismo e transposto à nova identificação, de que “temos 

uma missão, somos uma geração com uma missão salvadora” (SOUZA, 

1976, p. 71). 






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