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amplitude  do  que  é  viver.  Nós  somos  insubstituíveis.  E  isso  pode  gerar
sentimentos,  visões,  sensações  e  comportamentos  bem  curiosos  sobre  o  que  é
viver...
—  Então  tudo  bem  ele  viver  uma  vida  sem  significado  contanto  que
duplique os lucros da empresa? — provoquei.
Eu  sempre  fui  destemido  e  não  tinha  medo  de  peitar  quem  quer  que
fosse, o senhor Smith sabia disso.
O sorriso gentil foi uma demonstração de que ele sabia que aquele era eu.
Terence  Smith  caminhou  até  a  grande  janela  de  vidro,  dando-me  as
costas.
— Venha cá, meu rapaz — ele me chamou com tranquilidade. — O seu
pai ergueu esse império junto comigo. Eu não teria conseguido, se não fosse por
ele.  Mas  como  pode  ver,  eu  estou  muito  velho.  Gregory  não  é  mais  o  braço
direito  de  ninguém,  agora  ele  é  quem  comanda.  E  é  ele  quem  precisa  de  um
braço direito.
Eu não...
— A melhor forma de ajudá-lo é permanecer ao lado dele e protegê-lo de
si mesmo.
Os olhos claros e cansados do senhor Smith me fitaram.
— Alguém capaz de enxergar as fraquezas deve ser capaz de enxergar as
qualidades também e com isso aprender a erguer a partir das forças que encontra
no outro, não é mesmo? — ele bateu com a mão direita em minhas costas.
— Senhor Smith, eu...
—  Héctor  —  sua  voz  ao  chamar  meu  nome  me  calou  de  imediato.  —
Curioso como o tempo é. Você pediu para vir aqui hoje... justamente hoje... e eu
tinha algo inadiável para lhe dizer...
— Sim?


— Geoffrey é um garoto problemático.
Ah, que bom que ele tinha percebido que o filho era um descompensado!
— Se o poder destrói pessoas que tem a cabeça no lugar como o seu pai,
o que ele faria com Geoffrey?
Preferi não comentar.
— Coisas terríveis — ele mesmo completou. — A índole duvidosa e as
ações completamente hostis de Geoffrey revelam o tipo de pessoa que ele é com
a ilusão de poder. Imagina se ele de fato o tivesse.
— O senhor é o pai dele, então pode dizer isso com propriedade — falei
sério.
O senhor Smith riu.
— Quero que você me substitua — ele deu o veredito.
Quê? — me virei abruptamente e o encarei. — Senhor?
— Escute-me — ele disse calmamente. — Existe, Héctor, muito mais do
que  você  pode  imaginar.  Segredos  que  as  paredes  desses  grandes  prédios
escondem,  aliados  e  inimigos  nos  corredores  dessa  grande  nação  e  fora  dela,  e
uma luta silenciosa pelo poder.
Arregalei os olhos.
— Ajude o seu pai, Héctor. Não o culpe ou o julgue agora. Algo grande
está  acontecendo  e  o  seu  pai  tem  lutado  para  manter  não  apenas  você  e  sua
família,  mas  toda  uma  nação  sob  controle.  Então  seja  amigo  dele  e  divida  o
fardo.  Você  perceberá  que  o  caminho  é  difícil,  tortuoso  e  acima  de  tudo
perigoso.
Senhor Smith — segurei em seu braço e arregalei os olhos.
Prendi a respiração.
Um  avião  atingiu  uma  das  torres  gêmeas.  Ela  explodiu  bem  diante  dos
meus olhos.
Dei um passo para trás, mas o senhor Smith me segurou firmemente e me
manteve bem onde eu estava.
Nós somos os descendentes dos Pais Fundadores dessa nação, Héctor
— ele disse com calma, como se nada tivesse acontecido. — Eles nos legaram
apenas  uma  responsabilidade:  tornar  essa  nação  grande.  E  é  isso  o  que  nós
fazemos.
—  Eu  não  entendo  —  continuei  paralisado,  encarando  a  destruição,  a
fumaça preta, o desespero.
Quando o senhor Smith me ofereceu seu copo de whisky um novo avião


