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Capítulo 28 Héctor Mitchell



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Capítulo 28
Héctor Mitchell
Doze anos atrás.

O céu estava limpo, a noite estava tranquila, fazia frio em Nova York.
Meu  carro  cortou  o  vento  em  alta  velocidade  e  eu  segurei  firme  no
volante.  Geoffrey  se  encolheu  no  banco  e  tateou  todos  os  cantos  que  podia,
procurando um lugar para se apoiar.
— Isso, pode ir mais rápido, ainda não estamos na velocidade máxima —
ele ironizou.
— Cala a boca, Geoffrey — rosnei e continuei atento a estrada.
—  É  um  incentivo,  acredite  —  ele  pareceu  mais  tranquilo  quando
encontrou  o  suporte  no  teto  do  carro,  apegou-se  a  ele.  —  É  legal  ver  você
quebrar as regras, pelo menos uma vez. Você é tão certinho.
Revirei  os  olhos  e  continuei  atento  a  estrada,  preocupado  em  chegar  o
mais rápido possível no lugar onde ele estava.
— Estamos indo para o lugar certo...? — Geoffrey voltou a falar.
— Você não pode ficar quieto só por um minuto?!
— Tá.
Conferi  no  gps  que  estávamos  próximos  ao  bordel  onde  meu  pai  se
encontrava. Eu dirigia rápido porque recebi uma ligação de emergência, dizendo
que ele havia tido uma overdose ou algo do tipo.
Dirigi como se minha vida dependesse disso.
— Eu sei que você não quer ouvir a minha voz...
— Isso, fique quieto, Geoffrey.
—... Mas obrigado.
Fiquei menos tenso no momento.
Tudo o que eu não precisava naquele momento eram mais cobranças ou o
humor ácido do filho do Terence Smith que eu jurei proteger.
E aquele dia desgraçado foi carregado de sentimentos.
Primeiro precisei livrar Geoffrey de um linchamento.
Ele quis bancar o esperto e mexer logo com Derick von Grant e Adrian
Cavalieri, meus antigos irmãos de fraternidade e meus futuros irmãos da Grande
Ordem.


O resultado? Quando encontrei Geoffrey ele parecia uma pinhata: estava
de cabeça para baixo, suspenso pelos pés, mãos atadas, boca amordaçada e olhos
vendados. Um monte de valentões ao redor com tacos de beisebol completava o
cenário.
— Não tem de quê — respondi.
— Sabe... — quando ele voltou a falar tive vontade de parar o carro com
toda força só para assustá-lo, mas me contive a dirigir feito um louco. — A gente
sempre se safa...
Balancei a cabeça só para encurtar o assunto.
—  Se  eu  roubo  uma  loja,  destruo  uma  propriedade,  ocasiono  um
acidente... as pessoas dizem que só estou sendo jovem e rebelde, que preciso de
um psiquiatra ou um tempo... nós nunca somos punidos, só nos safamos...
Foi  a  primeira  vez  que  ouvi  uma  coisa  lúcida  de  Geoffrey.  Pareceu  até
um ser humano normal.
— É.
— Por isso eu faço isso — ele cruzou os braços. — Tiro vocês do sério,
deixo  todo  mundo  louco,  quero  abalar  as  estruturas  da  merda  toda  —  ele
confessou. — Por que vocês são iguais a mim. Nunca são punidos, só se safam.
Os  únicos  que  tem  coragem  de  me  enfrentar  como  pessoa,  como  eu  sou,  não
como o herdeiro da Mitchell & Smith.
Concordei.
— Não que um dia eu irei ser o CEO da Mitchell & Smith — ele respirou
fundo. — Veja só o meu pai. Formou-se em honras, cdf, o prodígio da família...
o que ele se tornou? Um genocida racista e xenofóbico que repete para si mesmo
que faz o que faz “pelo bem maior”.
Geoffrey  tirou  o  maço  de  cigarro  do  bolso  e  encontrou  um  cigarro
diferente ali dentro. Colocou na boca e procurou o isqueiro.
Foi  aí  que  eu  diminuí  a  velocidade  e  começamos  a  brigar,  com  o  carro
em movimento, até que eu arranquei aquela merda da boca dele, abri a janela e
deixei para trás na estrada.
Qual o seu problema? — ele pegou um cigarro normal e colocou na
boca.
Aproveitei para pegar o maço de cigarro e joguei pela janela também.
— Para com essa merda.
— É assim que eu anestesio a alma — ele suspirou. — Você bebe a droga
do whisky, todos vocês bebem. Eu que não sou bom o suficiente para pertencer a


