Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza



Baixar 274.67 Kb.
Pdf preview
Página5/17
Encontro25.04.2021
Tamanho274.67 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   17
D

A ORIGEM DA 

AP

 AO GOLPE MILITAR

 

A narrativa de Herbert de Souza, considerados os seus diversos 

depoimentos, reconstrói a origem da AP a partir da politização da 

militância das organizações leigas da Igreja Católica, notadamente da JEC 

e da JUC

3

, experiência que viveu diretamente. Embora a AP tenha atraído 



militantes de outras origens, seja de diferentes vertentes religiosas

4

, seja 



de formação independente, a JUC, secundada pela JEC, pode ser 

considerada o tronco principal no processo de sua formação.  

Esses ramos de atuação especializada da Ação Católica do Brasil 

tinham, inicialmente, um perfil conservador e o objetivo de cristianizar o 

seu meio. Todavia, na segunda metade da década de 1950, 

experimentaram um processo de politização crescente. Entre 1958 e 

1962, conforme Herbert de Souza (1976), viveu-se a transição que 

culminou na formação da AP. 

A transformação da concepção a respeito do cristianismo, na 

vivência pessoal de Herbert de Souza, tem aspectos insólitos. Hemofílico 

e tuberculoso, estabelecera uma relação patológica com a religião. 

Desenvolveu a compreensão de que, para sobreviver à tuberculose, 

deveria cultivar uma existência ascética com vistas a obter a pureza. Até 

então, segundo suas palavras, a Igreja sempre lhe apresentava “Cristo 

como uma figura desligada, assexuada, mística, descomprometida, ele no 

céu e nós aqui na terra a pensar” (SOUZA, 1976, p. 70). Visão muito 

diferente passou a ser propagada na JEC, cujos assistentes “apresentavam 

o Cristo como macho, o forte, o homem, o cara que veio para fazer uma 

revolução, não uma revolução em termos políticos, mas de qualquer 

maneira uma revolução” (SOUZA, 1976, p. 70).  

Peculiaridades à parte, seus depoimentos revelam o impacto dessa 

visão renovada do cristianismo em sua geração de militantes dos setores 

 

3

   Respectivamente, Juventude Estudantil Católica e Juventude Universitária Católica.  



4

   Um estudo sobre a experiência da AP no Paraná, por exemplo, apontou uma interface 

com a Juventude Democrata Cristã (DIAS, 2003). Outra vertente foi a do 

protestantismo, evidenciada pelo relevo da atuação de Paulo Wright, de formação 

presbiteriana, no final da década de 1960 e início da seguinte.  

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

167


 

 

leigos da Igreja Católica: “Cultivávamos uma religiosidade muito 



politizada no sentido de uma sociedade justa, como uma visão 

anticapitalista e socialista, e a comunhão entendida como comunidade, 

enfim, muita coisa que não se comparava com a tradição predominante” 

(GONTIJO, 1989, p. 57). Dito de outra forma, “ao invés de a religião ser 

transformada num elemento de impotência e castração das possibilidades 

tanto dos homens quanto das mulheres, na JUC e na JEC ela se 

transformava num elemento de impulso” (SOUZA, 1976, p. 71). 

Nesse contexto, a própria leitura da Bíblia adquiria outros 

contornos. Não se tratava mais de ler a Bíblia, mas o Evangelho, o que, 

garante, “era uma visão bastante revolucionária do que significava o 

cristianismo” (SOUZA, 1991, p. 34). Um fato do cotidiano era ilustrativo. 

Quando estudantes de outras orientações políticas ironizavam o vínculo 

religioso que mantinha, não se sentia atingido: “A religião que estavam 

gozando não era a nossa também, e se eles liam autores franceses, nós 

também, só que noutra vertente” (GONTIJO, 1989, p. 58).  

Crescia, então, a influência da mediação da leitura dos pensadores 

que “fizeram a cabeça” daquela geração de cristãos engajados: Maritain, 

Chardin e Mounier. Herbert de Souza revela, também, o contato com 

duas outras referências que estariam presentes na origem da AP, o 

existencialismo e o marxismo. 

Sobre o existencialismo, diz: “tínhamos, desde aquela época, uma 

visão contra o socialismo real, eu lia Sartre [...]. Éramos muito mais 

empáticos ao pensamento de Sartre do que ao pensamento ortodoxo do 

PC” (SOUZA, 1996, p. 39). A aproximação com o pensamento marxista 

ocorreu de forma emblemática, ainda nos tempos da JEC: “O primeiro 

livro que li de Marx foi através de Ives Calvez, que era um jesuíta. Era 

uma leitura de Marx que trata do problema da alienação em Marx. Tudo 

isso foi produzindo uma cultura”.  Tratava-se de uma leitura filosófica, “o 

que pra nós era uma coisa fascinante também” (SOUZA, 1996, p. 34). 

Recorrente na aproximação entre cristãos e marxistas, o tema da 

alienação ocuparia espaço importante nos documentos e na elaboração 

teórica da AP. 

Foi no curso desse processo que a JUC adotou uma prática 

política e passou a disputar, no início da década de 1960, a direção da 

União Nacional dos Estudantes. Herbert de Souza (1976) ressalta que o 

Congresso de X anos da JUC foi um marco nessa progressão. Primeiro, 

pela aprovação do documento Algumas diretrizes de um ideal histórico cristão 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   17


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal