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Capítulo 33 Héctor Mitchell



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Capítulo 33
Héctor Mitchell

Bia piscou os olhos, fitava o teto, um sorriso escapava de seus lábios.
Sua mão tateou o colchão e passou pela minha coxa, depois o abdômen,
até encontrar a minha mão.
— 290 dias — ela murmurou feliz.
— Que diabos de contagem regressiva é essa? — rosnei.
— Para o fim do seu contrato — ela entrelaçou nossos dedos.
Fiquei  sem  ar.  Era  assim  que  eu  ficava  diante  dela.  Cada  gesto,  cada
pequeno movimento, até mesmo seu olhar mesmo quando não olhava para mim.
Bia  me  inspirava  sentimentos  que  nem  mesmo  os  grandes  poetas
conseguiam dar conta.
Era uma tempestade frutífera e perigosa, cheia de vendavais e promessas
de colheitas... a síntese e a antítese. A contradição e a regra.
— Foram 90 dias felizes para você? — ousei perguntar.
Bia  deitou  de  lado,  o  corpo  virado  para  mim.  Seus  olhos  expressivos
desceram pelo meu corpo, ela se aconchegou em meus braços e respirou fundo
contra meu peito.
—  Se  eu  soubesse  que  um  casamento  de  mentira  seria  assim,  teria  me
casado antes — ela se divertiu. — Embora eu sinta falta de trabalhar, fazer algo,
tem sido dias muito felizes. E devo isso a você.
— Não seja boba — a repreendi. — Você foi a minha escolha perfeita.
Bia riu e eu não entendi porque.
Raras vezes eu me permitia me abrir sobre meus sentimentos e ter como
resposta sua risada não me agradou.
—  Eu  estou  pensando...  já  imaginou  se  todos  os  casamentos  tivessem
data de validade como o nosso? Um ano... três anos... vinte anos... seis meses...
— O que tem de tão engraçado?
—  Talvez  as  pessoas  corressem  contra  o  tempo  —  Bia  se  afastou  um
pouco e me encarou. — Cuidariam do jardim... conheceriam melhor as pessoas
que  estão  ao  seu  redor  e  não  se  prenderiam  ao  que  acreditam  conhecer  sobre
elas... se permitiriam viver mais, sabe? Descobrir novos prazeres, se entregar de
corpo e alma, viver intensamente crente de que essa é a maior oportunidade de


suas vidas. Não de serem felizes. Mas de descobrirem quem elas são quando tem
outra pessoa por perto 24 horas. E descobrir a felicidade nessa pessoa.
— Eu me enganei — respirei fundo. — Pensei que lindos fossem os seus
olhos, mas é tão mais bonito como você olha para as coisas.
Os lábios se expandiram e as covinhas do rosto dela ficaram demarcadas.
Aquilo me fez arder por dentro, um misto de felicidade e êxtase que procurei por
tanto tempo e nunca acreditei que seria bom o suficiente para encontrar.
Lá estava ela. Diante de mim. Deitada.
Bia voltou a rir.
— Tenho vontade de te dar uns tapas quando ri. Parece que ri de mim —
falei, tentando fingir uma chateação que era impossível manter.
— Dá — ela se virou e empinou a bunda para mim.
— Não faz isso — apertei os olhos e segurei a mão.
— ela começou a balançar a bunda para mim enquanto me olhava
por cima do ombro.
O estalo foi alto. E Bia se prendeu na cama. Olhou para a janela e depois
voltou seu corpo para mim, ainda ria.
— O que foi?
— Nova York é grande, né?
Fiz que sim.
—  E  no  meio  de  toda  essa  gente...  pessoas  que  só  enxergam  o  que
querem de você e se concentram em sugar de você um fôlego de vida, a gente,
pelo menos eu, me sinto tão sozinha...
Toquei seu ombro e consertei a alça do sutiã. Voltei a me concentrar em
seus olhos e era impossível não sorrir com o olhar ao fita-la.
—  Em  um  mundo  tão  grande  onde  a  tecnologia  deveria  nos  aproximar,
nos  sentimos  cada  vez  mais  sozinhos...  tudo  se  tornou  tão  artificial,  plástico  e
perfeito...
— E você ri de...?
—  Pela  primeira  vez  em  muitos  anos  eu  não  me  sinto  mais  só  —  seus
olhos brilharam. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. — É como se... você me
enxergasse como uma pessoa de verdade e não apenas como um corpo que quer
usar.
Bia respirou fundo.
—  Você  é  o  amigo  mais  verdadeiro  que  tive,  acho  —  ele  voltou  a  me


