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“Dois  criminosos,  um  garotinho  de  dez  ou  onze  anos  e  uma  mulher  em
fase  adulta,  desceram  as  escadas  sorrateiramente.  Olharam  de  um  canto  para
outro para ter certeza de que não seriam vistos e na ponta dos pés foram para a
cozinha.
Abriram  uma  das  geladeiras  e  conferiram  o  que  era  apetitoso  para
roubar aquela noite.
Até que a luz se acendeu”.
— Yone — suspirei aliviada, a mão no peito, ainda paralisada, estava até
me divertindo com a brincadeirinha com Anthony.
—  Beatriz  —  ela  abriu  um  sorriso  de  tranquilidade.  —  Escutei  um
barulho e vim ver o que era...
— Ah, sim.
Na verdade, acho que Yone também veio roubar comida — Anthony
avaliou.
E  assim,  três  pessoas  completamente  diferentes  se  sentaram  em
banquinhos na cozinha para comer; uma mulher com mais de cinquenta, eu com
vinte e dois, e Anthony com seus onze.
Yone  preparou  um  chá  e  comeu  cookies,  eu  me  contentei  com  água  e


uma  das  comidas  em  marmita  que  fora  preparada  especialmente  para  mim  e
Anthony tomou um pouco de achocolatado quente e pegou no sono.
Era bom que ele dormisse mesmo, assim talvez conseguisse regular seu
horário.
— Sabe há quanto tempo ele não saía do quarto? — Yone me perguntou.
Eu não fazia a mínima ideia.
— Mais de seis meses.
Como aquele garoto tinha toda aquela construção ao seu dispor e ficava
trancado dentro do quarto por tanto tempo?
— E como era antes? — perguntei.
—  Ele  sempre  foi  muito  introvertido,  calado  e  recluso.  Sempre  oscilou
entre a biblioteca e o quarto, mas passava muito mais tempo na biblioteca — ela
explicou. — Infelizmente de uns meses para cá ele foi se isolando e isolando... e
quanto mais tentávamos nos aproximar, mais ele se afastava...
Concordei, aquilo era o suficiente para me fazer entender.
— Acho que você conseguiu mudar alguma coisa — ela me parabenizou.
Não era assim que eu enxergava.
Pelo menos, eu não queria aquela responsabilidade. Tinha medo dela.
— O que você quer dizer com isso?
— Você não reparou como ele olha para você?
Não, eu não tinha reparado.
—  É  como  se...  você  pudesse  entende-lo...  como  se  pudesse  ajuda-lo...
Todos  nós  já  percebemos  que  Anthony  não  quer  falar  o  que  o  aflige,  mas  de
alguma forma ele sentiu que você sabe o que é. Ele confia em você.
— Por que você acha isso, Yone?
— Oras, vocês dois estavam aqui antes de mim. Narrando algo como se
fosse  uma  historinha...  —  ela  me  mostrou  o  que  queria  dizer.  —  O  menino
Mitchell  não  é  como  as  outras  crianças.  Ele  sempre  foi  muito  adulto,
amadureceu  muito  cedo,  ele  não  faria  esse  tipo  de  coisa...  Parece  que  você
desperta o melhor nele...
Fiz que não.
Claramente isso a incomodou.
— O que há, senhora Mitchell?
Respirei fundo. Vigiei toda a cozinha para ter certeza que não havia mais
ninguém ali.