bateu na outra torre.
Engoli em seco.
—  O  que  acontece,  Héctor,  quando  uma  nação  bélica  vive  em  meio  a
paz?
Eu não conseguia pensar. Eu vi as duas torres caírem.
Foi  a  primeira  vez  que  bebi  algo  alcoólico  na  vida,  o  líquido  desceu
queimando tudo, inclusive o meu medo, mas eu ainda tremia.
—  Ela  cria  guerras  —  o  senhor  Smith  murmurou.  —  Ela  precisa
produzir guerras para sobreviver, para se manter como grande potência. Mas não
como o valentão que ameaça a qualquer um e é violento sem motivo... É preciso
ser o herói. E para ser o herói, é necessário construir, encontrar ou inventar um
vilão.
Terminei  de  beber  aquele  líquido  e  fiquei  zonzo,  perguntando  a  mim
mesmo se tudo o que eu vi tinha mesmo acontecido.
— A guerra, a fome, o desespero, a pobreza... — o senhor Smith disse de
um  jeito  inspirador.  —  Todos  eles  são  lucrativos.  E  quando  um  bom  cenário  é
construído, nós não precisamos fazer absolutamente nada para convencê-los de
que  a  guerra  é  fundamental.  Eles  mesmos  defenderão  o  sistema  e  lutarão  por
nós. É para isso que eles existem.
—  Isso  tudo  havia  sido  programado?  —  perguntei,  mais  para  mim
mesmo do que para ele.
E se eu tivesse me atrasado vinte minutos? E se eu ainda estivesse por ali
onde as torres caíram? Eu teria morrido.
—  Quando  chegar  a  hora,  quero  que  me  substitua  em  algo  grande,
Héctor.
Grande como o quê?
—  A  grande  organização  que  mantém  o  mundo  funcionando.  Ocupe  o
meu lugar em troca de manter a minha família em segurança. Você tem esse ar
superprotetor que me inspira confiança. Eu jamais colocaria Geoffrey a frente de
algo grande assim.
—  Uma  sociedade  secreta?  —  novamente  perguntei  mais  para  mim  do
que para ele.
A  resposta  do  senhor  Smith  foi  um  sorriso  gentil  e  então  ele  se  afastou
apontando para a porta.
Como  mágica,  a  secretária  entrou  desesperada,  encarando-nos  como  se
tivesse visto o inferno e o diabo.


— Senhor! Senhor! Está tudo bem por aqui? — ela mal conseguia falar,
estava afogada no próprio desespero.
O senhor Smith só balançou a cabeça como se fosse um senhor de idade
caduco  que  não  conseguiria  raciocinar  tudo  o  que  estava  acontecendo  e
murmurou para que ela trouxesse água.
A mulher saiu correndo, aos berros.
— Viu como “eles” são? — o senhor Smith riu.
— E o que nos diferencia deles? — perguntei.
—  Nós  somos  insubstituíveis,  Héctor  —  ele  piscou  o  olho.  —  Eles  são
peças em um tabuleiro...
Olhei pela janela o rastro de destruição, caos e morte.
O pouco que pude raciocinar de minhas palavras e das palavras do senhor
Smith, entendi o porque ele não se espantou das coisas que contei do meu pai.
Ele sabia o que estava acontecendo. E não se importava nem um pouco.
O  preço  pelo  poder  era  ficar  louco  e  buscar  amparo  em  qualquer  coisa
que  anestesiasse  o  corpo,  como  aquele  líquido  que  queimava  dentro  de  mim  e
me  deixava  quase  dopado  do  desespero,  choque  e  tristeza  em  ver  vidas  sendo
tiradas assim.
Era o preço de ser insubstituível.
Nós somos os inventores, mantenedores e donos do jogo, meu rapaz.




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