Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza



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REÂMBULO

 

O sociólogo Herbert de Souza, mais conhecido como Betinho, 

tornou-se, na década de 1990, personagem popular da política nacional, 

em conseqüência da projeção que obteve ao   liderar a campanha “Ação 

da  Cidadania Contra a Miséria e pela Vida”

1

. Antes disso, porém, ele já 



era personagem respeitado nos meios intelectuais e no campo de 

esquerda, seja por sua atuação de sociólogo engajado

2

, seja por ter sido 



um dos fundadores e primeiro coordenador da Ação Popular - AP,  

importante organização de esquerda das décadas de 1960 e 1970.  

Desde a segunda metade da década de 1970, quando se 

encontrava exilado, Herbert de Souza concedeu vários depoimentos 

sobre sua trajetória política, divulgados em obras coletivas ou em livros 

que tematizavam diretamente sua biografia. Entre os muitos aspectos 

abordados, sobressai a história da AP, tendo em vista o protagonismo 

que desempenhou em sua formação e nos primeiros anos de sua 

existência. Não é exagero dizer que, por causa da popularidade adquirida 

por Herbert de Souza em seus últimos anos de vida, tais registros foram o 

                                                           

1

   Tal foi sua popularidade naquela conjuntura que a revista Isto é, a partir de enquete 



feita com seus leitores, considerou Herbert de Souza, no rol de líderes políticos e 

estadistas, a sexta personalidade brasileira mais importante do século XX. No título do 

verbete dedicado a ele, destacava-se a “Ação da  Cidadania Contra a Miséria”. Ficou na 

frente de Fernando H. Cardoso, então presidente da República, e de Luis Inácio Lula da 

Silva. Além disso, tornou-se tema de samba-enredo do carnaval carioca, em 1996, 

homenageado pela Escola de Samba Império Serrano. Faleceu em agosto de 1997, aos 

61 anos. 

2

  Já havia liderado importantes iniciativas cidadãs. Em 1981, fundou o Ibase, uma 



organização não-governamental que tinha como objetivo interferir na vida pública para 

radicalizar a democracia. Em 1983, articulou a Campanha Nacional pela Reforma 

Agrária. Em 1986, fundou a Associação Brasileira Interdisciplinar da Aids. Em 1992, foi 

um dos líderes do Movimento pela Ética na Política, na conjuntura da luta pelo 



impeachment do presidente  Collor.  

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

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canal mais acessível para o grande público ter contato com a história da 



AP. Sua abordagem tornou-se, por tudo isso, fonte indispensável aos 

pesquisadores desse tema. O objetivo deste artigo é analisar a 

especificidade dessa contribuição, ou seja, como a história da Ação 

Popular foi narrada nas memórias de Herbert de Souza. 

Para efeito da análise pretendida, foram selecionados cinco 

depoimentos expressivos. O primeiro registro importante foi divulgado 

no livro Memórias do exílio (SOUZA, 1976). O segundo foi veiculado pelo 

livro Conversas com a utopia (GONTIJO, 1989). O terceiro é uma entrevista 

à revista Teoria e Debateeditada pelo PT (SOUZA, 1991). O quarto é uma 

longa entrevista concedida a um grupo de intelectuais e jornalistas

sistematizada no livro No fio da navalha  (SOUZA,  1996a). O quinto é o 

livro  Revoluções da minha geração, que divulgou depoimentos colhidos por 

François Bougon (SOUZA, 1996b).  

Editados no formato de entrevistas ou em narrativas contínuas, 

esses depoimentos devem ser compreendidos como manifestações do 

universo da memória. Para investigar sua interface com a história, devem 

ser observadas duas coordenadas. A primeira é o entrelaçamento das 

memórias individuais com a experiência coletiva (HALBWACHS, 1990). 

A segunda é que a memória é afetiva, seletiva e recria o passado a partir 

de demandas relevantes à inserção do personagem no presente 

(HALBWACHS, 1990). Dada a natureza do registro, as memórias de 

Herbert de Souza, mais do que o simples resgate de fatos da história da 

AP, procedem a uma interpretação peculiar sobre sua experiência.  

Os depoimentos têm formato e extensão diferentes, até porque os 

últimos abarcam um período mais longo, mas há, nas partes que 

focalizam a experiência da Ação Popular, um roteiro comum. Na 

clivagem dos temas e na sedimentação da interpretação, o primeiro 

registro é base dos posteriores. Constata-se, ainda, que o distanciamento 

de duas décadas entre o primeiro e os últimos depoimentos não introduz 

interferências fundamentais, embora haja nuanças e detalhamento de 

informações na interpretação de Herbert de Souza a respeito da história 

da AP e de seus pontos de inflexão. 

Cumpre observar que não há contradição entre essa constatação e 

o que se afirmou como pressuposto teórico-metodológico para 

investigação do universo da memória. Tudo se explica pelo fato de a 

interpretação de Herbert de Souza ter sido consolidada, em suas linhas 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 

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