Raul seixas e a performance de resistência em ‘’krig-há, bandolo!’’


‘’OURO DE TOLO’’ E O DESPERTAR DE UMA CONSCIÊNCIA CRÍTICA



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4 ‘’OURO DE TOLO’’ E O DESPERTAR DE UMA CONSCIÊNCIA CRÍTICA

‘’Ouro de Tolo’’ é a décima primeira faixa do álbum e, conseguintemente, seu maior sucesso. A música foi colocada por último por uma questão estratégica do mercado fonográfico, como podemos verificar:9

Isto porque, se o ouvinte desejasse escutar ‘’Ouro de Tolo’’, deveria ouvir todas as outras faixas do lado B antes. Essa prática [...] procurava otimizar o consumo das músicas que formavam o disco: as mais ‘comerciais’, com maior potencial de divulgação, ficavam nos extremos e ‘puxavam’ as demais canções (NETO, 2015, p.4).
Esta música foi lançada em single alguns meses antes do lançamento do álbum completo e tiveram 180 mil vendas – mais do que o próprio LP. A música estava presente no rádio, LP, Compacto, Shows e na Televisão. Ela teve tanta aprovação que ‘’Os Trapalhões’’ fizeram uma paródia, o Silvio Brito fez uma música semelhante (contextual) dialogando com Raul em ‘’Tá todo mundo louco’’ e Clarice Lispector usou uma de suas frases em um livro.

O contexto de criação e inspiração para tal canção remonta a década de 1960, especialmente, adquirindo sonoridades da Jovem Guarda (Erasmo e Roberto Carlos) e Bob Dylan com a letra de grande extensão e sem repetição.10 Em 1967 Raul viaja para o Rio de Janeiro com sua banda, ‘’Raulzito e Os Panteras’’, para gravar seu primeiro disco em 1968, e nesse período de estadia na cidade do Rio de Janeiro passaram por situações trágicas e lastimáveis, sendo que o disco não obteve sucesso e o público desse álbum seria basicamente suas famílias (CARLEBA apud BITTENCOURT, 2015, p.116). Levando em consideração esse passado difícil o artista internaliza o padrão de sucesso aliado a situação de fracasso – estabelecendo uma situação dialética. Esse pode ser um dos motivos maiores para criação de ‘’Ouro de Tolo’’.

O mote da canção nos aparece como a situação de alguém que fora enganado, daí a necessidade de somar o seu passado recente ao disco. Ao longo de onze estrofes (Ver Anexo 3) o eu poético fica bastante explícito em quase todos os versos. Há um diálogo entre ele mesmo e o interlocutor, isto é, a música tem raízes introspectivas. Entretanto, o artista quer mostrar ao público ouvinte como o falso ouro é vendido pela sociedade do consumo e do espetáculo, sobretudo durante o regime militar.11 Na primeira parte da letra, até a 4ª estrofe, o sujeito fala da decepção da vida e do que poderia ter feito, sempre utilizando a palavra devia. Ou seja, é negado o ideal e afirmado o real que seria a infelicidade, a tristeza e o marasmo. Apesar de ter obtido o sucesso, antes lhe negado, ter emprego e ganhar bem não consegue ser plenamente feliz e satisfeito. Como nos mostra Lucas Tomaz:

A canção vem demonstrar [...] essa contradição. Uma contradição que o acompanhava e por muitas vezes o incomodava, pois o cantor parece reconhecer que o universo social e os personagens por ele interpretados, representariam exatamente, os locais e as carreiras nos quais ele mesmo procurava se consagrar. (SOUZA, 2011, p.47)


O artista, também, expressava problemas de uma sociedade hedonista e pós-moderna, com críticas até ao sistema socioeconômico vigente – ‘’o monstro sist’’12. No começo da segunda parte o eu poético volta a se lamentar e problematizar questões existenciais com o piano e pandeiro mais presentes, demonstrando o auge do sentimentalismo da canção. A busca por novos caminhos e horizontes começa a partir da 5ª estrofe, onde ele diz ‘’Porque foi tão fácil conseguir/E agora eu me pergunto: e daí?’’ (SEIXAS, 1973, f.11). Após esta frase inicia a mudança de ritmo com o violão de aço e a fuga para novas alternativas, mas respeitando o objetivo e padrão da canção.

A melodia da música segue um ritmo padrão, semelhante a uma viola caipira, nos dando um cenário de melancolia, como se um indivíduo tivesse saído de um ambiente rural para o urbano e tido uma grande ilusão, tendo o momento catártico na 5ª e 6ª estrofe. Os instrumentos responsáveis pela estética auditiva são o Violão de aço, de nylon, 12 cordas, Baixo, Bateria, Piano, Vocal e Pandeiro. Assim como a escolha dos acordes promovem a devida sensação o piano e pandeiro, muito presentes, têm a função de chegar ao momento máximo da canção por causa da utilização das notas – tendo tensão no começo, suavizando no meio e após isso voltando ao ritmo pacato.

A música tem andamento lento, pois é muito falada, com exceção das últimas palavras de cada estrofe e no clímax veloz. Isto é, a música busca chamar atenção para a mensagem demonstrando com a experiência auditiva o cenário melancólico e calmo, apesar de haver uma situação caótica, o sujeito parece não demostrar o caos, por isso, uma parte da letra define a levada musical – culme calmo.

A música teve influências consideráveis como o estilo de composição do Bob Dylan, a música ‘’Sentado a Beira de um Caminho’’ do Erasmo Carlos e ‘’A Montanha’’ do Roberto Carlos. Porém, não são influências capazes de definir o seguimento musical de Raul, já que ele mistura bastantes gêneros.13 O que fica nítido nesta canção, classificada como uma balada – pop, com levada do gospel americano, mas sempre com a performance do rock’n’roll. O posicionamento crítico do artista, que se deveu a influências do rock da década de 1950 e 1960, somado a leituras sobre o tema contribuiu para sua militância anarquista.14 A música teve grande destaque por expor a ilusão daquela sociedade, época em que o sistema econômico avançava sem freios devido ao regime de exceção instalado no país. Por fim, essa seria a primeira música relevante, no sentido de vendagem e alcance, a se iniciar a possibilidade de um despertar crítico nos brasileiros disposto a lhe ouvir.





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