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Tempo atual.
De  todas  as  visitas  que  eu  esperava  receber  por  ali,  aquela  foi  a  mais
inesperada.
Anthony passou pela grande porta velha e desgastada e a fechou atrás de
si.  Olhou  os  muros  internos  cobertos  pela  trepadeira  seca  que  dava  um  ar
macabro e fez uma careta, depois olhou ao redor e sorriu ao ver o espaço limpo,
cheio  de  canteiros,  vasos,  algumas  cercas  ao  redor  das  árvores  que  estavam
sendo tratadas.
— Eles colocaram grama! — ele disse animado e veio até mim. — O que
você está fazendo?
—  Você  já  terminou  suas  aulas  de  hoje,  Anthony?  —  não  deixei  de
cobrá-lo logo de cara.
— Sim — ele uniu as mãos atrás do corpo e olhou ao redor.
— Estou preparando esses vasos para plantar algumas flores e ervas.
Coloquei uma porção generosa de terra fertilizada e depois as sementes,
fechei-as e molhei um pouco. Coloquei os vasos de flores ao redor das árvores,
as ervas eu organizei em um canteiro.
— Por quê? — ele fez uma careta.
Hum... — esqueci de tirar a luva e cocei o rosto, acabei me sujando.
Anthony prendeu a respiração e deu um passo para trás.
— Você vai ficar doente! — o seu tom de voz fazia parecer que o mundo
vai acabar. — Você não pode se sujar!
Caí na risada e tirei a luva, limpei o rosto e olhei para ele, agraciada por
sua inocência.
— É apenas terra.


— É sujo — ele retrucou.
— A gente vive em cima dela — foi meu contra-argumento.
— Mas ela causa doenças — ele tremeu.
— Não causa não, vem cá — o chamei.
Anthony  demorou  para  vir  até  mim,  mas  eu  insisti  tanto  que  ele  veio.
Com passos tímidos e um olhar temeroso ele se aproximou e se agachou quando
indiquei que devesse fazer isso.
— Você deveria plantar essas aqui enquanto eu cuido das árvores.
—  Não  é  mais  fácil  arrancar  elas?  —  Anthony  torceu  o  nariz.  —  As
árvores parecem velhas e cansadas... secas... seria melhor tirá-las...
Entreguei-lhe as luvas e ele custou para calçá-las.
—  É  isso  o  que  fazemos  com  coisas  velhas  e  cansadas?  Simplesmente
jogamos fora? — perguntei com doçura.
—  Parece  a  coisa  certa  a  se  fazer.  Quando  sai  um  celular  de  última
geração a gente joga o antigo fora ou até mesmo doa para os menos afortunados
— ele explicou.
Concordei  para  mostrar  que  ele  devia  mesmo  expor  sua  opinião,  isso
fazia muito bem.
—  Mas  será  que  com  a  natureza  é  assim,  Anthony?  A  gente
simplesmente  joga  fora  ou  doa?  —  fiz  um  cafuné  em  seus  cabelos
engomadinhos.
—  Eu  não  sei.  Tem  muita  natureza  no  mundo  —  ele  comentou.  —  E
quando tem muita coisa de algo, há pouco valor. As coisas só têm valor quando
são raras.
Fiquei de pé e o encarei de cima, peguei a terra fertilizada e caminhei até
a  árvore  mais  próxima.  Ele  me  acompanhou,  claramente  inseguro  de  ficar
sozinho com os vasos.
—  Se  tem  tanta  natureza  no  mundo  e  ela  nasce  sozinha,  por  que  você
gasta tempo plantando essas coisas? — ele quebrou o silêncio.
—  Você  está  muito  afiado  hoje!  —  terminei  de  colocar  a  terra  nos
buracos que havia feito superficialmente ao redor da árvore.
— Obrigado.
— A vida é meio misteriosa, sabe?
— Por isso a gente estuda biologia.
— Sim, por isso também — tive de rir. — Bom, eu gosto de flores. Elas


