Rbsp vol 35 n1 2011. pmd


• Caracterização das baianas de acarajé do estudo



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• Caracterização das baianas de acarajé do estudo

As baianas entrevistadas são mulheres organizadas, associadas à ABAM, situada no

bairro do Pelourinho. Para elas, as verdadeiras baianas são aquelas que apresentam uma geração de

mulheres que seguiram o oficio de baiana de acarajé. Denominam-se baianas “Patrimônio”, ou

seja, devem aprender o oficio desde a infância, no tabuleiro da mãe ou avó, e seguir na profissão

também repassar a tradição para as filhas e netas. Por esta razão, neste estudo, apenas as “baianas

patrimônio” foram entrevistadas.

O TRABALHO DA BAIANA DE ACARAJÉ NA CIDADE DE SALVADOR, BAHIA

As baianas de acarajé são mulheres, em sua maioria, negras, que fazem parte do

cenário estético-visual da cidade de Salvador, Bahia, Brasil. Elas trabalham vestidas com trajes

próprios, sentadas com seus tabuleiros, e estão espalhadas por todo o país, vendendo os quitutes

trazidos da época da escravidão, como o acarajé e o abará.

I – “É um trabalho muito duro”: O trabalho e a saúde da baiana de acarajé

Todo o processo de trabalho da baiana acontece em três espaços distintos, que

fazem parte de um ritual que transcende a originalidade de um trabalho artesanal, uma vez que

esse rito abrange uma relação com o divino, sacralizando todas as etapas do “fazer-acarajé”. O

primeiro espaço do trabalho é a feira; a presença da baiana, nesse momento, é imprescindível

para a aquisição dos melhores produtos; o segundo espaço é a cozinha, onde será realizado o

pré-preparo e preparo dos quitutes que estarão à venda nos tabuleiros; e o terceiro espaço é o

ponto de venda desses quitutes. Este deve ser um ambiente apropriado pela baiana e localizado

principalmente nas esquinas das ruas da cidade.

Tanto o ponto de venda como o ofício dessas trabalhadoras são passados

hereditariamente para as filhas, sobrinhas ou agregadas. A despeito de, algumas vezes, haver a

presença do homem, este trabalho fica centrado na figura feminina. Estas aprendem desde criança

algumas atividades menos específicas, tornando um espaço de aprendizagem e destinação.

Todo esse processo é tradicionalmente artesanal, derivado de uma forma

individual, em que a trabalhadora, em geral, é a proprietária do seu material (instrumentos de

trabalho). Deste modo, a baiana domina todas as etapas do trabalho e vende o produto final

para garantir a sua subsistência.

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 A despeito de haver características que demonstram uma



transição para o mercado formal, já que existe o assalariamento dos ajudantes que realizam

algumas atividades, esta organização ainda se situa no mercado informal, pois não há contratação




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Revista Baiana

de Saúde Pública

por meio de carteira de trabalho assinada, conforme ditames da Consolidação das Leis

Trabalhistas (CLT). No entanto, em uma das baianas entrevistadas foi identificada a iminência de

registro (pessoa jurídica) do seu estabelecimento, com o intuito de obter maiores benefícios,

como aquisição de créditos e planos de saúde para os funcionários, além do serviço de entrega

em domicílio, com o disk-acarajé.

Por ser artesã, a baiana de acarajé está presente em todas as etapas de preparação e

venda dos quitutes. Este trabalho torna-se, para ela, árduo e desgastante, pois está exposta a todos

os riscos provenientes das atividades realizadas. Todas as exigências demandadas pelo processo de

fabricação do acarajé pode proporcionar às baianas problemas de saúde, provocados pelas ações

desenvolvidas na atividade laboral (dores, cansaço, fadiga) e pelas condições insalubres que este

tipo de trabalho proporciona.

O artesanato, no Brasil, de forma geral, não apresenta regulamentação específica

para a proteção à saúde e à segurança no trabalho. O artesão, em geral, não tem direito ao seguro

de acidentes no trabalho. Com isso, o adoecimento ou afastamento resulta em não trabalho,

consequentemente na perda de vendas e, por extensão, na perda da principal fonte de renda das

famílias.

II – “Sinto muitas dores nos braços e na coluna”: o sofrimento gerado pelo processo

de trabalho da baiana

As condições de trabalho das baianas proporcionam-lhes uma espécie de fadiga

crônica. Casos graves e prolongados de fadiga são atualmente caracterizados como um quadro

sindrômico – a “síndrome de burnout” (burn out = queimar por completo) –, caracterizado pelo

esgotamento físico e mental intenso ligado à vida profissional, com perda de interesse pela

atividade. Surge principalmente nas profissões que trabalham em contato direto com pessoas em

prestação de serviço, como consequência desse contato diário no seu trabalho.

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 Este é um bom



tema para pesquisa, pois, embora o trabalho da baiana seja artesanal, ela vive pressionada a se

manter permanentemente nesse processo fatigante.

Em dois dos espaços de trabalho da baiana, a cozinha e o ponto de venda dos

quitutes, diversos fatores podem contribuir para um processo de adoecimento. No trabalho da

cozinha, elas passam em média sete horas em pé, preparando os quitutes. Dentre as

atividades desenvolvidas nesse espaço, estão o pré-preparo dos alimentos e a preparação dos

acompanhamentos, como vatapá e caruru, e de outros quitutes do tabuleiro, como as cocadas

e os doces.



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