Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria



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Palabras Clave:  

Acción  Popular  Marxista  Leninista;  Maoísmo  en  Brasil; 

Izquierda Católica. 

PREÂMBULO 

Em  1966,  a  Ação  Popular  (AP),  organização  de  esquerda  cujo 

congresso  de  fundação  ocorrera  apenas  três  anos  antes,  elaborou  um 

documento  intitulado  “Histórico”.  De  forma  esquemática,  dividiu  em 

quatro  fases  sua  trajetória  e  fez  um  balanço  de  cada  uma  delas  e  do 

conjunto da experiência. 

Pode  parecer  exagero  que  uma  organização  de  tão  curta  duração 

tenha  feito  balanço  detalhado  de  sua  história,  mas  não  se  tratava  de 

exercício  diletante.  O  advento  da  ditadura  civil-militar  havia  imposto  ao 

conjunto  da  esquerda  uma  reflexão  sobre  a  derrota  sofrida  em  1964.  A 

AP  não  passou  incólume.  Viveu,  então,  um  processo  de  reformulação  e 

atualização  de  seu  projeto  político,  o  que  exigiu  um  diálogo  com  o 

passado.  Em  futuro  próximo,  enfrentaria  outros  momentos  de 

redefinição estratégica, nos quais tais exercícios, com as cores próprias de 

cada época, voltariam a acontecer.  O presente texto investiga como a AP 

elaborou  e  reelaborou  o  sentido  de  sua  experiência,  em  face  das 

redefinições políticas que vivenciou.  

Em inspirador estudo, Dulce  Pandolffi (1995) demonstra como a 

produção  da  memória  é  inerente  à  práxis  dos  partidos  marxistas,  que 

mantêm  uma  relação  diferenciada  com  a  história.  Tal  produção  faz  com 

que  sejam  entrelaçadas  três  temporalidades:  passado,  presente  e  futuro. 

Se a memória é construção do presente sobre o passado (HALBWACHS, 

1990),  nesse  caso  ela  sofre  influência  do  projeto  político,  articulado  com 



A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

113 


 

 

Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



um  futuro  de  longo  alcance,  cujo  horizonte  é  a  nova  sociedade.  Esse 

exercício  se  faz  com  a  subjetividade  dos  agentes  políticos  e  obedece  às 

hegemonias instauradas, exigindo a atualização da construção da memória 

e da identidade (PANDOLFFI, 1995). 

Atento  ao  papel  que  a  memória  desempenha  na  formação  da 

identidade,  Michael  Pollak    observa  que  as  instituições  políticas  não 

podem “mudar de direção e de imagem brutalmente a não ser sob o risco 

de  tensões  difíceis  de  dominar,  de  cisões  e  mesmo  de  seu 

desaparecimento”.  Tal  risco  pode  tornar-se  realidade  se  os  membros 

deixarem de se “reconhecer na nova imagem, nas  novas interpretações de 

seu passado individual e no de sua organização” (POLLAK, 1989, p. 10).  

A  particularidade  da  AP  reside  no  fato  de  sua  identidade  ser 

reconstruída  a  partir  de  deliberadas  rupturas  com  seu  passado,  às  quais 

correspondem  cisões  organizativas  de  impacto.  A  AP  caracteriza-se  por 

uma origem heterodoxa, aberta a diferentes influências doutrinárias, e por 

ter  rompido,  na  conjuntura  posterior  a  1964,  com  aquela  identidade  e 

filiar-se  à  tradição  do  marxismo-leninismo.  Promoveu,  a  partir  de  1968, 

uma  espécie  de  refundação,  por  meio  da  qual  declarou  morta  a  “velha 

AP”. O caminho da definição da linha marxista-leninista levou a acirradas 

lutas internas e a dramáticas cisões. 

Analisa-se, em suma, como a AP, a fim de atualizar sua identidade 

política,  reescreveu  o  sentido  de  sua  história.  Verifica-se  como  procurou 

reinterpretar  cada fase de sua existência, com o objetivo de legitimar, nos 

marcos  do  que  considerava  ser  o  verdadeiro  marxismo-leninismo,  as 

opções  recentes.  São  utilizados  os  documentos  que  deram  suporte,  na 

própria  época,  aos  embates  políticos  em  torno  dessa  reformulação  e 

intervenções  públicas  de  ex-dirigentes.  São  consideradas  as  posições  em 

disputa,  das  quais  são  investigados  os  pontos  de  convergência  e 

divergência. 




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