Protegida pelo Bilionário


Capítulo 20 Beatriz Rodrigues



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Capítulo 20
Beatriz Rodrigues

O  final  de  semana  passou  bem  rápido  e  na  noite  de  domingo  Héctor
precisou retornar para suas obrigações.
Pensei  que  depois  do  jogo  de  beisebol  Anthony  e  Héctor  se
reaproximariam e eu não entendi porque não os vi juntos depois disso.
Quando  perguntei  a  Héctor  sobre  Anthony  ele  respondeu  que  o  filho
dormia. Isso três vezes. Achei bem estranho.
Na noite de domingo fui visitar Anthony no quarto, já não precisava ser
de forma sorrateira, eu pouco ligava se Amanda nos encontraria.
— Pensei que estivesse dormindo...
— Eu lendo — ele abaixou o livro e me encarou.
—  O  seu  pai  veio  te  ver  três  vezes.  Disse  que  nas  três  você  estava
dormindo...
—  Devo  ter  cochilado  —  ele  respondeu  rapidamente  e  voltou  para  o
livro.
—  Anthony,  você  se  lembra  do  que  me  perguntou  na  quarta-feira?  —
Sentei-me na cama e o encarei.
Ele se fez de desentendido e continuou a ler.
— Você me perguntou se eu achava que seu pai gostava de você...
Ele prendeu a respiração e passou uma página do livro, fingindo que não
estava  prestando  atenção  no  que  eu  dizia.  Infelizmente  o  corpo  dele  dizia  o
contrário,  repentinamente  ele  ficou  tenso,  paralisado  na  cama,  começou  a  virar
as páginas como se isso fizesse o tempo passar mais rápido.
— Ainda estou curiosa para saber de onde vem essa pergunta — comecei
a fazer cócegas no pé dele por cima da coberta. — Mas eu vou esperar que você
me diga de livre e espontânea vontade, ok?
Anthony  abaixou  o  livro  e  me  encarou  por  alguns  segundos.  Quando
estava  pronto  para  retornar  a  sua  leitura  de  vinte  páginas  depois  do  que  estava
lendo, eu tomei seu livro.
Ei! — ele reclamou.
— Já passou da hora de dormir — tive de ser a adulta da vez. — E eu te
trouxe isso — entreguei-lhe um pequeno celular.


O  celular  era  simples,  não  tinha  nada  de  atrativo  como  os  das  últimas
gerações, mas havia algo valioso nele.
— Você viajou da pré-história para buscar isso? — ele riu.
—  Mais  ou  menos...  tem  algo  gravado  aí,  quero  que  escute  quando  se
sentir confortável, ok?
Seus olhos brilhantes me encararam um tanto assustados.
—  Boa  noite  e  durma  bem.  E  se  precisar  de  mim,  o  meu  número  é  o
primeiro nesse celular.
— Você precisa mesmo ir?
— Preciso. Nada de passar a noite acordado, você tem um dia atarefado
amanhã. Quando eu sair, tranque a porta.
— Tudo bem.
Aproximei-me do seu rosto e dei-lhe um beijo na testa.
Não  foi  ensaiado,  eu  sequer  havia  pensado  em  fazer  isso,  foi  um  gesto
mecânico  e  quando  percebi  que  assim  o  fiz,  saí  praticamente  petrificada  do
quarto.
Não  sem  antes  conferir  que  Anthony  estava  um  tanto  desconcertado  e
atônito com aquele aparelho antigo em mãos.
E talvez ele ficasse ainda mais assustado com o que escutaria.
Quatro dias antes.
—  Anthony  nasceu  prematuro  —  Héctor  me  encarou.  —  Eu  perdi  a
Serena naquela noite e não pude pegar o meu filho por muito tempo. Eu só podia
vê-lo, tocá-lo com o dedo às vezes e remoer em mim o fato de que eu nem podia
ter  o  meu  filho  em  meus  braços  e  protegê-lo  de  tudo  ao  redor.  Ele  era  muito
frágil e doente, eu tinha medo de estragar tudo, então respeitei o protocolo desde
cedo...
— E conforme ele cresceu? — perguntei.
— Haviam outros problemas, Bia...
— Anthony tinha problemas?
— Não, o meu pai — Héctor ficou bem mais sério nesse momento. — Eu
tinha um filho e um pai para cuidar. Ambos doentes.
Segurei em sua mão nesse instante.
— Eu me tornei braço direito do meu pai e vivi para a Mitchell & Smith