apertar em seus braços.
Eu a abracei como se nunca fosse soltá-la.
As  palavras  de  Bia  não  me  eram  estranhas.  Na  verdade,  era  um
sentimento que eu carregava desde jovem.
— Eu sinto o mesmo por você, Bia — beijei sua testa.
A luz estava apagada e eu fitei o teto por alguns segundos. Quis fechar os
olhos  para  retornar  para  aquela  cena  que  realmente  acontecera  e  o  sonho  me
trouxera como um aperitivo do quanto eu fui feliz e não havia percebido.
Às vezes a felicidade é assim. Não parece grande coisa quando acontece,
mas depois de um tempo...
É como um retrato na parede com foto de família.
Pode não significar nada em um ou dois meses.
Um  dia,  anos  depois,  você  passa  na  frente  dele,  o  pega  com  carinho  e
lembra do sacrifício de tirar a foto perfeita para capturar o tempo e o espaço em
um flash.
Bia... — murmurei.
As duas mãos se estenderam pela cama vazia.
Olhei as notificações no celular e me sentei na cama. Definitivamente eu
não conseguiria voltar para aquele sonho. Eu queria poder morar nele.
Vesti  o  roupão  púrpura  por  cima  do  corpo,  abri  a  porta  do  quarto  e
atravessei o corredor para o quarto ao lado.
Anthony dormia todo desajeitado em cima dos livros, fones nos ouvidos
e um velho celular agarrado em suas mãos.
Andei  calmamente  em  sua  direção  e  me  sentei  na  cama  para  assisti-lo
dormir. Aquilo me acalmava.
— É por isso que você tem dores de cabeça frequentemente — reclamei.
O que ele ouvia estava tão alto que era possível ouvir de onde eu estava.
Tirei os fones dos ouvidos dele e encostei no meu.
— Eu nunca entendi o que era amor incondicional até vê-lo pela primeira
vez — era a minha voz, me surpreendi com isso. — A sensação de que eu faria
qualquer coisa por ele e o amaria de qualquer jeito. Eu não sabia que o amaria
tanto... ele foi e sempre será a melhor parte de mim. Quando eu o vejo é como
ver  a  minha  própria  história  e  me  faz  pensar  naquilo  que  eu  luto  todos  os  dias
para que ele não precise ver e passar pelas coisas que eu passei.
Pausei a gravação.


Se  minha  mente  em  plena  madrugada  não  me  enganava,  aquela  havia
sido uma das conversas que eu tive com Bia.
Até nisso ela se fazia presente.
Havia  deixado  um  rastro  para  que  eu  me  lembrasse  dela  e  quisesse
enlouquecer de vez por não tê-la por perto.
—  Me  desculpe  por  ter  sido  ausente  nos  últimos  meses,  filho  —  pedi,
mesmo  que  Anthony  dormisse.  Era  um  bom  ensaio.  —  Eu  te  amo
incondicionalmente e farei de tudo para vê-lo feliz — afaguei seus cabelos com
ternura e cuidado para não acordá-lo.
Conferi  as  horas  no  celular  e  o  coloquei  ao  lado  de  Anthony  na  cama.
Peguei os livros e os levei até a mesa de estudos e o cobri após conferir se o ar
condicionado estava em boa temperatura.
Saí  do  quarto  meio  pensativo,  instigado  e  principalmente  com  saudades
de Bia.
Fui  à  sala  e  me  sentei  no  sofá,  abri  a  pasta  de  couro  que  eu  levava  ao
escritório  todos  os  dias  e  encontrei  nela  o  HD  externo  que  Ethan  havia  me
entregado.  Áudios  e  imagens  dos  aparelhos  eletrônicos  de  Anthony  capturados
pelas suas respectivas câmeras.
Levei  o  HD  para  o  quarto  e  liguei  o  notebook  em  cima  da  cama.  Eu
detestava que Anthony fizesse isso e lá estava eu com o aparelho na cama.
Conectei  o  HD  ao  notebook  e  abri  a  pasta  cheia  de  áudios,  imagens  e
pequenos vídeos.
—  Isso  não  a  trará  de  volta,  por  enquanto  —  murmurei.  —  Mas  a  terei
um pouco comigo...
Tentei  localizar  na  linha  do  tempo  uma  data  aproximada  dos  primeiros
encontros entre Anthony e Bia. Era menos espionagem e mais saudades.
Vi  alguns  vídeos  onde  eles  interagiam  bem  juntos,  liam  alguns  livros  e
comentavam sobre como imaginavam as cenas.
Em  alguns  áudios  Anthony  dizia  o  que  estava  aprendendo  e  Bia  ficava
toda admirada e não parava de elogiá-lo.
Até que encontrei algo realmente curioso. Pelo visto, o primeiro contato
deles dois.
Oi — era a voz de Beatriz. — Eu não sou a Amanda...
— Vai embora!
Tudo bem... eu só queria dizer oi...
— Já disse. Vá embora! — Anthony foi ríspido. Eu nunca o tinha visto


