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Eu não sei, só sei que fui.
E  conforme  eu  me  aproximava,  a  coisa  ia  se  tornando  menos  vento  e
lamento e algo mais compreensível
Daí eu quase morri do coração mesmo.
Vi  uma  janela  entreaberta  e  o  vento  contra  ela,  o  barulho  do  choque  do
vento,  a  janela  e  o  descanso  da  janela  foi  arrepiante.  Pelo  menos  estava
explicado ali um dos motivos daquele furdunço todo.
Fechei  a  janela  de  forma  apropriada  e  segui  meu  caminho  de  volta  ao
quarto.
Agora era mais nítido, ouvi um choro.
Dei meia volta, ainda preocupada com minha própria sanidade, e segui o
som.  Por  que  diabos  eu  precisava  ir?  Por  que  eu  não  voltava  para  o  quarto,
colocava uma música para relaxar e dormia? Era mais forte que eu.
Segui  por  cinco  longos  corredores  e  só  parei  de  andar  quando  escutei
com nitidez:
— Não me desobedeça! — a voz era feminina e muito firme.
Não! — ouvi uma voz mais infantil.
— Não ouse agir contra mim, mocinho! Você entende as consequências!
Então a voz de choro retornou.
Não  era  choro  de  birra  ou  para  chamar  atenção.  Era  um  choro  de
desespero. Eu sabia muito bem como diferenciar aquilo.
—  Quando  eu  voltar  pela  manhã  espero  ver  esse  prato  vazio!  —  ela
ralhou.
Depois escutei uns estalos e o choro se intensificou.
O garoto fez um escândalo, gritou de dor.
Pensei, logicamente, que ele iria chamar pelo pai. Há algo mais comum
que isso? Mas ele não chamou. Só chorou.
Ao perceber que Amanda estava saindo do quarto, me escondi dentro de
uma das cortinas e rezei para que a aquela cobra não me visse.
E não viu.


Marchou,  com  seus  tec  tec  de  salto  alto  para  longe  dali,  e  me  deu  um
pouco de paz.
Bom, não tanta paz assim, afinal de contas, havia uma lamúria de partir o
coração no quarto.
E aí, o que fazer?
Ir embora, dormir e fingir que nada aconteceu? Entrar, ver se conseguia
entender a situação e conhecer Anthony?
E a pergunta que não quer calar: se eu era a “dona da casa” por que era
eu quem estava escondida atrás da cortina?
Que loucura.
Na dúvida, entrei no quarto.
Não fui educada, desculpe mãe, não bati na porta.
Girei a maçaneta e espiei pelo pequeno espaço que a porta me permitiu.
Vi duas luminárias lava, uma a cada lado da cama, que reproduziam uma
luz avermelhada no quarto que devo admitir, aquilo era sinistro.
Uma  parte  de  mim  pediu  para  fechar  a  porta  do  inferno  e  ir  embora.  A
outra parte me fez esticar o pé, entrar e fechar a porta.
O menino se escondeu debaixo do edredom.
Começou a chorar baixinho e conforme eu me aproximava, era nítido que
tremia.
Será que ele achava que eu era a Amanda?
Oi — falei baixinho no tom mais reconfortante que pude, ainda abri a
mão como se estivesse dando “olá”. — Eu não sou a Amanda...
Isso fez o garoto parar de tremer, não de chorar.
— Vai embora!
Fiquei  parada  no  mesmo  lugar.  Eu  devia  ir  mesmo,  estava  invadindo  a
privacidade dele. Mas era mais forte que eu!
Tudo bem... eu só queria dizer oi...
— Já disse. Vá embora! — ele insistiu.
A  rejeição.  É  claro  que  eu  não  esperava  um  abraço,  um  beijo  de  boas-
vindas e pulinhos de alegria. Também não esperava, é claro, o tom de desprezo
daquele menino.
— Eu já disse para ir embora! — ele tirou a cabeça debaixo do edredom
e me encarou, com fúria.
Respirava ofegante, os ombros subiam e desciam, as lágrimas escorreram


