Raul seixas e a performance de resistência em ‘’krig-há, bandolo!’’


A ‘’DENTADURA POSTIÇA’’: VONTADE OU CONSTATAÇÃO?



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3 A ‘’DENTADURA POSTIÇA’’: VONTADE OU CONSTATAÇÃO?

A música ‘’Dentadura Postiça’’ é a 4ª faixa do álbum tratado em questão e pelo título da canção já é possível fazer alguns apontamentos iniciais – dentadura ou ditadura? O termo postiça atesta a não legitimidade da ditadura militar?

A música foi composta, exclusivamente, por Raul Seixas seguindo a lógica da segunda música do Álbum ‘’Mosca na Sopa’’, para tratar de um conflito ou incômodo gerado. Com menos de dois minutos ela possui curta duração e aparenta ser simples, direta e objetiva. Já de início pode-se perceber uma diferença da primeira música aqui mencionada, ‘’Dentadura Postiça’’ tem nove acordes musicais, quatro a mais que ‘’Mosca na Sopa’’. Esta informação é importante, pois em um primeiro momento ela pode parecer somente uma música para compor o disco, mas na verdade o processo se traduz no contrário – o disco foi bem trabalhado e direcionado com um propósito.

A canção tem influências do gospel americano e fora taxado por Tárik de Souza como spiritual song, tendo um contexto de criação da ideia musical na década de 1950 (NETO, 2015, p.2). Ela tem como tese central a rejeição ou o não reconhecimento do que estava colocado ali: o regime militar.8 Não há possibilidade na letra de se encontrar o sujeito da ação, entretanto a mensagem e o engajamento são notáveis dentro da canção. Na letra existem 3 estrofes (Ver Anexo 2), sendo que em todas elas se encontra um grande imaginário poético e literário. Uma parte da letra é cantada por um grupo musical a representar negação e promove a atenção especial para esta parte, utilizou-se dos verbos cair, sair e subir, na segunda, com Raul no vocal principal – como se estivesse respondendo as inquietações colocadas pelo coral. É uma música sem rima, mas com metáfora em quase todos os versos, além de quatro referências bíblicas.

A música, em si, tem o andamento rápido, sempre crescendo a velocidade do ritmo para buscar atenção e nos causando uma sensação de afobamento. As rupturas são feitas em pelo menos três versos de cada estrofe, a partir do alongamento verbal (vocalização) do coro, introdução de outros instrumentos/recursos e troca de acorde. A música dá impressão ao ouvinte um clima de indecisão e provocação (no sentido mais combativo).

Raul e a produção lançam mão de vários recursos para dar o clima supracitado, com um grupo musical convidado, uso de palmas, violão, violão de aço, banjo, bateria e baixo. Estes instrumentos não condizem totalmente com a letra, já que estimula o sarcasmo – situação conflitante na música, ou seja, o clima da letra não condiz com a melodia.

A intensidade da interpretação vocal varia conforme o andamento do ritmo, entretanto o eu poético não parece abatido por nenhuma das situações expostas. Ao expor versos com maior extensão e pontos de tensão, como: ‘’Vai cair/Os dentes de Jó/Vai cair/O preço do Caos’’ ele coloca um cenário próximo ao escatológico; ‘’Vai sair/O sol outra vez/Vai sair/O verde do mar/Vai sair/Um novo gibi’’ ele provoca a ideia de esperança e de um amanhã diferente; ‘’Vai subir/Cachorro-Urubú/ Vai subir/A torre de Babel/Vai subir/O cristo pro céu’’ na última estrofe é mais debatido a ideia pessimista (SEIXAS, 1973, f.4)

Para além, podemos observar, pelo menos, duas aproximações da canção com outras músicas e composições, como ‘’Expresso 2222’’ do Gilberto Gil trabalhando uma ideia de superação e esperança, a outra o artista dialoga consigo mesmo em ‘’Cachorro-Urubú’’ porém na perspectiva do pessimismo, onde tudo está perdido.

Durante a música, tendo em vista seus detalhes, ficamos atentos a discussão colocada - a ideia de sustentação do regime militar. Para conseguir atingir o público com essa mensagem, fez uso de metáfora no título da canção e para acrescentar, ainda mais a crítica, postulou o termo postiço, que pode remeter a ideia de falsidade. A troca permite com que passe pela censura do regime e chegue aos ouvidos da população um questionamento ao regime. Longe de seu fim, que só acontecera doze anos depois, o regime militar passava por grandes polêmicas, em seus anos de maior repressão física, intelectual e cultural.

A disputa do título deste capítulo buscou, portanto, questionar se de fato tratava de uma vontade pessoal do artista ou coletiva pelo fim da opressão e consequentemente da ditadura militar no país, ou até uma constatação que o mesmo fez sobre o período – teria ele, imerso no mundo de utopia, acreditado fielmente na ‘’queda’’ do regime na primeira metade da década de 1970? Neste sentido, o artista teria sido ingênuo? Essas e outras discussões precisam ser feitas com maior análise de sua obra e de seu contexto. Nesta curta exposição essas indagações foram buscadas e provocadas.





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