Rbsp vol 35 n1 2011. pmd



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gordura é rechaçado. Além disso, os referenciais de obesidade e magreza podem mudar com o

tempo. No passado, era “[...] preciso ser bem mais gordo para ser julgado obeso e bem menos

magro para ser considerado magro”.

30:79


 Este referencial, porém, pode também mudar com o lugar,

o ambiente em que ele está alocado. “Ser gordo em Salvador não necessariamente implica o

mesmo em outras localidades.”

3:98


 O termo obeso é para o doente portador de uma patologia; o

termo gordo, no entanto, não necessariamente se refere a uma doença. Distinção não é separação

e, não por acaso, ela foi adotada para nomear a Associação dos Gordos e Obesos de Salvador

(ASGOBS), organização da sociedade civil.

O corpo magro está relacionado às classes mais populares enquanto corpo fraco,

inapto para enfrentar as tarefas diárias de trabalho. Nas classes mais altas, porém, o corpo magro

representa um padrão utilizado como forma de ascensão ou promoção social, como requisito de

inserção no mercado de trabalho e como símbolo de status social.

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No Brasil, estudo sobre as organizações populares e o significado da pobreza



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revelou que, para as mulheres das classes populares, a obesidade era por vezes valorizada como

elemento de força. Estudo com mulheres obesas de baixa renda

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 constatou que a obesidade era



um atributo sexual importante no grupo. Pesquisa desenvolvida em um bairro popular de Salvador

encontrou que a obesidade, nessa comunidade, não é considerada uma doença, mas, antes, uma

escolha de ser, em que a estética corporal representa saúde e atrativo sexual.

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 Em outros



momentos históricos, ser obeso significava beleza, grandiosidade e feminilidade.

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 O corpo erótico



e sensual era representado pelas formas arredondadas. Neste sentido, há um paradoxo nos

discursos das mulheres entrevistadas, que elegem um corpo obeso para o trabalho de baiana e um

corpo mais magro para a vida cotidiana.

“Que as baianas magras me perdoem, mas a gordura em si, eu tô falando aquela

gordura sadia, que você fica bem na roupa. Aquela gordura doentia não, não serve,

nem pra mim nem pra ninguém. Pelo menos a minha, ela é sadia.” (Baiana Helena).




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“Baiana magra é feinha; baiana magra é feia [risos]. Eu reclamo, assim: eu sou gorda

para meu marido, quando eu tiro a roupa aquele negócio, mas eu sou gorda para o

meu trabalho? Eu me acho o máximo. Há 13 anos eu era um palitinho, vestia as

roupas, ficava tudo balançando em mim, e agora não, eu to chique, eu me acho o

máximo.” (Baiana Joana).

Este corpo obeso para a vida social não é satisfatório, pois, quando não estão em

seus pontos de trabalho, o referencial de corpo referido por estas trabalhadoras é o padrão de

beleza divulgado pela mídia: corpos magros, esculpidos e belos. “Eu queria perder uns quilinhos”

(Baiana Helena). Adicionado a isso, este corpo obeso é sempre relacionado com a estética que

apresenta a baiana de acarajé, mas não como um corpo doente que pode ser adquirir outras

enfermidades.

“Porque tem pessoas que é gorda demais por doença, né? E tem aquelas pessoas

gordinhas, cheinhas, que é uma gorda cheinha, mas a saúde tá inteira.” (Baiana

Helena).

“Eu sou uma pessoa que eu gosto de tudo de mim. Eu não sinto complexo de nada,

eu não me acho feia de nada, tudo para mim está confortável, eu tô achando agora

que eu estou com uma barriguinha, estou caminhando todos os dias pela manhã e

fechando a boca; só tenho colesterol alto.” (Baiana Maria).

Estas mulheres podem achar a sua corpulência “normal”, por exemplo, pelo fato de

que algumas doenças atualmente associadas à obesidade pela Medicina, como hipertensão arterial,

diabetes, colesterol elevado e muitas outras, não apresentarem sintomas nas fases iniciais, o que

pode tornar mais difícil a busca pelo tratamento, pois não sente a doença (dor, por exemplo).

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Este

fato pode ser agravado quando se sabe que existe um ritual de oferenda por detrás de todo o

processo de trabalho. Neste sentido, agradar o orixá pode trazer uma sensação de prazer e

satisfação, mascarando todo o processo de dor e sofrimento que pode gerar este tipo de trabalho.

No candomblé, os corpos mais aceitos são os volumosos, corpulentos, por existir

uma relação destes com os rituais desta religião. Esses corpos significam saúde e beleza. Neste

sentido, um frequentador desta religião não deve realizar nenhum tipo de dieta ou regime, pois

quem determina as formas anatômicas do seu corpo é o “Santo que faz sua cabeça”, ou seja, o

Orixá, e isso é determinado desde o seu nascimento.


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