pelo seu rosto.
Preferi não imaginar como Anthony para me surpreender quando o visse.
E ele era a cara do pai e ainda assim me surpreendi.
Tinha  a  pele  bem  clara,  os  olhos  acinzentados  do  pai,  só  que  grandes,
bem  mais  inocentes,  e  é  claro,  úmidos.  Era  um  tanto  mais  franzino  do  que  eu
poderia imaginar de um filho de Héctor. Seu cabelo
Seu  rosto  estava  vermelho,  e  dava  para  ver  de  onde  eu  estava  que  o
ombro estava demarcado, como se ele tivesse apanhado de cinto nas costas.
— Vá embora! — ele ordenou mais uma vez.
Anthony tinha que me perdoar, mas eu era a adulta. E não iria embora.
Não sem respostas.
— Eu me chamo Beatriz. Acho que você...
—  Eu  sei  quem  você  é!  —  ele  disse  completamente  nervoso.  —  Você
roubou o meu pai de mim!
Dei até um passo para trás. O quê? Eu o quê?
— Ele não me ama mais por sua culpa! — ele me condenou.
O garoto nem me aguardou falar.
— Ant... — tentei.
— Você é a mulher má que veio destruir tudo! — ele cuspiu.
Pegou o notebook que estava em cima da cama e jogou com toda a força
que pode contra mim.
Infelizmente, ou felizmente, o eletrônico caiu no meio do caminho.
Então Anthony e eu nos encaramos como dois pistoleiros do velho oeste
se encaram antes da partida para ver quem atira primeiro e acerta o outro.
— Se eu sou a mulher má, o que a mulher que fez isso com você é? —
perguntei-lhe.
Desarmado. Bang bang.
Anthony  ficou  completamente  sem  graça.  Olhou  para  mim,  abaixou  os
olhos, depois olhou para o notebook caído.
Por um instante parece que sua fúria diminuiu.
Então foi a minha vez.
Eu dei um passo à frente.
— Não! — ele rangeu os dentes.
Nos  encaramos.  Como  dois  inimigos  declarados  da  oitava  série  se


encaram no refeitório quando percebem que não importa o quanto se achem um
superior ao outro, ainda estudam, comem, usam o banheiro do mesmo lugar.
Dei mais um passo à frente.
— Eu a proíbo! — ele disse num tom bem autoritário.
Lembrava bem o pai.
— Você não vai me machucar! Não vai me machucar! Eu não permito!
Ele repetiu aquilo mais para si mesmo do que para mim. E enquanto isso
eu peguei o notebook do chão, coloquei na cama e me sentei ao lado dele.
Anthony  e  seus  olhos  gigantescos,  só  perdiam  para  os  meus  que  eram
mais expressivos, me encarou como se eu fosse seu pior pesadelo. A pior mulher
do mundo. Como se quisesse ver o diabo com a camisa da seleção Alemã com 7
x 1 bordado atrás e não eu.
— Vai embora! — dessa vez ele não gritou, ele pediu. Como um pedido
de piedade.
Nossos corpos estavam afastados poucos centímetros. E, Deus, o garoto
tremia mesmo.
—  Eu  não  vou  embora,  Anthony  —  tive  de  decepcioná-lo  naquele
instante. — Eu não posso. Eu não quero. Eu não vim aqui tirar o seu pai de você.
Eu  não  vim  aqui  para  destruir  tudo.  Eu  não  cheguei  aqui,  Anthony,  para  lhe
machucar — expliquei calmamente contendo as minhas emoções e o meu medo.
Ele continuou a tremer e me olhar.
Depois avançou contra mim.
Tudo  o  que  fiz  foi  fechar  bem  os  olhos  e  esperar  a  dor  surgir  de  algum
lugar.
A dor surgiu.
Eram suas pequenas unhas cravadas em meus braços.
Anthony  me  agarrou  de  um  jeito  inexplicável.  Me  segurou  como  se  eu
fosse  o  único  apoio  de  sobrevivência  em  meio  à  tragédia  do  titanic  e  as  águas
gélidas.  Seu  corpo  veio  para  o  meu  colo  em  desespero,  como  se  pedisse
absolutamente  tudo,  e  eu  me  senti  insegura,  perguntando-me  se  eu  podia  dar  o
que ele queria... ou precisava.
Ele chorou.
Era um choro que pedia socorro. Era desesperado.
Mas ele estava em meus braços, agarrado a mim, a cabeça escondida em
meu colo, o corpo tremendo.


Me ajuda — ele implorou entre os soluços.
Eu estou aqui — afaguei seus cabelos com ternura.
Eu estou com fome — ele tremia.




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