Quem Manda no Mundo?


O significado do 11 de Setembro



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Quem Manda no Mundo - Noam Chomsky
O significado do 11 de Setembro
Se a responsabilidade dos intelectuais se refere à sua responsabilidade moral
como seres humanos decentes numa posição para usar seu privilégio e status a fim
de dar impulso às causas de liberdade, justiça, misericórdia e paz – e para falar
abertamente não apenas acerca dos abusos dos nossos inimigos, mas, de maneira
muito mais significativa, dos crimes em que nós mesmos estamos envolvidos e os
quais poderíamos aplacar e extinguir se assim escolhêssemos –, como deveríamos
pensar no 11 de Setembro?
A noção de que o 11 de Setembro “mudou o mundo” é amplamente aceita e
difundida, o que é compreensível. Os eventos daquele dia tiveram consequências de
grande envergadura, nacional e internacionalmente. Uma delas foi levar o
presidente Bush a declarar novamente a guerra de Reagan contra o terrorismo – a
primeira guerra ao terror havia efetivamente “desaparecido”, para tomar de
empréstimo a expressão dos nossos assassinos e torturadores latino-americanos
favoritos, provavelmente porque seus resultados não combinavam muito bem com
a nossa autoimagem preferida. Outra consequência foi a invasão do Afeganistão,
depois a invasão do Iraque e as intervenções militares mais recentes em diversos
outros países na região, bem como ameaças regulares de ataques ao Irã (“todas as
opções estão em aberto”, na frase-padrão). Os custos, em todas as dimensões, têm
sido enormes. Isso sugere uma pergunta bastante óbvia, e que não é formulada aqui
pela primeira vez: havia uma alternativa?
Inúmeros analistas observaram que Bin Laden obteve enormes êxitos em sua
guerra contra os Estados Unidos. “Ele afirmou repetidamente que a única maneira
de expulsar os
EUA
do mundo islâmico e derrotar seus sátrapas era arrastar os
norte-americanos para uma série de pequenas mas dispendiosas guerras que, ao
fim e ao cabo, os arruinaria e os levaria à bancarrota”, escreve o jornalista Eric


Margolis. “Os Estados Unidos, primeiro sob George W. Bush e depois Barack
Obama, precipitaram-se diretamente na armadilha de Bin Laden [...] Orçamentos e
gastos militares grotescamente inchados e o vício compulsivo em dívidas [...] talvez
sejam o mais pernicioso legado do homem que julgou ser capaz de derrotar os
Estados Unidos.”
[33]
Um relatório do projeto Custos de guerra do Instituto Watson para
estudos internacionais e públicos da Universidade Brown estima que a conta final será de
3,2 a 4 trilhões de dólares.
[34]
Um feito impressionante de Bin Laden.
Que Washington tinha toda a resoluta intenção de cair na armadilha de Bin
Laden logo ficou evidente. Michael Scheuer, o analista sênior da
CIA
responsável por
perseguir e rastrear os passos de Bin Laden de 1996 a 1999, escreveu que “Bin
Laden, com precisão cirúrgica, mostrou aos Estados Unidos as razões pelas quais
está desencadeando sua guerra contra nós”. O líder da al-Qaeda, continuou
Scheuer, estava “determinado a alterar de forma drástica as políticas dos
EUA
e do
Ocidente em relação ao mundo islâmico”.
E, conforme explica Scheuer, Bin Laden foi muito bem-sucedido. “As forças e as
políticas dos
EUA
estão completando a radicalização do mundo islâmico, algo que
Osama bin Laden vem tentando fazer com sucesso substancial, porém incompleto,
desde o início dos anos 1990. O resultado, parece-me justo concluir, é que os
Estados Unidos da América continuam a ser o único aliado indispensável de Bin
Laden”.
[35]
E possivelmente continuam a sê-lo, mesmo após a morte do líder da
Al-Qaeda.
Existem bons motivos para acreditar que o movimento jihadista pudesse ter sido
dividido e minado após o 11 de Setembro, que recebeu severas críticas dentro do
próprio movimento. Além disso, o “crime contra a humanidade”, como foi
corretamente rotulado, poderia ter sido tratado como um crime, com uma operação
internacional para capturar os presumíveis suspeitos. Essa ideia foi aceita logo após
o ataque, mas a sua execução nem sequer foi cogitada pelos tomadores de decisões


