Redalyc. A história da açÃo popular escrita e reescrita por ela própria


Esboço de uma história da  Corrente 1



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Esboço de uma história da  Corrente 1, orientado pela ótica da posição 

que prevaleceu na disputa interna. Já em seu início, o texto estabelece que 

o  processo  de  transformação  ideológica  de  uma  organização  pequeno-

burguesa,  como  seria  o  caso  da  AP,  não  poderia  acontecer  em  uma 

evolução linear. Entende-se que  “o caráter de classe  de um partido nasce 

e  morre  com  ele,  não  é  possível  que  todos  ou  o  fundamental  dos 

membros de um partido determinado, com determinada origem de classe, 

mudem  todos  para  outra  posição  de  classe”  (AP,  1969a,  p.1).  Tendo  em 

vista  a  sedimentação  da  memória  das  posições  da  “Corrente  1”  e  da 

hegemonia que obteve, resume:  

Elementos  de  dentro  de  um  partido  pequeno-burguês  podem 

se transformar em proletários e conseguir maioria nesse partido 

levando  à  destruição  como  partido  pequeno-burguês  para 

surgir com uma nova organização política, dada a nova posição 

de  classe mesmo  que eventualmente mantenha o mesmo  nome 

(AP, 1969a, p.4). 

O  Esboço  de  uma  história  da  Corrente  1  serve  de  subsídio 

para  a  elaboração  do  documento  Audácia  nos  objetivos  e  rigor  nos 



métodos,  extraído  da  2ª.  Reunião  Ampliada  da  Direção  Nacional  da  AP, 

ocorrida em 1969, que consolida a reavaliação e a ruptura com o passado. 

Sistematiza-se  um  ritual  de  autodestruição  da  AP    para  reconstrução  em 

novas bases. 

A AP  viveria nova etapa de sua  história:  “a de sua transformação 

de um partido pequeno-burguês, inicialmente reformista e revolucionário, 

num  partido  revolucionário  proletário”  (AP,  1969b,  p.4).  A  dialética  da 

morte e recriação é explícita: “Assim, ao mesmo tempo em que começava 

a  morrer  a  velha  Ação  Popular,  começava  a  nascer  uma  nova  Ação 

Popular,  marxista-leninista,  proletária;  o  processo  de  crise  combinava-se 

com  o  processo  de  transformação  e  proletarização  do  partido”  (AP, 

1969b,  p.3).  A  ruptura  com  a  história  da  AP  foi  detalhada, 

minuciosamente,  na  formulação  de  12  tarefas  para  reconstrução  do 

partido operário, sempre dirigidas ao passado da organização. 




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Dias


 

 

Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011.



 

O  tema  predominante  nessa  2ª.  Reunião  Ampliada  da  Direção 

Nacional  foi  o  do  partido  de  vanguarda,  pano  de  fundo  dos  debates 

realizados.  A  principal  resolução  foi  a  de  reconstruir,  na  luta,  o  partido 

unificado do proletariado do Brasil. Recusou-se o chamado “foquismo” e 

“foi reafirmada a validade do  princípio marxista de a classe operária ter o 

seu próprio partido” (AP, 1969b, p.26). 

Ao declarar a morte da “velha AP’ e o nascimento da “nova AP”, 

o  documento  procura  fundá-la  na  tradição  marxista,  procedendo  a  um 

extenso exercício  de  resgate da  história do  movimento socialista, desde a 

época de Marx e Engels até o período então vívido, em que  pontificava o 

marxismo  de  Mao  Tse-tung.  O  fio  condutor  da  análise  é  a  permanente 

luta  do  marxismo  contra  ideologias  pequeno-burguesas  existentes  no 

movimento  socialista  e  contra  os  desvios,  oportunismos  e  revisionismos 

surgidos  em  seu  interior.  Com  isso,  a  AP  corrigia  sua  pretensão  de  ter 

tentado  forjar  uma  estratégia  “fora  da  tradição  revolucionária 

contemporânea”  e  alargava  o  horizonte  do  seu  passado.  Sem  usar 

diretamente  esse  vocabulário,  o  exercício  é  conduzido  pela  reflexão:  “a 

que herança renunciamos”?  e “a que tradição nos filiamos? ” 

Em  seguida,  o  documento  mergulha  na  história  da  esquerda 

brasileira,  focalizando  a  tradição  do  marxismo-leninismo  nacional, 

constituída  a  partir  da  Internacional  Comunista  (IC)  e  de  sua  antiga 

seção,  o  PCB.  Embora  fizesse  críticas  à  concepção  de  revolução  que 

norteou a maior parte da vida do PCB, orientada pela IC, o ponto central 

da  análise  era  a  degenerescência  do  partido  da  classe  operária  e  sua 

transformação  em  um  partido  revisionista

2

  (AP,  1969b,  p.42).  A  partir 



desse  marco,  impôs-se  o  objetivo  de  reconstruir  o  partido  da  classe 

operária no Brasil. 

