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Beatriz Rodrigues



— E esse é o seu quarto — Yone abriu a porta dupla e me apresentou um
quarto digno de um hotel cinco estrelas.
Meus  olhos  brilharam  ao  ver  aquela  cama  gigantesca,  o  guarda-roupa
embutido  na  parede,  a  penteadeira,  Deus,  agora  eu  tinha  uma  penteadeira!  O
quarto tinha vasos em cima de colunas, flores de todas as cores estavam dentro
dele.
Uma  grande  janela,  com  cortina  cor  de  vinho  aberta,  mostrava  um
chafariz  aos  fundos  e  uma  estrada  de  tijolos  que  levava  para  um  lugar  atrás  de
muros  enfeitados  com  algum  tipo  de  planta  que  os  cobria,  eu  não  sabia  se  era
uma trepadeira ou algo do tipo.
Caminhei pelo cômodo e me sentei na cama macia, joguei-me de costas e
já imaginei as deliciosas noites que eu dormiria ali feito um bebê...
Quando me recordei que Yone estava ali me sentei prontamente.
Vi então um quadro grande com uma pintura bem realista. Uma mulher
de  cabelos  negros  e  olhos  fatais,  grandes,  esverdeados,  lábios  finos  e  bem
rosados.  Na  pintura  ela  estava  nua  e  só  aparecia  sua  cabeça,  pescoço  e  seios.
Fixei meus olhos na pintura e Yone veio em minha direção.
—  Meu  Deus!  Me  desculpe,  senhora  Mitchell,  eu  havia  pedido  que
retirassem isso... — ela se apressou.
— Yone, espera — eu pedi. — Quem era ela?
Yone pareceu humilhada. Insistiu para retirar a pintura, mas eu impedi.
—  Serena  era  pintora.  Esse  é  um  de  seus  autorretratos...  —  suas
bochechas  coraram  e  ela  continuou  com  aquele  semblante  de  que  iria  ser
despedida a qualquer momento.
— Ela era linda.
Quando falei isso a mulher me encarou de um jeito diferente.
O  sorriso  não  foi  econômico  como  da  primeira  vez  e  seus  olhos
brilharam.
—  Ela  era  sim.  Uma  boa  mulher.  Esteve  pouco  tempo  conosco,  mas
iluminou essa mansão...
—  E  muito  talentosa!  —  sorri  para  o  retrato  como  se  a  própria  Serena
pudesse  ouvir  meu  elogio.  —  Onde  estão  as  outras  pinturas  dela?  —  olhei  ao
redor.
— Essa e outras três estão nesse quarto. As demais sumiram... ninguém
nunca descobriu o paradeiro...


Concordei.
— Você está me olhando de um jeito diferente agora, Yone... — nossos
olhos se encontraram e ela rapidamente desviou.
— Não, me desculpe, eu não deveria...
— Não, não se desculpe — falei com firmeza. — É que... você pareceu
levemente incomodada com a minha chegada...
— Senhora, eu...
—  Yone,  me  escute,  por  favor  —  pedi.  —  Você  é  a  governanta  dessa
casa. Você estipula as regras, diz como as coisas funcionam e mantém tudo em
perfeita harmonia. Eu sei que sou a intrusa. Sei que estou invadindo o mundo de
vocês e...
— Senhora, me desculpe...
— Não, me escute — pedi de um jeito mais insistente. — Imagino que à
primeira vista você deva confabular que tipo de pessoa eu sou...
Ela respirou fundo, mostrando-se tensa.
—  Eu  sou  uma  moça  do  interior.  Nasci  numa  roça,  muita  família  ao
redor, acho que aprendi a tirar leite de vaca antes de escrever.
Yone riu e eu também.
— Sei cozinhar. Sei lavar roupas. Sei arrumar a casa também. Se precisar
de ajuda, por favor, me dê tarefas, eu quero me sentir útil aqui.
—  Senhora  Mitchell,  essas  tarefas  não  podem  ser  feitas  por  pessoas  da
sua envergadura. Temos gente aqui para servi-la — Yone voltou àquela postura
de governanta.
— Eu sei e vocês estão de parabéns pelo trabalho — sorri com gentileza.
— Ainda assim preciso que saiba que estou às suas ordens. Não vim aqui para
fazer Serena ser esquecida ou reivindicar qualquer coisa... eu sou alguém como
você,  alguém  que  está  lutando  para  sobreviver  e  acha  que  está  fazendo  a  coisa
certa...
Yone  semicerrou  os  olhos.  Percebi  que  ela  ficou  confusa  e  eu  não  a
culparia.
— Não sei o que falaram de mim ou o que vocês pensaram de mim... mas
estou  aqui  para  acrescentar,  não  para  subtrair.  E  por  favor,  Yone,  por  favor,
qualquer  desentendimento,  qualquer  conversinha,  qualquer  diferença  que
tivermos, eu imploro, resolva comigo.
— É claro, senhora — ela ainda usou um tom formal que me incomodou.
Mas eu não podia culpa-la. Era nítido que aquela era a verdadeira Yone, é


claro, com um ar de defesa.
Continuei a olhar distraidamente pelo lugar.
— Ouvimos falar que a senhora era stripper.
Quando nossos olhos se encontraram ela se esticou, ficou toda engessada,
evitou até me olhar.
—  Eu  era  assim  —  tive  de  rir.  —  Meu  trabalho  era  conquistar  os
homens...
— E pelo visto conquistou um bem importante — ela retrucou.
—  Héctor  é  mais  do  que  um  homem  importante,  sabe,  Yone?  Ele  é  um
homem excepcional.
Rimos juntas.
—  Eu  o  vi  nascer,  crescer,  ir  para  faculdade  e  se  tornar  esse  homem
excepcional, sabia? — ela me olhou de uma forma mais meiga. — Vim trabalhar
aqui  quando  tinha  apenas  dezoito.  Eu  cuido  dessa  mansão  há  tanto  tempo  que
parece que ela faz parte de mim...
Não  teve  como  não  me  emocionar,  essa  era  eu,  uma  manteiguinha
derretida quando o negócio era o passado.
—  Eu  vi  pessoas  virem...  irem  embora...  guardo  tantos  segredos,  tantas
lembranças, vi gente nascer... e morrer...
Aquilo me arrepiou, confesso.
— E agora acha que viu uma usurpadora entrar pela porta da frente? —
eu  a  confrontei,  mas  de  um  jeito  meigo.  O  sorriso  permaneceu  grafado  nos
lábios.
— Sim, senhora eu tive essa impressão quando a vi pela primeira vez —
ela confessou.
— Espero poder provar no dia a dia que não sou essa mulher.
— A senhora não precisa provar nada — Yone veio e segurou em minhas
mãos. — Assim, olhando de perto, a gente que já viveu, percebe que a senhora
está longe disso.
Me chame de Bia, por favor. Senhora é bem estranho.
— Bia — ela me chamou.
Não sei de onde ela tirou a coragem para dizer isso, mas eu fiquei toda
arrepiada  e  emocionada.  Yone  segurou  com  força  em  minhas  mãos  e  não  fez
questão de larga-las. Seus olhos marejaram em lágrimas e ela disse, quando num
sussurro e numa súplica:


Cuide bem do senhor Mitchell e do garotinho dele.




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