Redalyc. A história da açÃo popular nas memórias de herbert de souza


Ação Popular na história do catolicismo



Baixar 274.67 Kb.
Pdf preview
Página14/17
Encontro25.04.2021
Tamanho274.67 Kb.
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   17
Ação Popular na história do catolicismo, apresentada ao I Encontro Nacional de 

História das religiões e das religiosidades (DIAS, 2007). 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

193


 

 

momento em que vamos participar de um processo não vai ser porque 



um chamou ou teve a idéia, mas porque uma necessidade objetiva nos vai 

colocar na situação” (SOUZA, 1976, p. 103). Nessa mesma linha:  

Levou muito tempo para formular: é o supra-sumo do 

voluntarismo e do individualismo dizer: eu faço a revolução. 

Quem faz a revolução é a luta das massas, é a história. [...] O 

revolucionário é muito mais um participante no processo do 

que alguém que cria as condições. Quando eu procurava dizer 

coisas como esta era tachado de supra-sumo do espontaneísmo, 

porque isso era negar o partido (SOUZA, 1976, p. 91). 

As seqüelas da experiência da clandestinidade e do cotidiano em 

um partido militarizado incidem, na mediação do exílio do Chile, na 

elaboração da questão dos verdadeiros agentes políticos: “o que existe é 

uma outra realidade, são as classes, as massas, a Igreja, grupos e 

indivíduos, ou tudo aquilo que eu não soube ver [...]. Desapareceu de 

minha cabeça qualquer idéia no sentido de criar. De criar partidos” 

(SOUZA, 1976, p. 95).   

Em meados da década de 1970, Herbert de Souza, além de sofrer 

os influxos de sua experiência no Chile, era ainda impactado pelas lutas 

populares em Portugal e no Vietnã. A revolução estava em pauta. Em 

seus últimos depoimentos, colhidos em conjunturas de descenso dos 

movimentos revolucionários, de crise do chamado socialismo real e de 

desmoronamento da URSS, percebe-se que manteve uma postura 

anticapitalista, mas aprofundou a ruptura, consolidada em suas linhas 

principais no exílio, com a esquerda tradicional. É o que se verifica neste 

balanço: 

No que diz respeito ao meu engajamento na esquerda, evoluí 

de uma visão estreita e autoritária em seus métodos, muito 

dogmática, em direção a uma outra visão da política, afastando-

me da esquerda clássica. A questão da democracia se tornou, 

cada vez mais, a preocupação central. Matizei e tornei relativo 

o papel dos partidos. Reforcei a importância da ética como 

fator de construção da política. Em meu espírito, apareceram 

outros princípios que qualifico de democráticos. Eles existem 

na realidade, mas não os encontro na teoria. Por exemplo, a 

descentralização. Estou convencido de que descentralização e 

democracia devem andar juntas. Tudo o que vai no sentido da 

centralização é autoritário (SOUZA, 1996b, p. 122). 

 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.



 


194  

Dias


 

 

Desde o exílio no Chile, o conceito-chave que passa a 



desenvolver é o de democracia. Em entrevistas da década de 1990, 

salienta o caráter emancipador da democracia, que seria “absolutamente 

incompatível com o capitalismo. Uma sociedade democrática deve 

necessariamente superar o capitalismo e inventar novas relações no plano 

econômico, político e social” (SOUZA, 1991, p. 40). Em outro 

depoimento, acrescenta:  

democracia deve articular: igualdade, liberdade, diversidade, 

participação e solidariedade. Uma sociedade só é democrática 

se esses cinco princípios  existirem simultaneamente, não 

separadamente. Nenhum deles é limitado. [...] Não chegaremos 

jamais à sua realização completa, mas seus princípios nos 

inspiram e iluminam nosso caminho (SOUZA, 1996b, p. 125). 

Nos primeiros anos da década de 1970, o movimento de 

autocrítica em relação ao militarismo e ao vanguardismo foi um 

fenômeno que atingiu, com diferenças de ritmo e de tonalidades, o leito 

da esquerda revolucionária como um todo (GORENDER, 1987), 

incluindo os remanescentes da Ação Popular em sua fase de reconstrução 

(DIAS, 2004). Mas essa esquerda revolucionária, mesmo em fase de 

autocrítica, não abriu mão do marxismo-leninismo. Herbert de Souza, em 

contrapartida, assumiu uma perspectiva diversa, a começar por sua recusa 

a participar de organizações políticas centralizadas e por romper com o 

que definia como sentido missionário da esquerda.  

A desilusão com a militância nos partidos se manteve até o fim da 

vida de Herbert de Souza. Na primeira entrevista, o país ainda não havia 

passado pela “abertura política” e pela reestruturação partidária. No 

início da década de 1990, indagado sobre sua relação com a origem do 

PT, o principal partido de esquerda criado nas lutas democráticas, 

afirmou: 

Sempre tive uma posição de muita prudência, porque tenho 

grandes dúvidas em relação ao PT. Um partido de quadros para 

mim é um negócio perigoso. Não me inspira confiança. [...] O 

fato de que o PT abriga cinco ou seis vertentes de esquerda 

também me incomoda profundamente, porque eu sei que esses 

grupos levam ao desastre. Por outro lado, eu acho que ele é o 

fenômeno mais importante que aconteceu no Brasil nas últimas 

décadas. Eu torço para que o PT dê certo.  Dada a minha 

história, eu não tenho condições de entrar e lutar para que ele 

Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 11, n. 3, p. 163-198, 2007.

 



A história da Ação Popular nas memórias de Herbert de Souza 

195


 

 

dê certo. Eu diria, como aquelas pessoas que já sofreram uma 



desilusão, ‘eu não agüento a segunda’ (SOUZA, 1991, p. 40). 

Em ocasião posterior, reiterou: “O PT: eu acho que tinha uma 

vacina muito forte. Tudo que se referia a partido, crítica e autocrítica, 

deliberação, decisão, disciplina eu falava: Tô fora, não é comigo” 

(SOUZA, 1996, p. 143).  

Em resumo, após seu retorno do exílio, destituído da pretensão 

de conquistar o poder de Estado ou de se tornar seu agente, Herbert de 

Souza destacou-se como sujeito político na sociedade civil. Primeiro, pela 

criação do Ibase: “Decidi que o Ibase como organização não-

governamental seria suprapartidário e supra-religioso” (SOUZA, 1991). 

Depois, na década de 1990, por intermédio da campanha pela cidadania 

que coordenou. Na época, recusou convite do “presidente da República, 

Itamar Franco, para presidir o Conselho Nacional de Segurança 

Alimentar (Consea), órgão consultivo voltado para o combate à fome no 

Brasil, e decide participar apenas como conselheiro da entidade” 

(PANDOLFFI; HEYMANN, 2005, p. 48). 






Compartilhe com seus amigos:
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   17


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal