Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria



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Programa  Básico  e  na  resolução  do  CC  em  novembro  de  1971,  e  a 

situação  vivida  no  momento.  Todavia,  alega  que,  com  a  dinâmica  dos 

debates e da luta interna, já havia unidade real nas questões fundamentais 

da  revolução  com  o  PC  do  B,  especialmente  na  concepção  de  partido  e 

do  programa  político.  Vale  dizer,  as  posições  político-ideológicas 

declaradamente aceitas são as do PC do Brasil (APML, 1973b, p.2).  

A  essa  unidade  de  concepção,  somava-se  a  necessidade  de 

reforçar  o  PC  do  B,  que  havia  sido  abalado  por  golpes  da  repressão,  e  a 




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



própria  experiência  da  Guerrilha  do  Araguaia.  Estabelecia-se  a 

necessidade  de  incorporação  em  clima  de  urgência.  Ao  reconhecer  que  o 

PC do Brasil era o único e  verdadeiro partido da classe operária, dono de 

uma  linha  política  correta  e  justa,  a  AP  coroava  seu  processo  de 

transformação,  a  que  chamava  de  “proletarização”,  iniciado  em 

1967(APML, 1973b). 

Conquanto a adesão significasse subordinação à disciplina interna 

do PC do B, a incorporação orgânica deveria ser progressiva e cuidadosa: 

“O esquema organizativo da Ação Popular deverá continuar funcionando 

até  que  o  processo  de  incorporação  e  o  partido  dele  necessitem”(APML, 

1973b,  p.  4).  Sobre  o  II  Congresso,  anuncia  que  “alguns  passos  práticos 

(...)  serão  esclarecidos  posteriormente”  (APML,  1973b,  p.4).  Para  os  que 

seguiram esse caminho, o evento  não viria a ocorrer.  

Em  livro  sobre  história  da  AP,  Haroldo  Lima  e  Aldo  Arantes 

apresentam justificativas. Para eles, previsto para resolver as divergências, 

com  a  dinâmica  dos  acontecimentos  e  a  consolidação  das  posições,  o 

congresso  perdera  sua  função.  Adicionam,  ainda,  questões  de  segurança, 

impostas pela conjuntura “fascista” e pelo terrorismo de Estado contra os 

comunistas. Se fosse  realizado,  o  papel do  congresso não seria  mais o de 

promover  a  conclusão  do  debate,  um  fato  precipitado  pelas 

circunstâncias,  mas  o  de  fazer  o  balanço  final  da  organização  (LIMA; 

ARANTES,  1984).  A  transição  para  completa  incorporação  orgânica 

duraria  alguns  anos.  De  qualquer  forma,  para  os  que  decidiram  ingressar 

no PC do B, fechara-se, em 1973, o ciclo de existência da Ação Popular. 

A  visão  mais  ampla  desse  processo  exige  a  percepção  de 

divergências  no  seio  da  ala  majoritária  e  a  reação  da  chamada  minoria. 

Protagonista  da  aproximação  entre  a  APML  e  o  PC  do  B,  o  dirigente 

Duarte  Pereira  teve  posição  distinta  nesse  desfecho.  Desligou-se  do 

Bureau  no  início  de  1973,  quando  tentou  resolver  algumas  pendências 

existentes.  Por  intermédio  do  documento  Estevão  e  o  PC  do  B

consolidado  em  1999,  esclareceu  seu  posicionamento.  Uma  discordância 

dizia  respeito  à  não  realização  do  II    Congresso,  que  teria  o  papel  de, 

além  de  resolver  a  oposição  entre  os  campos  em  disputa,      solucionar  as 

contradições  da  maioria.  Não  concordava,  também,  com  a  revisão 

unilateral  das  posições  da  organização  a  que  pertencia.  Mantinha 

divergências importantes e reivindicava canais apropriados para exercê-las 

no  seio  do  novo  partido.  Discordava,  por  exemplo,  da  defesa 

incondicional  de  Stalin  e  de  seu  regime,  traços  indeléveis  do  PC  do  B, 

pautando-se  em  certa  tradição  crítica  presente  desde  as  origens  da  AP 

(PEREIRA, 1999a; 1999b). 




