Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria



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Resolução política (RP), a primeira resposta aos novos desafios. A quarta 

fase se estenderia até o momento então vivido, ou seja, 1966.  




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



A  RP,  aprovada  em  1965,  visava  estabelecer  uma  política 

revolucionária  para  a  organização,  a  ser  aplicada  imediatamente,  sem 

adiamentos,  para  tirá-la  do  estágio  em  que  vivia  e  inseri-la  em  uma  nova 

fase  de  sua  história,  definida  como  rigorosamente  popular  e 

revolucionária.  Para  tanto,  procede  a  um  reexame  da  orientação  vigente 

no período anterior, condensada, principalmente, no Documento base.  

A  relação  com  esse  documento  e  com  seu  conteúdo  não  é, 

contudo,  de  ruptura  total.  Assevera:  “Enganam-se  aqueles  que  pensam 

estar  o  Documento  base  superado.  As  suas  linhas  mestras  e  definidoras 

conservam-se  vivas  e  atuais.  O  que  ele  precisa  é  ser,  antes  de  tudo, 

conhecido  e  entendido,  e  depois  urgentemente  completado”  (AP,  1965, 

p.9  -  grifos  do  original).  A  crítica  frontal  atinge  mais  a  parte  da  tática  e 

estratégia política do que a fundamentação filosófica. 

No  reexame  da  história  da  AP,  faz-se  incursão  sobre  a  gênese  da 

organização,  detendo-se  em  duas  fases  localizadas  em  1962.  Na 

comparação, o DB foi saudado como um expressivo  avanço em relação à 

formulação  que  o  precedeu,  lançando  “os  fundamentos  de  uma 

interpretação  filosófica,  audaciosa,  renovadora  do  Homem  e  da 

Histórica”.  Entende-se  que  o  DB  retorna  à  análise  histórica  e,  afastando 

as  “posições  ingênuas  de  simples  anticapitalismo”,  estabelece,  “pela 

primeira  vez,  com  todo  o  rigor  e  alcance,  nossa  opção  pelo  socialismo” 

(AP, 1965, p. 9).  

A análise  reafirma a atualidade das posturas  críticas,  presentes  no 

DB,  em  relação  às  características  burocráticas  e  autoritárias  das 

experiências  socialistas.  Resgatam-se,  também,  as  passagens  que  falam 

“da complexidade do  mundo socialista em gestação”, que  poderia  abrigar 

“experiências  as  mais  diversas  e  com  orientações  ideológicas  distintas” 

(AP, 1965, p. 9). O horizonte era o socialismo como humanismo.  

Sobre  os  caminhos  da  revolução  brasileira,  aponta  que  o  DB 

acertara  em  sua  critica  ao  "etapismo".  Mantém-se  a  compreensão  de  que 

não deveria  haver  uma fase  burguesa, embora  não fossem desconhecidos 

arcaísmos nas estruturas do  país. Acusava-se  a  burguesia nacional de  não 

ter  autonomia  em  face  da  dominação  imperialista.  A  grande  deficiência 

do DB se encontrava na ausência de uma política global que articulasse as 

lutas  parciais  com  a  preparação  ativa  do  processo  revolucionário.  A 

política  anterior,  por  um  lado,  excluía  a  disputa  eleitoral,  uma  das 

principais  formas  da  luta  institucional,  e,  por  outro  lado,  era  ambígua  ou 

vaga  em  relação  à insurreição.  De  um  modo ou de  outro, não era  precisa 



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Dias


 

 

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quanto  à  forma  de  conquistar  o  poder.  Suas  limitações  teriam  ficado 

expostas com a emergência do golpe militar. 

Redefinição  de  grande  impacto,  a  RP  fixou  o  objetivo  de 

conquistar  o  poder  pela  via  insurrecional.  A  concepção  de  revolução 

abarcava  as  tarefas  de  libertação  nacional  com  as  tarefas  socialistas.  Nos 

termos  da  resolução,  tratava-se  de  uma  revolução  socialista  de  libertação 

nacional,  conceito  que  absorvia  influência  das  estratégias  das  revoluções 

cubana e chinesa. 

