Quem Manda no Mundo?


parte das “taxas de abstenção enviesadas por classe”, bem como a minimização e



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Quem Manda no Mundo - Noam Chomsky

parte das “taxas de abstenção enviesadas por classe”, bem como a minimização e
subestimação das opções de propostas políticas que podem ser apoiadas pela
população em geral mas se contrapõem aos interesses das elites. As observações se


estendem ao presente. Numa minuciosa análise da eleição de 2014, Burnham e
Thomas Ferguson mostram que os índices de comparecimento às urnas “lembram
os primeiros anos do século
XIX
”, quando os direitos de voto restringiam-se
praticamente aos homens livres e proprietários de terras. Os autores concluem que
“tanto as evidências do número total de votos diretos como o senso comum
confirmam que um imenso contingente de norte-americanos agora está ressabiado
com os dois principais partidos políticos e cada vez mais aborrecido com as
perspectivas de longo prazo. Muitos estão convencidos de que uns poucos e graúdos
interesses controlam a política. Eles anseiam por uma ação efetiva que reverta o
declínio econômico e a desenfreada desigualdade econômica, mas nada na escala
exigida lhes será oferecido por nenhum dos dois maiores e mais expressivos
partidos políticos dos
EUA
, ambos movidos por dinheiro. É provável que isso acelere
somente a desintegração do sistema político, como ficou evidente nas eleições para
o Congresso em 2014”.
[3]
Na Europa, a derrocada da democracia não é menos impressionante, à medida
que a tomada de decisões sobre questões cruciais foi transferida para a burocracia
de Bruxelas e as potências financeiras que ela representa. Seu desprezo pela
democracia ficou patente na selvagem reação, em julho de 2015, à ideia de que o
povo grego pudesse ter uma voz para determinar o destino de sua sociedade,
estraçalhada pelas brutais políticas de austeridade da troika – Comissão Europeia,
Banco Central Europeu (
BCE
) e
FMI
(especificamente os atores políticos do
FMI
, não
seus economistas, bastante críticos das políticas destrutivas). Essas políticas de
austeridade foram impostas com o objetivo declarado de reduzir a dívida grega. E, a
bem da verdade, aumentaram a dívida com relação ao Produto Interno Bruto (
PIB
),
enquanto a tessitura social grega foi despedaçada, e a Grécia serviu como um funil
para enviar socorro financeiro aos bancos franceses e alemães que fizeram
empréstimos de risco.


Há poucas surpresas aqui. A luta de classes, caracteristicamente unilateral, tem
um longo e amargo histórico. No alvorecer da era dos modernos Estados
capitalistas, Adam Smith condenou os “mestres da humanidade” de seu tempo, os
“mercadores e industriais” da Inglaterra, que eram “de longe os principais
arquitetos” da política, e que fizeram questão de garantir que seus interesses
fossem “atendidos de forma mais especial”, a despeito dos “atrozes” efeitos sobre
outros povos (principalmente as vítimas da “selvagem injustiça” no exterior, mas
também sobre boa parte da população da Inglaterra). A era neoliberal da última
geração acrescentou seus próprios toques a esse retrato clássico, com os mestres
figurando nos mais altos escalões de economias cada vez mais monopolizadas, as
gigantescas e muitas vezes predatórias instituições financeiras, as multinacionais
protegidas pelo poder estatal e as figuras políticas que representam largamente
seus interesses.
Nesse ínterim, raramente passa um dia sem que haja novos relatos de
agourentas descobertas científicas sobre o ritmo acelerado da destruição ambiental.
Não é nada confortável ler que “nas latitudes intermediárias do hemisfério Norte as
temperaturas médias vêm aumentado a uma taxa equivalente a um deslocamento
para o sul de cerca de 10 metros (30 pés) por dia”, um índice “aproximadamente
cem vezes mais rápido que a maioria das alterações climáticas que podemos
observar nos registros geológicos” – e talvez mil vezes mais rápido, de acordo com
outros estudos técnicos.
[4]
Não menos sombria é a crescente ameaça de guerra nuclear. O bem informado
ex-secretário de Defesa dos
EUA
, William Perry, que não é nenhuma Cassandra,
considera que “a probabilidade de uma calamidade nuclear [é] mais alta hoje” que
durante a Guerra Fria, quando escapar do desastre inimaginável beirava um
milagre. Nesse meio-tempo as grandes potências continuam investindo
obstinadamente em seus programas de “insegurança nacional”, na apropriada


expressão do analista de longa data da Agência Central de Inteligência (Central
Intelligence Agency –
CIA
, na sigla em inglês) Melvin Goodman. Perry também é
um daqueles especialistas que recorreram ao presidente Obama para “extinguir o
novo míssil de cruzeiro”, uma arma nuclear com sistema de mira aperfeiçoado e
poder de explosão mais baixo que poderia fomentar uma “guerra nuclear
limitada”, que rapidamente se agravaria e se intensificaria por dinâmica familiar
até descambar no completo e absoluto desastre. Pior ainda, o novo míssil tem
versões nucleares e não nucleares, de modo que um “inimigo sob ataque poderia
supor o pior e reagir de maneira exagerada, iniciando a guerra atômica”. Mas há
pouca razão para esperar que alguém dê ouvidos ao conselho, uma vez que os
planos de trilionário incremento dos sistemas de armamentos nucleares do
Pentágono prosseguem a passadas largas, enquanto as potências menores dão seus
passos rumo ao apocalipse.
[5]
Os comentários anteriores parecem-me esboçar uma razoável estimativa do
elenco de personagens principais. Os capítulos que se seguem buscam examinar a
questão de quem comanda o mundo, o modo como procede em seus esforços e para
onde seu empenho leva – e, ainda, como as “populações subjacentes”, para utilizar
a útil expressão de Thorstein Veblen, podem ter esperança de sobrepujar o poder
dos negócios e a doutrina nacionalista de maneira a se tornar, nas palavras dele,
“vivas e aptas a viver”.
Não resta muito tempo.



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