Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria



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IDEOLOGIA

 

E

 

CAMINHOS

 

PRÓPRIOS

 

 

A  AP  foi  oficialmente  fundada  em  fevereiro  de  1963,  em 

congresso  realizado em Salvador,  no  qual se consolidaram  movimentos e 

fases  vividos  na  conjuntura  imediatamente  anterior.  A  linha  política  foi 

sintetizada  na  resolução  aprovada  pelo  congresso,  batizada  como 

Documento base.  

A compreensão da origem da AP pode levar a fatos mais remotos, 

mas  tem-se,  em  uma  cronologia  estritamente  ligada  a  essa  denominação, 



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Dias


 

 

Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011.



 

que  os  principais  passos  para  sua  formação  aconteceram  em  1962.  Da 

primeira  reunião,  sediada  em  São  Paulo,  extraiu-se  um  documento 

chamado  Estatuto  ideológico,  que  afirmava  o  compromisso  da 

embrionária  organização,  então  denominada  Grupo  de  Ação  Popular 

(GAP),  com  o  socialismo  e  com  a  revolução  brasileira.  Em  junho  de 

1962,  em  sua  segunda  reunião,  ocorrida  em  Belo  Horizonte,  foram 

adotados o nome Ação Popular e a sigla AP.  

O  documento  “Histórico”  circunscreve  os  primeiros  passos  no 

ano  de  1961.  Faz  referência  à  conquista  da  UNE  (União  Nacional  dos 

Estudantes)  e  ao  subsequente  trabalho  de  articulação  nacional  em  favor 

do  movimento  que  culminaria  na  formação  da  AP,  realizado  em  paralelo 

à  caravana  conhecida  como  UNE  -  Volante.  Sem  fazer  citação  explícita 

ao  nome  da  instituição  religiosa,  a  cronologia  refere-se  ao  engajamento 

político  da  liderança  da  Juventude  Universitária  Católica  (JUC),  a  partir 

do qual houve a conquista, em 1961, da direção da UNE.  

A  investigação  da  origem  da  AP,  além  dos  parâmetros  dos 

documentos  oficiais,  está  balizada  por  bibliografia  relativamente  ampla, 

seja  de  origem  acadêmica,  seja  de  produção  de  ex-dirigentes.  Em  um 

caminho e no outro, com nuanças de interpretação, há o reconhecimento 

de  uma  linhagem  que  remete  à  radicalização  da  juventude  católica,  no 

final  da  década  de  1950  e  início  da  seguinte.  Com  efeito,  seu  principal 

núcleo  constituinte  tinha  raízes  nos  setores  leigos  do  catolicismo, 

especialmente na JUC.  

Vivia-se  conjuntura  caracterizada  pela  elevação  da  influência  de 

movimentos  e  forças  de  esquerda  na  política  nacional.  Formada  para 

cristianizar  os  estudantes  universitários,  a  JUC  passou,  na  segunda 

metade da década de  1950,  por  uma transformação política. No  início  da 

década de  1960, tornou-se força dirigente na UNE, fazendo alianças com 

setores da esquerda estudantil. 

O  processo  de  radicalização  dos  militantes  da  JUC  chocou-se 

com  os  limites  tolerados  pela  hierarquia  da  Igreja  Católica.  Como 

resposta à crescente autonomia e às posições assumidas pela juventude, a 

alta  direção  da  Igreja  emitiu,  em  1961,  um  documento  para  disciplinar  o 

novo  fenômeno,  afirmando  que  "os  cristãos  não  podem  considerar  o 

socialismo  como  uma  solução  para  os  problemas  políticos  e  sócio-

econômicos e muito menos como a solução" (CNBB, 1961, p. 947). Além 

disso,  Aldo  Arantes,  presidente  da  UNE,  foi  expulso  da  JUC  e 

determinou-se  que,  a  partir  de  1962,  nenhum  estudante  jucista  poderia 

participar  de  eleições  e  entidades  estudantis,  sem  deixar  seu  posto  na 




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



instituição  católica.  Colocou-se,  então,  o  objetivo  de  criação  de  uma 

organização  laica,  que  aglutinasse  por  motivos  políticos.  Em  1962,  foi 

desencadeada  uma  série  de  reuniões  e,  em  menos  de  um  ano,  estaria 

constituída a Ação Popular. 

Se não se pode elidir essa linhagem, deve-se atentar para o fato de 

a Ação Popular,  desde o princípio, assumir-se como um movimento mais 

amplo,  aberto  a  outras  influências,  e  incorporar  militantes  de  origem 

diversa. Procurou  organizar-se, segundo as  palavras  de Herbert  de  Souza 

(1976),  seu  primeiro  coordenador,  como  um  movimento  nacional 

alternativo ao PC. Assim, atraiu, além dos católicos progressistas, cristãos 

de  outros  matizes

1

  e  militantes  independentes,  entre  os  quais  havia 



marxistas (PEREIRA, 1999b). 