em Washington. Parece que não se levou a sério a oferta provisória feita pelo Talibã
– ainda que não tenhamos como avaliar o grau de seriedade dessa oferta – de
apresentar os líderes da al-Qaeda para que fossem submetidos a um processo
judicial.
À época, citei a conclusão de Robert Fisk de que o horrendo crime de 11 de
Setembro foi cometido com “maldade e crueldade impressionantes” – um juízo
exato. Os crimes poderiam ter sido ainda piores: suponhamos, por exemplo, que o
voo 93, derrubado por corajosos passageiros na Pensilvânia, tivesse ido tão longe a
ponto de atingir a Casa Branca, matando o presidente? Suponhamos que os
criminosos planejassem e lograssem impor uma ditadura militar que matasse
milhares e torturasse dezenas de milhares. Suponhamos que a nova ditadura
estabelecesse, com o apoio dos criminosos, um centro de terror internacional que
ajudasse a instalar em outros países regimes de tortura e terror similares e, a cereja
do bolo, trouxesse uma equipe de economistas – vamos chamá-los de “os meninos
de Kandahar” – que rapidamente conduzisse a economia a uma das piores
depressões de sua história. Claramente, isso teria sido muito pior do que o 11 de
Setembro.
Como todos deveríamos saber, nada disso é um experimento mental ou mera
especulação. Aconteceu. Refiro-me, naturalmente, àquilo que na América Latina é
muitas vezes chamado de “o primeiro 11 de Setembro”: o dia 11 de setembro de
1973, quando os Estados Unidos tiveram êxito em seus esforços para derrubar o
governo democrático de Salvador Allende no Chile com um golpe militar que levou
ao poder o terrível regime do general Augusto Pinochet. A seguir, a ditadura
instalou seus meninos de Chicago – economistas formados na Universidade de
Chicago – para remodelar a economia do país. Pense na destruição econômica, na
tortura e nos sequestros, e multiplique por 25 os números de mortos para produzir
equivalentes per capita, e você simplesmente verá como foi muito mais devastador o


primeiro 11 de Setembro.
O objetivo do golpe, nas palavras da administração Nixon, era matar o “vírus”
que poderia encorajar todos esses “estrangeiros [que] estão a fim de foder com a
gente” – foder com a gente era tentar assumir o controle de seus próprios recursos
e, em termos mais gerais, aplicar uma política de desenvolvimento independente,
numa diretriz que causava repulsa em Washington. Em segundo plano, apoiando a
decisão do golpe, estava a conclusão do Conselho de Segurança Nacional (National
Security Council –
NSC
, na sigla em inglês) de Nixon de que, se os
EUA
não eram
capazes de controlar a América Latina, não se podia esperar que conseguissem
“realizar a sua ordem auspiciosa em qualquer outro lugar no mundo”. A
“credibilidade” de Washington seria solapada, na definição de Henry Kissinger.
O primeiro 11 de Setembro, ao contrário do segundo, não mudou o mundo. Não
foi “nada de grandes consequências”, conforme assegurou Kissinger ao seu chefe
poucos dias depois. A julgar como esse evento figura na história convencional, é
difícil apontar alguma imprecisão nas palavras de Kissinger, embora os
sobreviventes talvez pensem de forma diferente.
Esses eventos de poucas consequências não se limitaram ao golpe militar que
destruiu a democracia chilena e pôs em movimento a história de horror que se
seguiu. Como já discutido, o primeiro 11 de Setembro foi apenas um ato de um
drama que teve início em 1962, quando Kennedy alterou a missão das Forças
Armadas da América Latina para “segurança interna”. Os sinistros resultados
também são de pouca importância, o padrão familiar quando a história é guardada
e protegida por intelectuais responsáveis.

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