Nessa  conjuntura  dos  primeiros  anos  da  ditadura,  tem-se  que  a 

maior  influência  era  da  Revolução  Cubana.  Em  períodos  posteriores, 

regidos pela hegemonia maoísta, essa fase seria referida como “foquista”, 

adjetivo  derivado  da  “teoria  do  foco  revolucionário”.  Viriam  a  ser 

constituídas  delegações  para  conhecer  diretamente  as  experiências 

revolucionárias  chinesa  e  cubana.  Em  pouco  tempo,  prevaleceria  a  linha 

chinesa.  

O  “Histórico”  saúda  a  reformulação:  “Saía  o  movimento  unido, 

de  uma  grande  crise  de  definição,  aprovando  sua  RP  por  unanimidade” 

(AP,  1966a,  p.  13).  A  aplicação  das  diretrizes  não  se  deu  sem  conflitos. 

Nessa  fase  de  adesão  à  luta  armada,  de  acordo  com  registro  do  dirigente 

Duarte Pereira (1999a; 1999b), a AP viveu sua primeira luta interna. Teria 

ficado  explícita  a  contradição,  existente  desde  o  início,  entre  a  corrente 

revolucionária  e  a  reformista.  Estabeleceu-se  a  “re-opção”,  que  implicou 

o afastamento de militantes e dirigentes que não a aceitavam. O principal 

núcleo de resistência localizava-se em São Paulo.  

O  diagnóstico  realizado  no  “Histórico”  problematiza,  também, 

dimensões que considerava frágeis na Ação Popular, atinentes ao perfil da 

militância,  à  base  social,  ao  estilo  de  trabalho.  Nesse  cenário,  promoveu-

se  pesquisa  interna  para  aferir,  de  maneira  realista,  a  composição  da  AP, 

presumivelmente  para  preparar  as  mudanças  na  política  e  medir  seu 

impacto. Entre  outros aspectos,  o levantamento investigou: o período de 

ingresso,  as  características  do  estilo  de  militância  e  área  de  inserção,  a 

consistência  da  formação  política  e  as  influências  recebidas.  Embora 

fossem acusadas falhas  de  metodologia e houvesse  um grau de abstenção 

nas respostas, o resultado era representativo. 

A maioria dos militantes que responderam, na casa de 68%, havia 

ingressado  no  pós-64,  sendo  que  40% já  no  período  da RP. A  militância 

anterior  na  Ação  Católica  não  era  mais  o  caminho  principal,  mas,  no 

somatório geral, ainda era influente. O movimento estudantil mantinha-se 

como  o  núcleo  principal  de  recrutamento.  Sobrevivia  a  influência  de 




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pensadores  cristãos  progressistas,  em  um  contexto  em  que  se  constatava 

crescente  interesse  pelo  marxismo.  O  estilo  de  militância  e  a 

compreensão dos contornos da luta armada  eram considerados débeis.  A 

ampla  maioria  não  vinculava  a  necessidade  de  um  partido  de  vanguarda 

para a condução da revolução (AP, 1966b). 

Em reunião do Comitê Nacional de 1967, ao debater a questão do 

partido  e  do  marxismo,  a  direção  da  AP  “aprovou,  entre  outros,  dois 

importantes  documentos:  um  sobre  o  “Debate  Teórico  e  Ideológico 

(DTI)” e outro sobre o  “Partido de Vanguarda”,  necessário  para  dirigir a 

revolução  brasileira.  Inicialmente,  contudo,  decidiu  que  não  deveria 

constar  da  resolução  o  caráter  de  classe  do  partido,  tema  que  deveria  ser 

estudado  em  razão  das  particularidades.  Nesse  mesmo  ano,  tal  impasse 

foi  superado  com  a  compreensão  da  necessidade  de  um  partido 

proletário.  Por  seu  turno,  a  resolução  sobre  o  DTI  convocou  o  estudo  e 

debate  organizado  do  marxismo.  Em  anos  posteriores,  essa  fronteira  de 

transformação  ideológica  seria  vista  como  início  do  processo  de 

“proletarização” da AP. 