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Dias


 

 

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Na  irradiação  da  temperatura  desse  conflito,  Jair  Ferreira  de  Sá 

emitiu  documento,  sistematizando  um  balanço  do  processo  e  de  seus 

desdobramentos.  Na  disputa  da  memória  sobre  a  luta  orgânica  pelo 

controle  da  organização,  acusou  o  outro  setor  de  utilizar  maiorias 

eventuais em certos níveis da direção, especialmente na  direção central, e 

de composições temporárias e organismos incompletos para forçar a ideia 

de  unidade  entre  o  Programa  básico  e  o  programa  do  PC  do  B,  com 

vistas  a  acelerar  a  unificação  com  aquele  partido  e,  assim,  deter  o 

movimento de  retificação  da linha política e travar  o possível avanço  das 

posições  da  esquerda.  Evocando  para  a  ala  que  liderava  legitimidade  de 

preservar  a  organização  própria  da  APML,  propôs  o  desafio,  contido  no 

título do texto,  de fazer  uma transição  ao II Congresso.  Juntamente  com 

seus  aliados,  procurava  preservar,  com  os  matizes  de  sua  leitura,  a 

memória e os marcos da história. Daí o fato de convocar o II Congresso, 

obedecendo à enumeração estabelecida (APML, 1972e). 

Não  é  possível  detalhar  os  fatos  dessa  disputa,  repleta  de 

acusações  recíprocas  de  deslealdade.  Não  há  dúvida  de  que  essas 

questões,  relacionadas  com  a  legitimidade  das  decisões,  têm  relevância, 

mas,  nos  limites  dispostos,  o  foco  dirige-se  sobre  a  questão  mais  ampla, 

ou seja, como era reescrito o sentido da história da Ação Popular. 

ala  majoritária 



estabeleceu 

uma 


linhagem 

entre 


comportamento  dos  antagonistas  daquela  conjuntura  e  o  passado  mais 

remoto  da  organização  (APML,1973a).  Formulou  a  interpretação  de  que 

sempre  existiram,  em  combate  à  afirmação  de  uma  linha  justa, 

persistentes  manifestações  de  tendências  pequeno-burguesas  na  luta 

interna.  Isso  seria  sobrevivência  do  “terceirismo”,  busca  de  uma  terceira 

posição, presente  desde o  nascimento da  AP. Sempre que  uma tendência 

era  derrotada,  ressurgia  sob  outra  forma.  São  arroladas  três  incidências 

importantes: em 1965, o conflito opôs os revolucionários aos reformistas; 

em  1967/68,  o  embate  foi  entre  os  marxistas-leninistas  e  os  fidelistas; 

finalmente,  a  luta  mais  aguda  envolveu  os  marxistas-leninistas  e  os 

neotrotskistas. Assim, o terceirismo ideológico emergia como variante do 

trotskismo (APML,1973a). Em sentido mais amplo:  

A  incorporação  da  AP  ao  PC  do  Brasil  foi,  assim,  no  plano 

interno,  uma  inequívoca  vitória  do  marxismo-leninismo  e  uma 

flagrante derrota do revisionismo. Reforça  a tendência geral de 

aglutinação  em  torno  do  PC  do  Brasil  e  aponta  para  os 

marxistas-leninistas  de  outras  origens  o  caminho  provado  que 

devem  seguir  para  ajudar  na  construção  do  partido  do 

proletariado no Brasil (LIMA; ARANTES, 1984 p.169).  




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



A  decisão  de  aderir  ao  PC  do  B  implicava  abrir  mão  da 

experiência  organizativa  própria  e  abraçar  outro  partido  e  sua  história. 

Era  a  esse  passado  que  se  filiavam.  Mesmo  a  história  da  AP  foi 

interpretada  pela  ótica  da  decisão  final  de  se  incorporar  ao  PC  do  B 

(DIAS, 2006). 

Essa  fronteira  é  um  dos  marcos  de  disputa  de  memória.  O  setor 

remanescente  iria  se  referir  ao  desenlace  como  a  “cisão  de 

setembro/outubro  de  1972”  (APML,  1972e).  Segundo  lacônica  definição 

de  Elzira  Vilela,  militante  da  ala  que  permaneceu  organizada  como 

APML:  “A  Ação  Popular  se  cindiu  e  um  grupo  da  Ação  Popular  entrou 

para o PC do B e outro não” (AQUINO, 2003, p. 134).  

Por  um período, antes que se consumasse a incorporação de uma 

ala ao PC do B,  os dois agrupamentos  reivindicariam o nome da legenda 

(OLIVEIRA JR, 2000). 






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