são  delicadas,  precisam  de  muita  atenção  e  cuidado  para  nascerem  e  se
manterem  vivas.  Elas  não  nascem  de  imediato,  então  precisam  de  dedicação,
com  isso  nós  trabalhamos  paciência,  persistência  e  foco.  Paciência  porque  o
resultado leva tempo. Persistência porque não adianta regar um dia e ficar outros
sem regar, é preciso fazer com frequência e saber que a recompensa virá. E foco
porque se você regar demais pode acabar estragando. Assim como se não regar...
— Mas no fim elas podem nascer sem a sua ajuda, não é? A natureza se
encarrega sozinha.
— É claro. Mas o que custa dar uma mãozinha para a mãe natureza?
Anthony  ainda  não  parecia  muito  convencido.  Voltamos  para  onde
estávamos os vasos e ele ficou me encarando.
— Você ouviu o áudio que eu te dei no celular?
Ele tirou o aparelho com fones do bolso e depois o guardou, fez que sim
quando olhou ao redor e constatou que não tinha mais ninguém ali.
— Você sabe o que tem no áudio?
— Sei. Eu ouvi.
— Quantas vezes?
Hum?! — ele abriu bem os olhos, como se tivesse sido pego no crime.
— Quantas vezes ouviu?
As  bochechas  dele  ficaram  rosadas,  era  bem  bonitinho  de  ver.  Anthony
tapou as maçãs do rosto com as palmas da mão e começou a dar palmadinhas.
— É o frio do início da primavera — ele se justificou.
—  Você  não  precisa  se  desculpar  por  ter  sentimentos  —  voltei  a  me
agachar e comecei a colocar terra nos vasos com as mãos mesmo.
— Você vai ficar doente assim! — ele segurou em meu braço.
— Eu já fiz muito isso, desde bem pequena... nunca fiquei doente.
Anthony  também  se  agachou  e  foi  abrindo  os  pacotes  de  semente  e  me
entregando.
— Eu não sei quantas vezes ouvi. Eu dormi ouvindo — suas bochechas
ficaram ainda mais coradas.
Aquilo era ótimo! O meu sorriso ficou gigante.
— É gostoso ouvir que é amado, não é?
— É.
—  O  amor  é  igual  a  arte  de  plantar,  Anthony.  É  preciso  ter  cuidado,
dedicação,  persistência,  foco,  paciência...  eu  amo  cada  pedacinho  de  trabalho


que eu fiz por aqui. Desde a limpeza, colocar a grama, preparar os vasos, colocar
as sementes... e quando elas nascerem e florirem eu vou amar tanto! Vai ser tão
lindo!
— E quando morrerem? — ele evitou me olhar. — Você joga fora?
— Aí a gente replanta. Usa o que morreu como adubo. Faz novas flores
nascerem, torna tudo verde outra vez e cuida para que viva o máximo que puder,
até  que  siga  o  ciclo...  As  coisas  orgânicas  não  são  como  as  coisas  eletrônicas.
Não  dá  simplesmente  para  descartar  e  jogar  fora...  sempre  é  possível
reaproveitar,  fazer  brotar  de  novo,  renascer...  se  não  tiver  jeito  a  gente  busca
outra  forma  de  continuar  o  jardim.  Com  outras  flores,  outras  cores,  outros
cheiros... mas sempre com o mesmo amor, carinho, paciência, foco e persistência
de antes.
Anthony não discutiu aquilo. Só balançou a cabeça e enfiou as mãos no
saco de terra fertilizada e repassou para os vasos.
—  O  que  foi?  Perdeu  o  medo  de  ficar  doente?  —  me  aproximei  um
pouco mais dele e o imitei.
Anthony coçou o rosto, e desastrado igual eu, acabou se sujando.
— Não — ele tirou os fones do bolso e colocou nos ouvidos.
Pedi  permissão  e  peguei  um  dos  fones  e  coloquei  no  meu  ouvido
esquerdo.
—  Você  sabe  quando  as  flores  vão  nascer?  —  ele  perguntou  bem  alto
para tentar ofuscar a voz do pai no ouvido.
— Não, eu não sei. Mas eu vou continuar cuidando de tudo até que elas
possam nascer.
— Você pode me chamar para te ajudar na próxima vez.




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