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Héctor Mitchell

A minha mãe me abraça com demora e não faz menção de me soltar.
Eu  não  a  culpo.  Deve  ter  dormido  aqui  e  só  Deus  sabe  como  é  ruim
passar a noite em um hospital e assistir o amor da sua vida envolto em aparelhos,
sem grandes esperanças de tê-lo de volta.
—  Anthony  deveria  estar  aqui  —  é  o  que  ela  me  diz  depois  de  quase
cinco minutos abraçados.
—  Eu  senti  a  sua  falta  também,  mãe  —  eu  a  solto  devagar,  mas  ainda
seguro suas mãos.
— Rebecca veio com marido e filhos, Laurel veio com o namorado, por
que você não trouxe o meu neto? — ela bate o pé no chão.
Rebecca e Laurel são minhas irmãs, a primeira é a mais velha, a segunda
a mais nova. E Anthony, se ainda não ficou claro, é o meu filho de onze anos.
Sim, eu tive um filho aos vinte e dois.
— Sabe há quanto tempo ele não sai da mansão e vem para cá? — eu a


olho de cima a baixo para constatar se ela está bem e está. Minha mãe tem uma
saúde invejável. — Ademais, ele está com a Amanda, está seguro e bem.
— Ele nunca saiu — ela torce o nariz e se afasta, quando cito a Amanda,
parece mais tranquila. — Você deveria tirá-lo da redoma de vidro que o protege,
ao menos para dizer adeus ao avô — ela evita me olhar.
—  Não  seja  dramática,  mama,  o  pai  vai  sair  dessa  —  tento  confortá-la
com o meu sorriso, mas ela permanece com o olhar distante.
—  Espero  que  ele  saia!  —  sua  voz  sai  exasperada.  —  Pelo  contrário
perderemos tudo!
Mama...
—  Seu  pai  sempre  foi  esse  homem  genioso,  bom  com  o  dinheiro  e
maluco.  Completamente  perturbado  das  ideias!  —  sua  voz  continua  naquele
nível alterado.
Mama! — dessa vez eu rio ao invés de repreendê-la.
Ela  olha  para  as  paredes,  os  aparelhos,  depois  o  meu  velhinho  ali,
deitado, sereno, numa paz que ele merecia, mas não daquela forma.
Meu  pai  trabalhou  desde  muito  jovem  e  nunca  parou.  Não  me  permitiu
substituí-lo  por  que  não  cansava  de  gritar  aos  quatro  cantos  que  eu  não  estava
pronto.
E  agora  me  colocava  contra  a  cruz  e  a  espada:  ou  eu  ficava  pronto  ou
perderíamos tudo.
Sejamos realistas, Héctor — minha mãe me encarou, não como uma
mãe olha para o filho, mas como dois adultos que sabem que podem perder toda
a  fortuna  que  têm  se  encaram.  —  Ele  zombou  de  nós.  Deu-lhe  uma  missão
suicida.
Fico em silêncio e me aproximo devagar da cama, passo a palma da mão
pelo braço do meu pai.
— Eu me pergunto até hoje se você foi capaz de amar a Serena! — sua
voz sai amarga.
— Eu amei a Serena — sussurro e olho todo aquele aparato tecnológico,
chega a ser intimidador. — Ela me deu a coisa mais preciosa do mundo...
—  Mas  ela  morreu  no  parto  —  sua  voz  não  melhorava,  parecia  que  ela
estava jogando tudo em minhas costas. — E você que já não era problemático o
suficiente, se tornou isso!
Mama... — balanço a cabeça negativamente.
— Seja sincero, Héctor — ela segura em meu braço. — Você? Se casar?


