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Héctor Mitchell
Onze anos atrás
O meu carro parou atrás da ambulância diante da mansão nos Hamptons.
Respirei fundo enquanto assistia os médicos retirando a incubadora com
todo  o  cuidado  do  mundo  e  andavam  calmamente  até  a  porta  da  mansão,  para
levar o meu filho para dentro de casa.
—  Por  que  você  ainda  está  tenso?  Agora  você  pode  ficar  junto  do  seu
filho — Amanda passou as mãos em meu braço.
— Isso não muda o fato de que o médico disse que a situação dele pode
piorar a qualquer instante...
— Ao menos você fez tudo o que podia fazer. E ele está em casa.
— Sem a mãe — engoli em seco.
Amanda  me  abraçou,  mas  continuei  com  as  mãos  no  volante,  os  olhos
acompanhando  a  equipe  médica  levar  aparelhos  e  toda  sorte  de  aparato
farmacêutico que fosse necessário em qualquer urgência.
—  Você  precisa  que  eu  te  relaxe?  —  Amanda  falou  bem  perto  do  meu
ouvido.
— Você é sempre muito atenciosa — afaguei seu rosto com demora e a
encarei.
Entre Amanda e eu não havia muito mais do que sexo, mas eu me sentia
vazio, carente e um tanto deprimido com a perda de Serena.
Mantê-lo  por  perto  foi  uma  forma  que  encontrei  para  estancar  a  dor  da
perda e a ameaça de perda.
Ainda assim eu não me sentia completamente feliz.
Anthony era pequenininho, havia aberto os olhos só uma vez, e era bem
quieto.  Desde  que  nasceu  não  pude  pegá-lo  no  colo  em  nenhum  momento,  ele
era frágil demais. Aliás, pegar no colo seria demais, ele praticamente cabia nas
palmas das minhas mãos.


Meu quarto foi transformado em um quarto de hospital.
A minha cama fora colocada colada na parede e a incubadora no centro
do quarto rodeada do aparato tecnológico, um armário com medicamentos e uma
poltrona confortável onde eu passei boa parte dos meus dias.
Eu era pai solteiro aos 22.
Não  bastasse  um  pai  problemático  para  cuidar,  agora  eu  tinha  um  bebê
que ninguém sabia me dizer se iria sobreviver.
Às vezes eu encostava minha mão na incubadora como se pudesse tocá-
lo e sorria.
No início Anthony deixou a palidez de lado e foi ficando cada vez mais
rosadinho, se mexia pouco e não chorava.
Eu  acompanhava  as  enfermeiras,  com  completa  inveja  delas,  vendo-as
cuidar do meu filho.
Fiquei  dentro  daquele  quarto  por  dias,  assistindo-o  como  se  fosse  a
televisão, eu não queria perder nada.
—  Você  está  pronto?  —  prendi  a  respiração  quando  a  enfermeira  me
disse essas palavras.
Arregalei os olhos e impedi que o ar fosse de encontro aos pulmões como
se isso pudesse fazer o mundo parar.
Balancei a cabeça suavemente.
Ela sorriu e me chamou com a mão.
—  Com  cuidado  —  ela  disse  e  me  entregou  Anthony  enrolado  em  um
cobertor. — Segure a cabeça dele assim...
— Oi, campeão — a voz quase falhou. — Você está cada dia mais forte
—  toquei  suas  mãos  com  o  dedo  indicador.  —  Um  dia  você  vai  ser  mais  forte
que eu — sorri e apertei os olhos, sentindo-os formigar.
A enfermeira sorriu e saiu, o médico entrou com uma prancheta na mão.
— Como está, senhor Mitchell?
—  Bem  —  tentei  falar  suavemente,  cada  vez  que  as  palavras  saíam  da
minha boca Anthony franzia a testa e apertava os olhos.
— Espero que entenda que a situação do seu filho é delicada.
—  Sim,  eu  entendo.  E  agradeço  por  terem  considerado  trazê-lo  para  a
mansão... — sorri.
—  Senhor  Mitchell  —  o  homem  me  encarou  com  seriedade.  —  O  seu
filho pode não sobreviver nas próximas semanas.


O sorriso foi se apagando. Engoli um gosto amargo.
Quem diria que a melhor parte de mim seria tão pequena e viveria fora de
mim?
Doía saber que eu poderia perde-lo a qualquer instante.
— Mas ele parece estar crescendo e engordando um pouco... — tentei me
sentir seguro naquilo que eu havia acompanhado.
— Sinto dizer que Anthony não tem respondido bem aos medicamentos
— ele olhou na prancheta.
— Use outros — encarei-o.
— Estamos fazendo o nosso máximo...
—  Não,  não  estão.  Se  os  remédios  não  funcionam,  eu  banco  novas
pesquisas para inventarem o remédio que vai curar o meu filho do que quer que
ele tenha.
— A vida é uma coisa delicada, senhor Mitchell... — o médico segurou
em meu ombro e espiou Anthony em minhas mãos. — E imprevisível também...
— Diga logo o que quer dizer.
— Não quero ser pessimista, mas se o seu filho crescer...
— Ele vai crescer.
—  Ele  será  uma  criança  que  demandará  cuidados...  será  frágil...  a
imunidade dele é baixíssima e...
—  O  meu  filho  nasceu  —  fui  áspero.  —  E  vai  sobreviver.  Nem  que  eu
precise trocá-lo por um médico mais eficiente.
Ele engoliu em seco e se afastou.
—  Darei  tudo  de  mim,  senhor  Mitchell  —  ele  rapidamente  saiu  do
quarto.
O medo de perdê-lo ficou grafado em mim.
E desde cedo eu me cansei de notícias ruins.
Eu  queria  pelo  menos  uma  vez  na  vida  ouvir  algo  que  me  desse
esperança.
Construí minha própria esperança sozinho.
Os médicos disseram que Anthony não passaria do segundo mês... depois
disseram que ele não conseguiria falar... que teria algum distúrbio psicológico...
não conseguiria andar... a baixa imunidade o faria pegar qualquer doença...
Nunca desisti de Anthony.
Seria como desistir de mim.




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