essas sociedades secretas de merda, tenho outros meios. Bem mais divertidos e
alucinantes.
— Para com isso.
—  Eles  iam  me  matar  —  Geoffrey  acendeu  o  cigarro  e  tragou,  abriu  a
janela do seu lado e soprou lá fora. — Assim como eu eles lidam de forma muito
ruim com a verdade.
— E você tem uma forma muito peculiar de dizer a verdade, não é? —
provoquei.
—  Ainda  assim  não  deixa  de  ser  verdade.  De  nada  adianta  vestir  essa
armadura  de  futuro  da  nação,  “os  descendentes  prometidos  dos  Pais
Fundadores”  que  levarão  essa  terra  para  outro  patamar...  olha  só  como  estão
nossos  pais...  pervertidos,  doentes,  em  busca  da  perdição,  quebrados,  se
drogando...  —  ele  cruzou  os  braços  e  me  encarou  para  examinar  como  eu
reagiria.
Permaneci  da  mesma  forma,  atento  a  estrada  e  olhando-o  de  lado  uma
vez ou outra.
—  Nossos  pais  eram  os  melhores  quando  saíram  das  melhores
universidades. Olha a merda que se tornaram. Esse é o nosso futuro, Héctor.
— Gosto do seu otimismo.
— Por isso eu não posso ser um de vocês — Geoffrey riu. — Se sou uma
fruta podre agora, imagina se eu me tornasse membro das ordens secretas...
Parei o carro em frente a uma construção luxuosa onde os poderosos se
reuniam para se divertir.
— Fica aqui — mandei.
— Sem chance — ele jogou a bituca de cigarro pela janela. — Você me
ajudou, permita-me te ajudar.
Fica aqui — o encarei com ferocidade, tirei a chave do carro e bati a
porta.
Com o meu pai no banco detrás desmaiado e numa velocidade acelerada
em direção ao hospital, Geoffrey permaneceu calado a maior parte do caminho,
talvez em respeito.
Mas ele não conseguia ficar calado.
— Você acha que um dia seremos iguais a eles?
Não respondi. Continuei a dirigir e conferia de meio em meio minuto o
estado do meu pai.
— Eu sim, talvez. Mas quero trabalhar no crime — Geoffrey riu. — Você


não. Assustou todo mundo com essa história de querer ter um filho...
O olhei de esguelha, indicando que ele deveria ficar calado.
—  Confrontou  sua  mãe  que  queria  te  casar  com  umas  gatas  bem
importantes...
Já estava pronto para mandar ele ficar quieto.
— E aí apareceu com uma barriga de aluguel — ele riu. — Cara, você é
o  meu  herói.  Eu  aqui  tentando  quebrar  as  regras,  chamar  atenção,  me
autodestruindo...  e  você  enfrentando  seus  pais  olhando-os  no  fundo  dos  olhos,
cara a cara, sem esconder quem é que dá as cartas.
Engoli em seco.
— Um dia eu vou ser tão bom quanto você... e se um dia você disser que
eu falei isso, direi que eu estava chapado — Geoffrey riu.
Eu sempre quis ser pai.
E  sendo  pai  eu  poderia  encerrar  toda  uma  tradição  familiar  e  iniciar  a
minha.
Claro  que  meus  pais  surtaram  quando  descobriram  que  meu  filho  não
seria herdeiro de uma outra fortuna, que não haveria união de clãs poderosos ou
coisa do tipo.
Era  uma  garota  simples,  de  origem  humilde,  que  aceitou  ser  minha
barriga de aluguel. Alguém que eu aprendi a ter carinho, cuidado e atenção sem
a obrigação de fazer por manter o status.
Nunca entendi porque eles não me deserdaram.
— Seu telefone está tocando — Geoffrey avisou.
Ignorei a chamada em meu bolso e continuei a dirigir.
— Falta pouco para chegar ao hospital. Eu retorno quando estivermos lá.
— É claro que eu não permitiria que você atendesse essa droga dirigindo
— ele enfiou a mão em meu bolso e tirou o aparelho, atendeu e colocou no viva-
voz.
— Mas que merda você...!
— Héctor? — uma voz feminina chamou do outro lado.
Fuzilei  Geoffrey  com  os  olhos,  tive  vontade  de  dar  um  sopapo  nele  só
para ver se assim ele recuperava o juízo.
—  Oi,  Amanda  —  falei  sem  muita  animação.  —  Estou  ocupado  agora,
não posso te dar atenção.
— Héctor, onde você está?


Geoffrey segurou a  gargalhada e eu  diminuí a velocidade  do veículo, já
havia me distraído, não dava para correr.
— Dirigindo. Fala.
— Héctor, você precisa voltar para casa.
— Amanda, eu estou do outro lado d...
— Héctor, a Serena morreu.


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