O  documento  que  convocou  o  Debate  Teórico  e  Ideológico  fez 

um  exame  do  período  anterior.  Resgatou  que  o  Documento  base 

atribuía  uma  importância  decisiva  ao  marxismo,  mas  acusou  que  nunca 

houve  um  estudo  sistemático  a  seu  respeito.  Havia,  portanto, 

conhecimento  superficial  ou  incorreto  ou  mesmo  indisposição  com  o 

marxismo.  A  AP  quase  teria  caído  na  pretensão  de  forjar  uma  teoria  à 

margem  da  tradição  revolucionária  contemporânea.  Reconheceu  que 

havia  uma  definição  socialista,  afirmada  no  DB  e  reafirmada  na  RP

Faltava,  porém,  uma  teoria  científica,  sem  a  qual  essa  definição  ficava 

vulnerável  às  deformações  da  ideologia  dominante.  Essa  teoria  de  base 

científica seria o marxismo, eixo do processo então instaurado. A ruptura 

é inequívoca:  

Mas  assim  como  não  se  deve  pedir  demais,  também  não  se 

deve  pedir  de  menos  do  debate  atual.  Pedir  de  menos  seria 

negar  a  necessidade  de  centralizar  o  debate  no  estudo  do 

marxismo,  e  pretender  estudar,  ao  mesmo  tempo,  o 

pensamento  de  Teilhard  Chardin,  Emanuel  Mounier,  Bertrand 

Russel  etc.  (...)  Na  etapa  atual,  para  que  se  possa  chegar  a 

resultados  coerentes  e  inclusive  preparar  etapas  futuras,  é 

necessário  considerar  o  estudo  crítico  do  marxismo  como  eixo 

e princípio ordenador da discussão (AP, 1967, p. 14). 




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Se  o  marxismo  era  o  eixo  da  discussão,  isso  não  impediu  a 

emergência  de  posições  antagônicas.  Documento  emitido  nos  primeiros 

meses  de  1968  estimava  que,  no  início  desse  debate,  havia  cinco  alas 

internas.  Duas  delas  seriam  antimarxistas,  adeptas  da  sobrevivência  do 

reformismo  na  organização.  As  outras  variavam  em  sua  assimilação  do 

marxismo.  A  contradição  principal  seria  entre  reformistas  e 

revolucionários.  A  resolução  do  DTI  voltava-se,  explicou,  contra  os 

antimarxistas  (AP,  1968c).  Segundo  apontamentos  do  dirigente  Duarte 

Pereira,  havia  embates  contra  uma  corrente  antimarxista  e  outra  que 

defendia  definição  marxista  imediata  (PEREIRA,  1999a).  O  citado 

documento  abordou  a  relação  da  transformação  em  curso  com  a  origem 

religiosa  de  muitos  membros.  Defendeu  o  princípio  de  que  não  havia  a 

incompatibilidade  da  presença  de  cristãos,  mas  ressaltou  que,  dada  a 

contradição  entre  o  materialismo  dialético  e  a  religião,  deveria  haver  um 

trabalho de persuasão a respeito (APML, 1968c). 

Nesse  processo  de  definição  pelo  marxismo,  não  se  pode  deixar 

de  registrar  a  influência  da  obra  de  Althusser,  que  chegou  por  meio  de 

militantes  exilados  na  França.  Esse  foi  um  instrumento  teórico  de  que  a 

AP  se  utilizou  para  elaborar  sua  ruptura  com  o  humanismo, 

predominante  em  sua  origem  e  subjacente  nessa  fase  de  transição  ao 

marxismo.  O  pensamento  católico  progressista  que  influenciara  a 

formulação  teórica  da  AP  tivera  seu  ponto  de  contato  com  o  marxismo 

na  interlocução  com  os  textos  do  “jovem  Marx”.  Althusser  foi  um  dos 

críticos  mais  implacáveis  dessa  fase  do  pensamento  marxiano,  na  qual 

estariam  em  evidência  as  questões  da  alienação  e  da  autorrealização 

humana.  Já  no  Marx  da  maturidade,  superada  sua  fase  neo-hegeliana, 

estaria  a  ciência  do  materialismo  histórico,  com  suas  determinações  de 

estruturas  e  de  classes.  De  qualquer  forma,  a  crítica  ao  althusserianismo 

não tardaria. 