Você sabe de quanto dinheiro estamos falando? Você sabe quantos bens, ações e
o que o poder sobre a empresa significam? Mesmo que você arrume uma mulher,
eles  vão  ficar  de  cima.  Vão  vigiá-lo.  Vão  desenterrar  seus  podres,  mostrar  que
você vai a bordéis, cassinos, zonas! Deve até ter se tornado ateu!
Percebo que sou forte o suficiente porque seguro o riso. Seria pior se eu
risse. Mas ainda é ruim.
— Mas você aceitaria? Um casamento arranjado? É apenas um ano, Héc
—  ela  segura  em  meu  braço  agora  com  carinho.  —  Apenas  365  dias.  É  pouco
tempo.  Talvez  ele  acorde  antes...  —  sua  voz  agora  sai  esperançosa.  —  Meu
Deus, pelo que estamos sendo punidos?
Respiro fundo, minha cabeça está cheia de coisas nesse momento.
Primeiro o meu pai, dá pena vê-lo nesse estado.
Ele  era  um  homem  enérgico,  nem  parecia  ter  mais  de  cinquenta,  ainda
tinha fôlego para viver pelo menos mais três décadas! E vendo-o assim, percebo
o  quanto  o  amo  e  o  decepcionei.  Que  por  vezes  não  abri  mão  de  meus  vícios
para ao menos iludi-lo e mostrar-lhe que eu era sim um bom filho, ou ao menos
tentar.
Não era sobre mim. Era sobre ele.
Eu  era  o  único  filho  homem  e  ele  cobrava  muito  de  si  por  não  ter  “me
criado  direito”.  Éramos  muito  próximos,  muito  mais  do  que  minhas  irmãs
gostariam de ter sido com ele... e tudo o que eu fiz foi frustrá-lo.
Em  segundo  lugar,  minha  mãe,  que  não  me  deixava  ter  um  momento  a
sós  com  meus  próprios  pensamentos.  Falava  de  dinheiro,  joias,  do  quanto  meu
pai havia sido estúpido e por que ele queria nos punir daquela forma...
E  em  terceiro  lugar,  é  claro,  o  meu  filho,  Anthony.  Nasceu  prematuro,
não  pude  pegá-lo  no  colo,  a  mãe  se  foi...  com  medo  de  perdê-lo  como  perdi
Serena,  eu  o  protegi  do  mundo,  de  tudo  e  de  todos,  criando-o  longe  de  toda  a
loucura e efervescência da grande cidade.
Ao  menos  Amanda,  uma  antiga  amiga  minha  e  de  Serena,  se  dispôs  a
cuidar dele. Desde então não tenho muito com o que me preocupar.
— Se eu arranjasse uma boa mulher, Héc, sei que uma de boa família não
vai funcionar, então que seja uma da zona mesmo — a voz da minha mãe saiu
amarga nessa parte. — Uma qualquer, desse tipinho que você gosta... você não
acha, Héc? Você não faria um esforço por nós? Por seu pai? Por Anthony?
Céus,  como  eu  daria  qualquer  coisa  para  ter  um  segundo  a  sós  com
minha própria cabeça.


—  Tudo  bem  que  temos  dinheiro  para  viver  com  alguma  dignidade  por
um tempo... — ela já mudou o foco.
O “por um tempo” que ela está dizendo se refere aos milhões de dólares
que  cada  um  de  nós  tem  por  “esforço  próprio”.  Não  se  indigne  a  comer  esse
drama dela!
— Mas ainda assim... é o Geoffrey... ele vai ficar com o império e todo
nosso dinheiro...
— Mãe — pigarreei e depois soltei o chamado em forma de trovão.
Ela  se  calou  e  ficou  me  espiando,  minha  mãe  nunca  fora  uma  mulher
religiosa, mas tive a impressão de que ela estava apegada a um terço.
— Eu já tenho uma mulher em mente — revelei.
Minha mãe quase deu um grito de vitória, mas se conteve, graças ao bom
Deus e ao bom senso.
—  Que  ótimo!!!  Meu  Deus,  minhas  preces!  Minhas  preces!  Foram
atendidas!
— Não comemore agora.
— Por quê? — a felicidade se foi da mesma forma como veio.
— Por que não basta que eu a tenha em mente, ela precisa aceitar.
— Ah, ela vai aceitar — minha mãe torceu o nariz. — Ela é uma mulher,
e  deve  ser  uma  dessas,  uma  qualquer.  Você  é  um  homem  bem  nascido,  rico,
futuro dono de um império do ramo de energias! Quem ousaria te rejeitar?
Ela é uma mãe, vê? São todas assim.
— Estamos no século XXI, mãe, não no XVI.
— E o que você quer dizer com isso?
Que ela pode rejeitar, ela tem escolhas.
—  É  a  Amanda,  não  é?  —  ela  fica  até  esperançosa.  —  Sei  que  vocês
dois...
Eu a interrompo com um olhar sério. Ela se afasta e começa a confabular
consigo mesma como seria ter Amanda como nora.
— Você a conhecerá no tempo certo.
— Estamos sem tempo, Héctor!
Volto a olhá-la de forma austera e me despeço do meu pai, após fazer um
longo cafuné em sua cabeça grisalha.
— Então deseje-me sorte.




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