—  Eu  não  sou  capaz  de  despertar  o  melhor  em  ninguém.  Muito  menos
em uma criança...
Bia... — ela segurou em minha mão.
Aquele foi o combo capaz de me desabar. Estar fragilizada após ter sido
envenenada, ser chamada pelo nome e ter alguém segurando minha mão. Pronto,
eu queria desabar. Mas não queria acordar Anthony.
— Eu preciso revelar que estou com um pouco de medo — fiz um bico e
engoli o choro.
Yone arqueou a sobrancelha, encarando-me de forma compassiva.
— Yone, algo muito errado está acontecendo...
— O quê, senhora Mitchell?
— Anthony claramente está sofrendo algum tipo de abuso...
Ela  não  pareceu  nada  surpresa.  Só  engoliu  em  seco  e  continuou  a  me
encarar.
Então a senhora percebeu — ela murmurou.
Arregalei os olhos.
Yone!!!
— Para a minha defesa, devo dizer que ela exercia um certo poder sobre
o  senhor  Mitchell  —  ela  logo  tratou  de  mostrar  que  não  tinha  nada  a  ver  com
aquilo. — Ela tem estado no domínio de tudo há tantos anos que muitas outras
pessoas e eu já desistimos de lutar. É em vão.
— E você acha que eu tenho forças para lutar contra ela??? — continuei
com os olhos esbugalhados.
—  Se  me  permite  dizer,  senhora  Mitchell,  a  senhora  cancelou  o  efeito
que ela tinha sobre ele — daí Yone abriu aquele sorriso inglês, bem econômico,
que  dura  menos  de  um  segundo  e  se  fecha  novamente.  —  Me  surpreende  que
tenha percebido tão rápido...
Eu não queria, eu nunca havia dito aquilo em voz alta, mas...
— Eu também fui abusada quando criança.
A  expressão  da  mulher  de  compassiva  se  tornou  atemorizada,  depois
retornou para um tom mais afetuoso. Ela se levantou e segurou em minha mão.
— Não foi abuso psicológico, foi... foi...
Shhh — ela pediu. — Senhora Mitchell, a senhora deve descansar. Por
favor...
—  Eu  não  posso  permitir  que  essa  criança  seja  abusada,  Yone  —  eu  a


encarei no fundo dos olhos. — Sabe o que eu fiz toda a minha vida depois que
abusaram de mim? Eu tentei fugir de tudo. Do passado. De mim mesma. Quando
me formei e consegui um dinheiro, eu fugi para São Paulo. Mas ainda assim eu
me sentia uma andarilha...
Bia — ela me abraçou com força.
— Eu não consegui encontrar um lar em nenhum lugar que fui... eu tinha
nojo  de  mim  mesma...  me  sentia  imunda,  pesada,  desprezível...  via  todos  os
homens  aos  meus  pés  e  isso  me  machucava,  só  fazia  pelo  dinheiro,  para  poder
viver a ilusão de ter uma vida incrível e poder dizer que venci...
Bia — ela tornou a chamar.
Eu nem percebi que estava aos prantos.
Tudo bem — ela me abraçou. — Está tudo bem agora...
Continuei  soluçando,  presa  naquele  abraço  que  me  deu  um  certo  alívio,
lutando contra as lembranças que me levavam para o abismo.
Ser  abusada  por  alguém  tão  próximo,  alguém  que  deveria  te  defender  e
na verdade se aproveitou...
— Tudo mudou em minha vida quando Héctor apareceu — desabafei. —
Desde o primeiro instante ele sempre me tratou como... gente.
— Ele é assim com poucos — ela pontuou.
—  É  claro  que  teve  o  lance  de  atração  e  tudo  mais...  mas...  quando  eu
estive com ele a primeira vez... — comecei a balançar a cabeça em negação. —
Foi como enterrar o passado e enfim sentir que eu não era mais suja, sabe?
Bia —  Yone  me  chamou.  —  Você  é  de  longe  uma  das  pessoas  mais
incríveis  que  entrou  nessa  casa.  O  senhor  Mitchell  a  escolheu  e  escolheu  bem.
Deve ter sido a mão de Deus.
— Foi só o acaso — retruquei.
— Às vezes é bom ter um pouquinho de fé, Bia. E acreditar que mesmo
nas linhas tortas Deus desenha nossa vida.
Concordei.
— Pense que foi o seu passado tão dolorido que te trouxe aqui. No tempo
e  lugar  certo  para  impedir  outros  abusos...  Pois  só  uma  pessoa  como  você
poderia  ser  tocada  e  ter  o  poder  de  impedir.  Então  não  se  prenda  mais  às  suas
dores...
— Você é muito boa com as palavras, Yone...
—  Sabe,  chega  uma  hora  na  vida  que  você  percebe  que  tem  quase  a
obrigação  de  proteger  os  mais  jovens  ou  pelo  menos  dar-lhes  suporte,  daquilo


que já aconteceu com você. E Anthony está aqui. Ele precisa de você. Todos nós
já tentamos, mas ela era mais forte. E não é mais. Não com você aqui.
— Obrigada pelas palavras, Yone.
— É o melhor que consigo às uma e meia da manhã, senhora.
Eu  quis  revelar  a  Yone,  naquele  instante,  que  Amanda  havia  tentado
matar o garoto. Por quê? Eu  não  sei.  Mas  ela  havia  tentado.  Eu  sabia  disso.  A
dose que ela tinha colocado naquela sopa era para derrubar o menino de vez.
Mas eu guardei aquilo comigo.




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