No desfecho das disputas encetadas pelo DTI, a AP se dividiu em 

duas  grandes  correntes,  às  quais  correspondiam  pontos  de  vista 

divergentes sobre a natureza da revolução e sobre a questão do partido de 

vanguarda.  A  “corrente  1”  apresentou  o  “esquema  de  6  pontos”, 

claramente  identificado  com  o  maoísmo,  declarado  a  terceira  etapa  do 

marxismo, o marxismo da atualidade. O Brasil passava a ser caracterizado 

como  um  país  semicolonial e semifeudal. A revolução deveria ser de tipo 

nacional-democrático,  por  intermédio  da  estratégia  da  guerra  popular 

prolongada.  A  arena  privilegiada  da  luta  revolucionária  seria  o  campo. 

Defendia  que  existira  um  partido  de  vanguarda  no  Brasil,  mas,  como  

entrara  em  degenerescência,    sua  reconstrução  era  necessária.  Sob 



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inspiração  da  Revolução  Cultural  chinesa,  estabelecia  que  a  militância  da 

AP  fosse  reeducada  em  um  processo  de  “integração  na  produção”,  por 

meio do qual seria inserida no mundo do trabalho, na cidade e no campo 

(AP, 1968a). 

A  "corrente  2"  definia  a  sociedade  brasileira  como  capitalista  e 

que  a  revolução  deveria  ter  um  caráter  imediatamente  socialista.  Não 

aceitava a tese da terceira etapa do marxismo e ridicularizava a política de 

integração na produção. Diante do revisionismo assumido pelo PCB e das 

violações  que  suas  dissidências  teriam  cometido  ao  marxismo-leninismo, 

eliminava  a  hipótese  da  reconstrução  do  partido.  Defendia  a  construção 

de  “um  novo  Partido  de  Vanguarda  do  Proletariado  de  tipo  Leninista” 

(AP, 1968b). 

Em  1968,  na  I  Reunião  Ampliada  da  Direção  Nacional  (RADN), 

prevaleceram  as  posições  da  “corrente  1”.  Prova  da  contundência  da 

disputa,  membros  da  “corrente  2”  foram  expulsos  da  AP.  Seus  líderes 

participaram,  em  1969,  da  criação  do  Partido  Revolucionário  dos 

Trabalhadores  –  PRT.  Qualificadas  como  “foquistas”  por  seus 

adversários  maoístas,  as  teses  da  “corrente  2”  seriam  parcialmente 

reabilitadas no final da década de 1970.  

Nesses  primeiros  anos  de  ditadura,  a  AP  desempenhou 

importante  papel  na  rearticulação  do  movimento  estudantil  e  buscou 

estreitar  laços  com  as  lutas  dos  trabalhadores  urbanos  e  rurais.  Manteve, 

assim,  vínculos  com  as  principais  jornadas  políticas  de  1968.  Na 

conjuntura  imediatamente  posterior à decretação do  AI-5, a exemplo das 

outras  organizações  da  “esquerda  revolucionária”,  a  AP  concentrou  seus 

esforços  na  preparação  da  luta  armada,  sob  inspiração  da  estratégia  da 

Guerra  Popular.  Para  a  AP,  o  AI-5  teria  sido  uma  confissão  de  fraqueza 

do  regime  ditatorial.  Os  principais  laços  com  movimentos  de 

trabalhadores,  a  partir  de  1968,  estiveram  ligados  ao  processo  de 

"integração na produção", que entraria em declínio na sequência.  






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