desde o dia em que percebi que tudo poderia desmoronar se eu não estivesse por
perto  para  cuidar  das  coisas...  e,  sim,  devo  admitir  que  talvez  tenha
negligenciado  um  pouco  o  crescimento  de  Anthony...  mas  eu  não  o  queria  no
centro da cidade, eu o queria o mais longe possível, protegido, tendo tudo o que
precisava  e  sendo  educado  pelos  melhores  professores  que  o  dinheiro  pudesse
pagar.
— Você se preocupava com ele — falei.
—  Eu  o  amava  desesperadamente,  Bia.  Mas  sem  saber  o  que  fazer...  eu
tinha  medo  de  me  aproximar  e  de  alguma  forma  fragiliza-lo  ainda  mais  ou
adoecê-lo...
— Você não faria isso...
—  É  o  efeito  do  mundo  em  que  eu  vivo.  Todos  ficam  doentes.  E  eu
queria  Anthony  longe  de  tudo  para  preservar  o  melhor  nele.  Fazê-lo  crescer
diferente de mim, melhor do que eu, melhor do que todas as pessoas que compõe
o meu mundo.
— Eu não entendo.
— Um dia você vai entender — Héctor abriu um sorriso gentil.
— E você gosta dele? Do Anthony? — perguntei.
Essa era a parte que ficaria gravada para que ele escutasse.
— Eu nunca entendi o que era amor incondicional até vê-lo pela primeira
vez.  A  sensação  de  que  eu  faria  qualquer  coisa  por  ela  e  o  amaria  de  qualquer
jeito. Eu não sabia que o amaria tanto... ele foi e sempre será a melhor parte de
mim.  Quando  eu  o  vejo  é  como  ver  a  minha  própria  história  e  me  faz  pensar
naquilo  que  eu  luto  todos  os  dias  para  que  ele  não  precise  ver  e  passar  pelas
coisas que eu passei.
— O professor Krabs disse que vocês jogavam beisebol antigamente...
— O meu pai deu de presente para Anthony a bola, o taco e a luva. Eu
nunca  gostei  muito  de  beisebol,  não  é  bem  a  minha  praia,  mas  ele  parecia  tão
fissurado naquilo quando ganhou de presente que eu me senti intimado a ensiná-
lo e jogar com ele. Foi uma forma que encontrei de passar um tempo junto com
ele.  Eu  sempre  tive  a  impressão  de  que  meu  filho  se  esquivava  de  mim,  se
afastava em silêncio... mas quando jogávamos conseguíamos deixar isso de lado
e nos divertíamos muito.
—  O  que  você  acha  que  o  Anthony  precisava  ouvir  de  você?  Se  você
pudesse dizer-lhe algo hoje, o que diria?
— Eu... pediria perdão por não ter conseguido expressar todo o amor que


sinto  por  ele.  Acho  que  falhei  nas  demonstrações  de  amor.  Sabe,  eu  era  um
adolescente idealista e jurava para mim mesmo que seria totalmente diferente do
meu  pai.  Eu  estaria  presente,  faria  tudo  junto  com  o  meu  filho  e  acompanharia
cada  passo  dele  ao  invés  de  dizer  que  o  amo  através  de  dinheiro  e  bens
materiais...  e  no  fim,  cá  estou  eu,  repetindo  as  mesmas  merdas  que  o  meu  pai
fez.
— Não seja tão severo consigo mesmo.
— Mas eu sonhei que tudo seria diferente. E idealizei como seria a vida
do Anthony. Eu queria me fazer presente e ser o melhor amigo dele... mas aí eu
cresci... e vi o mundo... e tudo o que eu consegui tirar disso foi afastar meu filho
do  centro  do  mundo  para  preservá-lo  das  coisas  que  o  ser  humano  é  capaz  de
fazer  pelo  poder.  E  nessa  besteira  acho  que  nos  afastamos...  e  eu  não  sou  o
melhor amigo dele.
— E como seria ser o melhor amigo dele?
— Ah, eu era o melhor amigo dele quando ele disse as primeiras palavras
—  Héctor  riu.  —  E  quando  ele  aprendeu  a  andar...  Eu  também  era  o  melhor
amigo dele quando ele fazia xixi na cama e não conseguia dormir porque tinha
medo de ter pesadelos e reviver as imagens que o inconsciente dele fabricava...
Eu também era o melhor amigo dele quando chovia forte e relampejava, ele tem
muito medo disso. Mas eu espero que quando essa tempestade que assola nossas
vidas  passar  eu  possa  voltar  a  ser  o  melhor  amigo  dele,  nem  que  para  isso  eu
abdique da posição que eu ocupo.
Héctor parecia bem seguro do que dizia.
—  Eu  não  acho  que  você  precise  abdicar  da  posição  que  ocupa  para
poder ser o melhor amigo dele, Héctor...
— Eu precisaria — ele disse com firmeza. — E eu abdicaria. Por que eu
o amo e eu faria qualquer coisa pelo meu filho.
—  Obrigada  por  ser  tão  sincero  comigo  —  falei  e  apertei  o  botão  para
encerrar a gravação.
—  Eu  sinto  que  com  você  aqui  posso  me  reaproximar  de  Anthony  e
recuperar algo que nunca tivemos...
— Isso só depende de vocês dois.
—  Eu  sei  que  sim.  E  eu  farei  a  minha  parte  para  que  isso  possa  se
realizar.
— Héctor, quando você disse que era idealista e queria fazer diferente do
seu pai e acabou se tornando como ele... o que você quis dizer exatamente? —
perguntei, não escondi que fiquei curiosa com aquela parte.


É uma longa história — ele riu. — E ficarei te devendo essa parte por
hora.



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