Raul seixas e a performance de resistência em ‘’krig-há, bandolo!’’


A ‘’MOSCA NA SOPA’’ COMO CONDUTORA DO INCÔMODO



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2 A ‘’MOSCA NA SOPA’’ COMO CONDUTORA DO INCÔMODO

A música ‘’Mosca na Sopa’’ faz parte da segunda faixa do álbum ‘’Krig-há, Bandolo!’’ e fornece certo direcionamento ao disco e até a imagem do cantor, tendo em vista seu primeiro trabalho solo. A música tem média duração e é capaz de conduzir o trabalho do cantor com a concepção de incômodo – causado por uma série de elementos estéticos.

Para tratar dessa música, em especial, é necessário fazer uma digressão para compreender qual o contexto de criação da mesma. Raul Seixas nasceu em Salvador, na Bahia, e teve influências, conscientes e inconscientes, de ritmos e estilos nordestinos, bastante presente em várias de suas obras. Outrossim, é o fato de que Raul tinha muita proximidade com o consulado americano em Salvador e a partir disso estreitou laços com um novo gênero musical em ascensão. Bastou a junção de vários sons e estilos na sua obra para que ela gerasse certa curiosidade e aproximação com o público brasileiro.

Superado as influências que o artista teve antes do lançamento de ‘’Krig-há, Bandolo!’’ passamos brevemente para a recepção da música. A música, cuja composição é unicamente de Raul Seixas, teve grande circulação, dentre elas: em shows do artista, no próprio LP, em clipe produzido pelo artista, em gibi-manifesto e em movimento estudantil. A música, pela sua mistura de sons conseguia abranger um público bem diverso, que não era necessariamente politizado ou engajado. Além disso, ‘’Mosca na Sopa’’ passou pelos censores do regime militar sem despertar desconfiança ou mais implicações – ela foi liberada e taxada como uma música de má qualidade e sem nenhuma mensagem relevante.

A música tem como objetivo geral expor o incômodo que a mosca é capaz de causar, tendo como possibilidade extra mais incômodo. A mosca na voz de Raul e de um grupo musical ao fundo é o sujeito da ação e fala para alguém, não sendo possível saber para quem ele fala, o que provavelmente é a maior estratégia para se passar pela censura cultural. A música tem repetição de estrofes diversas vezes e dá clara ênfase no eu poético a todo o momento. O artista utiliza de rimas na 1ª, 2ª e 3ª estrofe (Ver Anexo 1) usando o sufixo ‘’ar’’ para marcar qual é o incômodo a ser gerado e qual medida não será possível ser realizada pelo interlocutor, talvez para representar a repressão do regime sobretudo nos ‘’Anos de Chumbo’’. As palavras utilizadas na forma da letra são: abusar, zumbizar, detetizar, exterminar e lugar (substituição de uma mosca por outra) (SEIXAS, 1973, f,2). Também há usos de metáforas com sentido intencional e ideológico em vários momentos e dialoga com expressões populares, outra demonstração do esforço de aproximação com o público ouvinte, haja vista seu objetivo declarado de atingir todas camadas para mandar sua mensagem de mudança política e social.6 Como nos explica José Rada Neto:

A proposta de [...] Raul não era a implementação de um outro tipo de governo, mas o combate a tudo que oprimia o indivíduo. [...] Muitos pontos destacados [...] são coerentes com as declarações de Raul Seixas à imprensa, como a afirmação de que seu ‘’movimento’’ estaria dialogando com pessoas do mundo inteiro [...] (NETO, 2015, p.9)


No que tange a parte musical é, em um primeiro momento, necessário citar os vários instrumentos que compõem a obra. Fazem parte dos instrumentos predominantes o Atabaque, Macumba, Berimbau, Triângulo, Baixo, Sintetizador, (Bateria e Guitarra na 3ª estrofe), além do vocal principal, de apoio, palmas e voz alterada. Os instrumentos de percussão desempenham um confronto mais suave, aparentemente preparando a música para seu momento/ponto mais alto. Momento este que seria executado na 3ª estrofe com mudança rítmica para o estilo de maior confronto – tocando rock (NETO, 2015, p.2). Nesta estrofe o eu poético sai da lógica e andamento natural da canção para mandar um recado mais incisivo e com mais veemência. Como podemos observar: ‘’E não adianta vim me detetizar/Pois nem o DDT pode assim me exterminar/Porque você mata uma e vem outra em meu lugar [...]’’ (SEIXAS, 1973, f.2)

Na vocalização do artista há claro alongamento do ‘’Eu’’ na 1ª e 2ª estrofe deixando evidente quem está falando e o sujeito da ação fica evidenciado devido aos instrumentos de percussão e recursos naturais, como palma e vocal de apoio. A vocalização muda na 3ª estrofe, tornada mais fluida e confrontada, aliada a pontos de tensão ou troca de acordes de maneira desordenada, o que representa um clima geral de desafio e conflito, além de grandes intervalos entre os acordes. Já a 4ª estrofe está em consonância com o ritmo musical do candomblé, com voz alterada (para se assemelhar a uma mosca), sintetizador, e parece fugir da música para falar de forma comum, a mandar um recado mais real e não tão ensaiado ou elaborado.

A música, que une rock, baião e sons do candomblé, tem o andamento razoavelmente lento (salvo a 3ª estrofe) e faz sentido dentro do proposto. Possui voz que confronta e instrumentos que desempenham um papel fundamental na mensagem da música. Resta-nos saber se o artista pretendia, de fato, reverberar a música para os militares e demais membros da alta burguesia ou fazer com que o povo se tornasse outras moscas para ‘’irritar’’ algo maior que o regime militar, por exemplo.7




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