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“Sinto muito as pernas, porque a gente fica em pé o dia todo. É difícil a gente

sentar, só na hora de almoçar mesmo; aí senta um pouquinho, almoça. Na hora de

cortar a salada, a gente senta também meia hora, mais ou menos, mas o que dói

mais são os braços e as pernas.” (Baiana Ana).

Por outro lado, no ponto de venda, essas mulheres ficam nove horas sentadas,

fritando, vendendo e despachando os produtos, totalizando 16 horas de trabalho. “Ficar sentada

por muito tempo. Sinto dores na coluna.” (Baiana Joana).

Por ser um trabalho centrado na baiana, essas mulheres sentem o peso das atividades

realizadas em seu corpo, em forma de cansaço, dores e doenças. Das atividades mais desgastantes em

todo o processo de trabalho, o ato de lavar o feijão e bater a massa do acarajé foi apresentado de forma

mais relevante: “[...] tem um rapaz que lava o feijão porque nós em casa temos uma quantidade

grande de feijão, a coluna não aguenta [risos].” (Baiana Isadora). Isto lhes proporciona um desgaste que

se agrava dia a dia. Aliado a isto, a profissão não é regulamentada no Brasil e, consequentemente, não

é alcançada pelos direitos previdenciários. Assim, a saúde e segurança no trabalho, bem como as

doenças, os acidentes gerados pela atividade laboral e os acidentes ocupacionais passam sem o amparo

da Previdência Social. Anotação do Diário de Campo é um exemplo de acidente de trabalho: “Ontem

fui comer acarajé, mas a baiana não estava no ponto. Disseram que ela está internada há 15 dias,

porque o tacho cheio de dendê quente virou em cima dela.”

O fazer-acarajé associado às adaptações nocivas do corpo ao trabalho e ao uso de

equipamentos, muitas vezes improvisados, pode ter graves consequências para esses

trabalhadores. Atividades exaustivas, prejudiciais à saúde, constituem riscos para Lesões por Esforço

Repetitivo / Distúrbios Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho (LER/ DORT).

As narrativas demonstram que muitas dessas mulheres já apresentam enfermidades

relacionadas ao trabalho, uma vez que a exposição às atividades que geram movimentos

repetitivos acontece desde a infância, quando iniciam a aprendizagem desse fazer. “Toda baiana

tem [lesões]. No começo eu não tinha, mas agora vai chegando aos quarenta, vai começando a

aparecer tendinite, bursite, LER, por causa da movimentação repetitiva.” (Baiana Isadora).

Em outros estudos realizados com trabalhadores artesanais também foi identificada a

presença de movimentos que possibilitam o aparecimento de doenças relacionadas ao trabalho,

principalmente as LER/DORT. Estudo com marisqueiras – tipo de trabalho artesanal com extração de

mariscos – da Ilha de Maré, Salvador, Bahia, em 2008, identificou nove casos de LER/DORT.

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Pesquisa


envolvendo rendeiras, em uma comunidade em Fortaleza, Ceará, identificou a presença de esforços

repetitivos entre essas trabalhadoras, porém nenhum caso da doença foi diagnosticado a época.

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Revista Baiana

de Saúde Pública

Essas e outras questões relacionadas à saúde da baiana agrava-se quando elas

priorizam o trabalho e os afazeres em detrimento de prevenção da saúde, como a ida a um

serviço de saúde. O relato da baiana Solange é exemplar: “Você fica escrava de si própria.”

Além disso, justificam que não têm plano de saúde e esperar pelo Sistema Único de Saúde

(SUS), além de demandar muito tempo, não garante o atendimento adequado. Estudo com

mulheres obesas,

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 constatou que os profissionais de saúde apresentam limitações para o



atendimento a essas mulheres, uma vez que têm dificuldade de enxergá-la fora do seu papel

de mãe. Devido ao fato de a maioria das mulheres brasileiras, neste caso as baianas,

acumularem várias funções (mãe, trabalhadora, dona de casa) para garantir a sobrevivência, o

atendimento a elas dispensado deveria perceber esses múltiplos espaços ocupados pela

mulher hoje.

Em 2003, o Ministério da Saúde lançou a Política Nacional de Humanização da

Atenção e Gestão do SUS, conhecido como HumanizaSUS, que apresenta uma proposta de

humanização, cuja construção deverá contar com a participação de todos e esteja

comprometido com a qualidade dos seus serviços e com a saúde integral para todos. Apesar

desse avanço, o serviço público não atinge a baiana,  pois não prioriza a sua saúde, nem

considera que o seu trabalho é a sua principal fonte de renda, e este tempo para a realização

das atividades é sagrado. Além da exigência do seu trabalho e da escravização no tempo, as



baianas utilizam manobras para evitar a dor proveniente do processo de trabalho: “Às vezes eu

uso doutorzinho [para as dores no corpo], as vezes eu faço massagem. No outro dia alivia, e

pronto.” (Baiana Ana). Neste sentido, é de extrema importância o olhar atento das políticas

públicas para esta categoria profissional, no que tange aos possíveis danos causados pelo

processo de trabalho, que também inclui, entre outras, as enfermidades causadas pelo cheiro

do dendê.

III – “Aparentemente não fumaça”: o cheiro do acarajé

Uma das atividades realizadas pelas baianas de acarajé é fritar os bolinhos de feijão,

em tachos com azeite de dendê aquecido que pode chegar a mais de 200 °C. Estudo

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identificou

que a cocção de alimentos, principalmente a fritura, pode originar compostos orgânicos prejudiciais

à saúde como os Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPA). Esses compostos pertencem a

uma família que apresenta dois ou mais anéis aromáticos fundidos e podem ser encontrados em

todos os compartimentos ambientais, em misturas complexas. Sua importância decorre do fato de

apresentar um potencial carcinogênico.



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