O  texto  do  Documento  base  não  faz  incursões  diretas  nessas 

etapas  anteriores,  nem  às  realizadas  sob  a  chancela  da  AP  nem  a  uma 

genealogia  pouco  mais  remota.  Pode-se  inferir  que  seu  interesse  era 

afirmar,  no  ato  inaugural  do  congresso  de  fundação,  a  identidade  da 

nascente  organização.  Um  balanço  de  sua  gênese  talvez  fosse  tão 

inadequado quanto excessivo. 

Entretanto,  alguns  temas  antes  esboçados  são  aprofundados  no 



DB,  que  sistematiza  a  identidade  da  AP  em  torno  da  elaboração  de 

ideologia  e de caminhos próprios. Buscava-se formular  uma nova síntese 

política,  em  que  podiam  ser  reconhecidas  influências  do  cristianismo,  do 

existencialismo e do marxismo. O conceito-chave desse documento era o 

“socialismo  como  humanismo”,  por  meio  do  qual  a  AP  criticava  as 

ditaduras de esquerda e o  chamado  socialismo real. Defendia-se a  tese de 

que,  no  complexo  mundo  socialista  em  gestação,  poderiam  existir 

experiências com orientações ideológicas plurais. A realidade comportava 

a  possibilidade de "diversas concepções de  passagem ao socialismo". Por 

isso,  a  experiência  estaria  demonstrando  que  o  socialismo  não  se 

confundia,  necessariamente,  com  o  bloco  político-militar  soviético.  No 

seio  de  sua  geração,  a  singularidade  da  AP  decorria  do  fato  de  não 

pertencer  nem  reivindicar  uma  linhagem  especificamente  marxista, 

embora sofresse sua influência. 

                                                         

1

   No  Paraná,  houve  interseção  política  entre  a  AP  e  a  Juventude  Democrata  Cristã. 



Embora  sem  vínculos  orgânicos  fortes,  a  JDC  alinhava-se  com  a  AP  nas  questões 

nacionais  do  movimento  estudantil  (DIAS,  2003).  Outra  vertente  foi  a  do 

protestantismo, cujo caso mais emblemático foi representado pela atuação  do  dirigente 

Paulo S. Wright, de formação presbiteriana (WRIGHT, 1993). 




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A  estratégia  da  AP,  em  contraponto  à  linha  do  PCB,  recusava  a 

concepção de que deveria haver uma fase de consolidação do capitalismo 

como  etapa  necessária  à  revolução  brasileira.  Não  supunha  possível, 

contudo,  uma  revolução  imediata.  Dispunha-se  a  desencadear  o  que 

chamou  de  “processo  de  preparação  revolucionária”,  definido, 

genericamente, como "mobilização do povo, na base do desenvolvimento 

de seus  níveis de consciência  e organização"(In: SOUZA LIMA,  1979,  p. 

142).  O  DB  salienta  que  não  cabia  à  AP  antecipar  como  ocorreria  o 

processo  revolucionário.  Reconhecia,  porém,  que  "a  história  não  registra 

quebra  de  estruturas  sem  violência  gerada  por  essas  mesmas  estruturas, 

que produzem, em  última análise, essa conseqüência"(In: SOUZA LIMA, 

1979, p.137). 

Nesse  momento,  a  AP  definia-se  como  um  movimento  e  não 

como  um  partido  político.  É  elucidativo  o  comentário  posterior  de  um 

dirigente, proferido  na época em que  o objetivo de transformação em um 

partido  marxista-leninista  entrara  em  pauta:  “nem  nos  púnhamos  a 

questão  de  sermos  um  partido  marxista-leninista,  nem  nos  púnhamos 

como  partido  e  refutávamos  a  idéia  de  um  partido  como  uma  idéia 

burguesa"(AP, 1971c, p. 3). 

Entre as novas forças de esquerda que disputavam a cena política 

com  o  PCB,  a  AP  foi  a  que  teve  maior  influência  social,  exercendo  a 

hegemonia  sobre  a  UNE  e  incidência  sobre  a  organização  dos 

movimentos  sindicais  rurais.  De  qualquer  forma,  sua  práxis,  identificada 

com  o  horizonte  da  revolução  brasileira,  não  ultrapassou  o  movimento 

em  favor  de  reformas  estruturais  que  marcou  aquela  conjuntura 

(GAVIÃO,  2007).  O  rápido  crescimento  que  a  AP  experimentou  em  seu 

pouco  tempo  de  existência  foi  interrompido  com  o  golpe  de  Estado  de 

1964 e com a instauração da ditadura. 




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