assim. — Eu já disse para ir embora! — ele disse depois de um tempo.
Anthony tirou a cabeça de dentro da coberta e mostrou-se ofegante.
— Vá embora! — ele ordenou mais uma vez.
— Eu me chamo Beatriz. Acho que você...
— Eu sei quem você é! — ele disse nervoso. — Você roubou o meu pai
de mim!
Franzi  a  testa  e  pausei  o  vídeo.  Eu  realmente  nunca  tinha  visto  o  meu
filho assim.
— Ele não me ama mais por sua culpa!
— Ant...
— Você é a mulher má que veio destruir tudo! — ele cuspiu.
Nesse  momento  a  câmera  ficou  toda  embaçada,  um  barulho  de  queda
surgiu e a câmera apontou para os pés de Bia.
— Se eu sou a mulher má, o que a mulher que fez isso com você é? —
ela perguntou.
Fez isso o quê? — murmurei.
— Não! — ele rangeu os dentes. — Eu a proíbo! — ele disse num tom
autoritário.
—  O  que  você  está  tentando  fazer,  Bia?  —  eu  não  conseguia  ver  a
imagem, aquilo abria para tantas interpretações...
— Você não vai me machucar! Não vai me machucar! Eu não permito!
Ouvir isso me deixou nervoso. Pausei o vídeo e abaixei o áudio para não
acordar Anthony e procurei fones de ouvido. Foi difícil, mas encontrei.
— Vai embora! — ele pediu.
— Eu não vou embora, Anthony — Bia disse. — Eu não posso. Eu não
quero.  Eu  não  vim  aqui  tirar  o  seu  pai  de  você.  Eu  não  vim  aqui  para  destruir
tudo. Eu não cheguei aqui, Anthony, para lhe machucar — ela explicou.
O resto era a voz de choro dele.
Aquilo me instigou ainda mais.
Nos vídeos seguintes Anthony e Bia se entrosaram, se aproximaram e se
mostraram cada vez mais amigos.
Então por que aquilo havia acontecido?
Obtive  a  resposta  ouvindo  o  áudio  anterior  ao  vídeo.  Definitivamente
entendi a expressão “era o que você precisava ouvir, não o que queria”.
O que ouvi embrulhou o meu estômago e me deu asco, mas não parecia


de longe a raiz de todo aquele problema, apenas um dos galhos.
Voltei  imagens,  áudios  e  vídeos  por  meses  até  chegar  próximo  a  época
que  precisei  me  afastar  de  tudo  e  me  dedicar  única  e  exclusivamente  ao  meu
trabalho na Mitchell & Smith e viajar para o oriente.
Vi meu filho apanhando sem motivo. O vi fazer xixi na cama, coisa que
ele  já  não  fazia  há  anos.  Fazer  cocô  na  própria  roupa,  coisa  que  ele  nunca  fez
depois de bebê.
Anthony tinha crises, surtos, simplesmente ficava perturbado “do nada”.
Aquele não era o meu filho.


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