Quem Manda no Mundo?


Intelectuais: duas categorias



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Quem Manda no Mundo - Noam Chomsky
Intelectuais: duas categorias
Uma resposta surgiu durante a Primeira Guerra Mundial, quando eminentes
intelectuais da alta cultura e da pesquisa de todos os lados do conflito
arregimentaram-se em apoio aos seus respectivos Estados. No “Manifesto dos 93”,
engajadas figuras de proa em um dos Estados mais cultos do mundo, respeitado por
suas elevadas qualidades de erudição, pesquisa e criação, conclamaram o Ocidente,
insistindo que “Acreditem-nos! Acreditem que nesta luta iremos até o fim como
um povo civilizado, um povo para o qual o legado de um Goethe, de um Beethoven
e de um Kant é tão sagrado como o seu solo e seus lares”.
[2]
Seus colegas
congêneres do outro lado das trincheiras intelectuais rivalizaram ombro a ombro
com os alemães em entusiasmo pela nobre causa, mas foram além na autoadulação.
Nas páginas da revista The New Republic, proclamaram que “o trabalho efetivo e
decisivo em nome da guerra foi realizado por [...] uma classe que deve ser descrita
de maneira abrangente mas vaga como os ‘intelectuais’”. Esses progressistas
acreditavam estar assegurando que os Estados Unidos entrassem na guerra “sob a
influência de um veredito moral a que se chegou após exaustiva deliberação dos
mais ponderados membros da comunidade”. Foram, a bem da verdade, as vítimas
de tramas do Ministério Britânico da Informação, que secretamente buscava
“direcionar o pensamento da maior parte do mundo” e manipular, em especial, o
pensamento dos intelectuais progressistas estadunidenses que poderiam arrastar
para o frenesi da guerra um país pacifista.
[3]


John Dewey ficou impressionado pela formidável “lição psicológica e
educacional” da guerra, que provava que seres humanos – mais precisamente,
“homens inteligentes da comunidade” – são capazes de “apoderar-se dos assuntos
humanos e lidar com eles [...] deliberada e inteligentemente” de modo a alcançar os
fins almejados.
[4]
(Dewey levou apenas alguns anos para passar de responsável
intelectual da Primeira Guerra Mundial a “anarquista dos palanques de aulas e
palestras”, denunciando a imprensa não livre e questionando “até que ponto a
genuína liberdade intelectual e responsabilidade social são possíveis em qualquer
grande escala sob o regime econômico existente”.
[5]
Nem todo mundo andava na linha e se sujeitava de forma tão obediente. Figuras
notáveis como Bertrand Russell, Eugene Debs, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht
foram, como Zola, condenados à prisão. Debs foi punido com especial severidade –
pena de prisão de dez anos por ter lançado dúvidas sobre a “guerra por democracia
e direitos humanos” do presidente Wilson. Wilson recusou-se a conceder anistia a
Debs após o término da guerra, embora o presidente Harding tenha se compadecido
dele. Alguns dissidentes, tais como Thorstein Veblen, foram punidos, mas tratados
com menos rigor; Veblen foi demitido de seu cargo na Administração Federal de
Alimentos depois de preparar um relatório mostrando que a escassez de mão de
obra no campo poderia ser resolvida caso cessasse a brutal perseguição
empreendida por Wilson contra os sindicatos, especificamente a associação
Trabalhadores Industriais do Mundo. Randolph Bourne foi demitido de periódicos
progressistas depois de criticar a “liga de nações benevolentemente imperialistas”
e seus sublimes esforços.
[6]
O padrão de enaltecimento e punição é conhecido e familiar ao longo da história:
os que se engajam e se alinham a serviço do Estado são geralmente exaltados pela
comunidade intelectual geral, ao passo que os que se recusam a se mobilizar a
serviço do Estado são punidos.


Anos depois, as duas categorias de intelectuais foram diferenciadas de maneira
mais explícita por renomados estudiosos. Nessa distinção, os excêntricos ridículos
são rotulados como “intelectuais orientados por valores”, que representam “para o
governo democrático um problema e uma ameaça que, pelo menos potencialmente,
são tão graves quanto aqueles que no passado eram causados por grupelhos
aristocráticos, movimentos fascistas e partidos comunistas”. Entre outros delitos e
malfeitos, essas perigosas criaturas “dedicam-se a denegrir a liderança, a afrontar
a autoridade” e até mesmo a desafiar as instituições responsáveis pela
“doutrinação dos jovens”. Baixeza das baixezas, alguns chegam até mesmo a descer
ao nível de questionar a nobreza dos propósitos da guerra, caso de Bourne. Essa
censura aos canalhas hereges que questionam a autoridade e a ordem estabelecida
foi desferida pelos doutos da liberal-internacionalista Comissão Trilateral – de
cujas fileiras sairia boa parte da administração Carter – em seu estudo-relatório de
1973, The crisis of democracy (A crise da democracia, em tradução livre). Como os
progressistas de The New Republic durante a Primeira Guerra Mundial, eles
ampliaram o conceito de “intelectual” para além de Brunetière de modo a incluir
os “intelectuais tecnocráticos e orientados pela política”, pensadores responsáveis
e sérios que se devotam ao construtivo trabalho de moldar diretrizes políticas no
âmbito das instituições estabelecidas e de assegurar que a doutrinação dos jovens
siga adiante na rota planejada.
[7]
O que deixou especialmente alarmados os sábios estudiosos da comissão foi o
“excesso de democracia” durante o conturbado período, a década de 1960, quando
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