Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria



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A

 

QUE

 

TRADIÇÃO

 

PERTENCER

 

 

As  divergências  entre  as  duas  correntes  eram  suficientemente 

grandes,  aos  olhos  de  seus  protagonistas,  para  gerar  intensos  debates, 

disputas  e rupturas  organizacionais,  na medida em  que estavam em pauta 

os  destinos  da  revolução  brasileira  e  a  constituição  da  vanguarda  que  a 

dirigiria.  Não  obstante  a  distância  de  perspectivas,  havia  um  ponto 

comum a ambas as correntes: a necessidade  de superação da “velha”  AP, 



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Dias


 

 

Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011.



 

tida  como  pequeno-burguesa  e  idealista,  em  nome  do  marxismo-

leninismo.  

No  documento  Duas  posições,  elaborado  e  sustentado  pelos 

componentes da “Corrente 2”, que se declaravam “os comunistas da AP”, 

há  uma  releitura  da  trajetória  da  organização,  conduzida  pelo  prisma  do 

processo de sua transformação em  um partido  marxista-leninista. Critica-

se o ecletismo presente na origem da AP:  

Nas  condições  em que surgiu o movimento era  natural  que ele 

fosse  a  convergência  de  tipos  de  militâncias  diferentes.  (...) 

Passam assim a coexistir internamente motivações diferentes de 

engajamento:  uma  posição  revolucionária  socialista,  o 

descontentamento  existente  na  esquerda  brasileira  na  época,  a 

disposição  dos  católicos  de  esquerda  em  escapar  aos  esquemas 

pré-estabelecidos  dos  esquemas  “oficialmente  marxistas”  do 

PCB.  Conviviam  no  mesmo  movimento  tanto  aqueles  que 

procuravam  uma  alternativa  revolucionária  ainda  difusa,  mas 

dentro do campo do  socialismo, como os  que procuravam uma 

terceira  via,  fruto  de  um  anticomunismo  sinuoso  (AP,  1968b, 

p.7). 


A  reavaliação  dessa  política  é  severa.  O  resultado  teria  sido  o 

predomínio  do  reformismo  e  do  antimarxismo.  Após  o  golpe  militar  de 

1964, apesar das modificações promovidas, o peso das permanências teria 

sido  acentuado.  A  Resolução  política  foi  vista  como  resposta  retardada 

ao  desafio  político  de  1964.  Seu  texto  afirmaria  e  aprofundaria  o  grande 

dilema do Documento base:  

O ponto de partida de uma organização  político-revolucionária 

são  posições  metafísicas  ou  a  análise  concreta,  do  ponto  de 

vista de classe? (...). Antes de qualquer outra concepção política 

e  análise  da  realidade,  é  necessária  uma  “interpretação  prévia” 

do  homem,  uma  análise  “filosófica”.  De  lá  vamos  extrair  todo 

o resto (AP, 1968b, p.8). 

A  estratégia  para  a  revolução  brasileira  não  estaria  liberta  da 

busca  de  um  modelo  ideal  e  do  “utopismo”,  marcas  do  caráter  pequeno-

burguês  da  organização.  Entrando  no  universo  da  utopia,  a  RP  não 

colocaria corretamente a questão da ditadura do proletariado e do partido 

de vanguarda, pedras angulares do marxismo-leninismo, referencial que se 

buscava consolidar:  

A  necessidade  de  se  afirmar  o  caráter  democrático  do 

socialismo  revela  a  necessidade  de  se  demarcar  da  ditadura  do 




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



proletariado  e  a  desconfiança  de  que  esta  não  seja  de  fato  a 

única democracia possível. Assim, o caráter de classe proletário 

da vanguarda organizada, em seu  partido, não tem  sentido nem 

razão de ser levantado (AP, 1968b, p.9).  

Outra síntese parcial desse processo pode ser vista no documento 




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