O  vazio  político  então  gerado  era  propício  ao  surgimento  de 

novas  organizações:  “neste  contexto,  um  grupo  de  jovens  estudantes 

idealistas,  de  origem  cristã,  após  articulação  em  âmbito  nacional  deu 

origem à AP” (AP, 1969b, p. 67). Avalia-se que a AP “surgiu de dentro da 

pequeno-burguesia,  fora  portanto  da  tradição  do  movimento  operário 

comunista  internacional,  alheio  ao  ponto  de  vista  de  classe  do 

proletariado  no  terreno  político,  ideológico  e  organizativo”  (AP,  1969b, 

                                                         

2

   A referência direta é à crise que teria acometido o PCB, no final da década de 1950. Em 



decorrência da repercussão do XX Congresso do PCUS, em que foram denunciados os 

crimes de Stalin,  teriam grassado o chamado revisionismo  contemporâneo  e uma linha 

reformista. A  URSS  passou  a ser  vista  como centro do  revisionismo  internacional  e  o 

PCB como sua expressão nacional. 




A história da Ação Popular escrita e reescrita por ela própria 

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Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011. 



p.  67).  Com  esse  perfil,  participou  ativamente  do  movimento 

revolucionário,  apesar  do  discurso  radical,  com  uma  perspectiva 

essencialmente  reformista.  Reconhece  que,  a  partir  de  1965,  houve  um 

processo  de  redefinição  com  a  aprovação  da  RP,    mas  as  limitações  são 

apontadas: 

Este primeiro processo de redefinição mais profunda de rumos 

marca  a  entrada  no  campo  revolucionário,  mas  não  era 

suficientemente  profundo  a  ponto  de  questionar  nosso  caráter 

de  classe  se  introduzir  no  campo  do  proletariado.  O 

documento  de  estratégia  da  RP  de  1965  expressa  a  nova 

posição  dos  revolucionários  pequenos-burgueses,  fazendo  uma 

proposição  no  fundamental  foquista  da  linha  militar  (AP, 

1969b, p. 67).  

Critica-se  a  influência  de  Althusser  no  DTI,  que  teria  deformado 

a essência da relação entre a teoria e a prática no marxismo. O uso de sua 

obra  teria  legitimado  a  suposta  transformação  de  elementos  de  origem 

não  proletária  em  marxistas-leninistas  proletários  pelo  simples  estudo 

teórico. Reafirma-se a centralidade do pensamento de Mao Tse-tung para 

a recriação da AP: 

Em contato com o pensamento de Mao Tse-tung introduzimo-

nos  em  um  novo  e  muito  mais  profundo  processo  de 

redefinição  de  princípios,  de  política  e  de  métodos.  Este 

processo de transformação e redefinição questionava  o próprio 

caráter  de  classe  do  partido,  ou  seja,  propunha  um  rumo  de 

transformação  através  de  uma  radical  autocrítica  do  passado, 

através da ruptura com o antigo partido, objetivava a destruição 

da  velha  AP  e  a  construção  de  uma  nova  AP  (AP,  1969b,  p. 

69).  


Esse processo atingiu seu desfecho  nas duas Reuniões Ampliadas 

da  Direção  Nacional.  Na  1ª.  RADN  verificou-se  a  vitória  da  “Corrente 

1”,  aprovando-se  o  aprofundamento  do  processo  de  transformação,  com 

redefinição  de  princípios  e  métodos  de  construção  ideológica,  política  e 

organizativa.  Na  2ª.  RADN,  “o  aspecto  principal  foi  o  da  vitória  da 

unidade  em  torno  das  posições  proletárias,  em  torno  da  proposição  da 

reconstrução do Partido do proletariado” (AP, 1969b,  p. 70).   

A  II  RADN,  ao  estabelecer  as  condições  em  que  deveria  ser 

reconstruído  o  partido,  ressaltou  dois  pré-requisitos:  o  estágio  de  luta  de 

classes  no  Brasil  e  a  luta  contra  o  revisionismo  internacional. 

Compreendia-se  que  a  AP  e  o  PC  do  B  eram  dois  partidos  criados  em 



126  

Dias


 

 

Diálogos, v. 15, n. 1, p. 111-145, 2011.



 

1962,  aptos  a  desempenhar  as  tarefas  exigidas  pela  terceira  etapa  do 

marxismo.  Partindo  do  pressuposto  de  matiz  staliniana,  constituído  em 

paradigma ao  longo da Internacional Comunista, de  que a classe operária 

só  pode  ter  um  partido,  aponta-se  o  cenário  de  unificação  entre  essas 

duas  forças,  que  poderia  ocorrer  por  intermédio  de  uma  fusão  e 

surgimento  de  um  terceiro  partido  ou  pelo  destacamento  de  um  polo 

principal aglutinador, hipótese considerada mais provável.  

A prioridade ao PC do  B era ensejada  pela  proximidade das duas 

organizações com a revolução chinesa e seu legado estratégico: revolução 

nacional-democrática,  a  deflagração  da  guerra  popular  para  conquistar  o 

poder, combate ao  revisionismo contemporâneo etc. De resto, dirigentes 

chineses estimulavam eventual união das duas forças (APML,1971c, p.3). 

A  condução  dos  debates  levou,  porém,  a  dúvidas  sobre  a  origem 

do PC do B. Tratava-se do antigo partido marxista-leninista, reorganizado 

e  depurado  do  revisionismo  que  tomara  conta  do  PCB,  ou  se  tratava  de 

uma  de  suas  dissidências? 

3

  A  II  RADN  entendeu  que  não  tinha  dados 



suficientes  para  avaliar  em  profundidade  a  questão.  Levantou-se  a 

hipótese  de  que  foi  reorganizado  em  1962.  A  reunião  deixou  a  polêmica 

aberta, para posterior aprofundamento.  




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