Raquel Varela Análise Social



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1231

Raquel Varela*



Análise Social, vol. 

XLI


 (179), 2006, 1231-1240

O 25 de Abril, a Espanha e a história

Encarnación Lemus, En Hamelin... La Transición Española más allá de la

Frontera,  Oviedo, Septem Ediciones, 2001, 158 páginas.

Diego Palacios Cerezales, O Poder Caiu na Rua. Crise de Estado e Acções



Colectivas na Revolução Portuguesa, Lisboa, ICS, 2003, 209 páginas.

Lincoln  Secco,  A Revolução dos Cravos, São Paulo, Alameda, 2004, 294

páginas.

Três obras sobre a revolução portuguesa foram recentemente publicadas

em Espanha, em Portugal e no Brasil. Trata-se de En Hamelin... La Transición

Española más allá de la Fronterade Encarnación Lemus, O Poder Caiu na

Rua, de Diego Palacios Cerezales, e a A Revolução dos Cravos, de Lincoln

Secco.


Em comum têm o facto de terem sido escritas por investigadores estrangei-

ros e de analisarem a revolução portuguesa, a sua importância na história do

Portugal contemporâneo, mas também da Península Ibérica e do mundo no

último quartel do século 

XX

. Aos três investigadores, oriundos de campos dis-



tintos, une-os ainda a recusa do paradigma pós-moderno, que parecia dominar

a história nos anos 90 e que levou a que a «investigação dos regimes ditatoriais

e dos movimentos revolucionários, muito abundante nas décadas de 1960 e

1970, cedesse lugar a partir de então ao estudo da democracia e dos problemas

que se colocam aos processos de transição e consolidação democrática»

1

.



Nestas obras, pelo contrário, a revolução é central na análise histórica.

Encarnación Lemus, professora titular de História Contemporânea da

Universidade de Huelva, publicou em 2001 En Hamelin... La Transición

Española más allá de la Frontera, seguindo uma linha de investigação que

* Instituto  Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

1

 Manuel Redero, La Transición Española, Cuadernos del Mundo Actual, Madrid, História



16, 1994, n.º 72.


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Raquel Varela

recupera o contexto internacional da década de 70 do século 

XX

 para a


análise da transição espanhola para a democracia. A obra divide-se em dois

capítulos: o primeiro, em que a autora analisa a transição espanhola como um

processo marcado pelo consenso, «La transicion del consenso» e um segun-

do capítulo dedicado à dimensão exterior da transição espanhola, nomeada-

mente a Portugal, ao Chile e aos EUA, «España entre Portugal y Chile».

Na primeira parte, dedicada à análise dos factores internos que levaram a

uma transição reformista, a autora centra-se na polémica em torno dos prota-

gonistas da transição (polémica que tem estado no centro dos debates sobre

as transições em Portugal e Espanha e que também está presente na obra de

Diego Palacios), defendendo que os actores da transição em Espanha foram

os agentes sociais (sindicatos, partidos políticos e um amplo movimento as-

sociativo progressista), o medo, a amnésia, os meios de comunicação e os

factores externos — estes últimos analisados no segundo capítulo.

Embora sem acrescentar nenhuma fonte inédita, Encarnación Lemus dá um

contributo interessante para a interpretação da transição espanhola e fá-lo

resgatando a ideia de que a transição «não era para ser assim», que a passagem

pacífica de uma ditadura para uma democracia liberal não estava decidida a

priori. Trata-se de uma linha de investigação que muitos agora seguem em

Espanha, depois de longos anos em que as interpretações da transição espa-

nhola serviram mais para legitimar as elites dirigentes do pós-franquismo do

que para compreender a realidade espanhola entre 1974 e 1978.

Aquando da morte de Franco, a 20 de Novembro de 1975, o futuro era

incerto, porque, defende Lemus, o socialismo não estava desacreditado

como sistema; estava mesmo a ser tentado em Portugal; o governo republi-

cano no exílio reclamava a legalidade; o PSOE e o PCE eram partidos

republicanos; os imobilistas recusavam-se a ceder; os militares podiam inter-

vir; o terrorismo etarra e dos GRAPO estava activo.

A transição espanhola foi possível devido a um tríplice consenso: social

(Pactos da Moncloa), político (Constituição) e autonómico, com a LOAPA

(Ley Orgánica para la Armonización del Proceso Autonómico). Embora con-

sidere que a transição foi «um exemplo acabado de reformismo», Lemus

afasta-se das interpretações deterministas segundo as quais o desenvolvimento

económico acarreta a democratização política (Lipset) ou que este desenvol-

vimento económico gera forças sociais que não se integram bem num regime

autoritário (Preston) e também daqueles que, como Linz, Schmitter ou

Huntington, analisam somente as elites, reforçando o papel individual dos

dirigentes, uma análise que «es evidente que sustenta la invención de la

legitimidad democrática de la Monarquía» (p. 39). A teoria das elites tem

certamente a vantagem de realçar a liberdade individual, mas esquece o amplo

campo social onde essas elites são formadas. Mas a autora também recusa a

ideia, algo idealista segundo as suas palavras, de que um todo colectivo teria

movido a sociedade espanhola na segunda metade da década de 70.

Encarnación Lemus opta por uma análise assente na dinâmica sociedade/elites.







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