Protegida pelo Bilionário



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Epílogo
Héctor Mitchell
Oito anos depois.
Allen  Rodrigues  Mitchell,  um  garotinho  de  sete  anos  de  idade,  estava
sentado  em  sua  mesa  de  estudos  na  sala  presidencial  da  Mitchell  &  Smith,
rodeado  de  livros,  canetas,  lápis  de  cor  e  um  tablet.  Ele  parecia  um  tanto
engessado, ereto na cadeira, o olhar bastante frio e impessoal. Com uma caneta
preta  ele  rabiscava  o  que  deveria  ser  o  nome  e  passava  o  papel  para  o  lado
direito.
Segurei  o  sorriso  e  respirei  fundo.  O  examinava  da  minha  mesa  de
trabalho e desviava o olhar antes que ele percebesse que estava sendo observado.
Era divertido e estranho ver o meu filho me imitar. Ele era perfeccionista
em  cada  trejeito.  Sabia  manter  uma  expressão  neutra,  sem  emoções;  quando
pegava o tablet e  conferia  a  tela  ele  mordiscava  o  lábio  inferior  –  coisa  que  eu
fazia  quando  a  foto  de  nossa  família  aparecia  em  meu  celular  –,  e  mantinha
sempre uma postura de quem tem o tempo muito valioso.
— O que você está fazendo, filho? — quebrei o silêncio.
— Brincando — ele foi monossilábico, entortou o rosto para a esquerda e
fez um sinal de desgosto, amassou um papel em branco e jogou no lixo.
Novamente segurei a risada. Estiquei o pescoço para avalia-lo.
— Brincando de quê?
Allen voltou seus olhos azuis brilhantes para mim, suspirou bem devagar
e da maturidade de seus sete anos disse:
— De CEO.
Franzi a testa e imediatamente empurrei a cadeira para fora da mesa, para
observá-lo mais de perto.
— É? E você é CEO de quê?
— De uma empresa — ele disse como se aquilo fosse óbvio.
Era um atrevidinho, até mesmo com o pai.
— E o que a sua empresa faz? — insisti.
— Dinheiro — Allen voltou a rabiscar coisas abstratas no papel, ou o que
facilmente alguém chamaria de arte moderna, e com um quase sorriso de canto
passou o papel para a direita. — Acabei de fechar um contrato bilionário.


Ao  terminar  aquilo,  o  meu  filho  me  encarou,  piscou  os  olhos  grandes  e
bateu as mãos na mesa:
— O senhor não vai trabalhar não?
— Não. Vou brincar com você.
— O senhor brinca de CEO todo dia — ele balançou os ombros.
— Então poderíamos arranjar algo divertido para brincar — levantei-me
da cadeira, tirei o terno e o repousei na mesa.
Allen  empurrou  a  cadeira  para  trás  e  procurou  uma  rota  de  fuga.  Não
tinha como fugir. Ele tentou escapar por debaixo da mesa, mas eu o peguei pelos
braços e o coloquei sentado em meus ombros.
— Papai, eu não sou mais criança, eu sou o CEO — ele reclamou.
—  Tá  bom,  mas  vamos  brincar  de  avião  —  saí  correndo  com  ele  pelo
escritório, Allen demorou, mas cedeu. Abriu os braços, começou a imitar o som
de uma turbina com a boca e se remexer em cima de mim.
Turbulência! — ele gritou.
Tive  de  me  agachar,  segurei  com  firmeza  nas  pernas  dele  e  comecei  a
balançá-lo.
—  Comando  para  a  torre,  comando  para  a  torre,  temos  um  problema
nesse avião. Ele é velho e está caindo aos pedaços — Allen riu um bocado.
— Ei! — reclamei.
Mas esse piloto é muito competente e vai conseguir fazer um pouso.
Câmbio.  Senhores  passageiros,  apertem  os  cintos,  a  descida  vai  ser  com
emoção!
Continuamos a brincar até Beatriz chegar.
Ao  abrir  a  porta  ela  se  deparou  com  o  filho  já  sem  terno  e  calça,  só  de
sunga,  e  todo  pintado  de  índio.  Allen  passou  por  ela  e  correu  para  fora  do
escritório.
—  Eu  não  vou  perguntar  o  que  aconteceu  —  ela  fez  uma  careta  e  veio
para os meus braços.
— Oi amor. Só estava lembrando ao Allen que só se é criança uma vez. E
que ele precisa parar de imitar o pai engessado e começar a ser mais espontâneo
e divertido, tipo a mãe dele.
Bia entrelaçou seus braços ao redor do meu pescoço e descansou o rosto
em  meu  peito.  Eu  a  apertei  pela  cintura  e  encostei  o  queixo  no  topo  de  sua
cabeça.
— Muito trabalho na clínica?


—  Sim,  muito  trabalho.  Preciso  de  férias.  Devíamos  tirar  férias  em
família de novo, as últimas foram três meses atrás.
—  Marca  um  lugar  no  mapa  e  me  avisa  —  a  mantive  presa  em  meus
braços por mais algum tempo até ter coragem de soltá-la. — Anthony está vindo
para cá também — avisei. — Recebeu a carta de Harvard.
— Ele foi aprovado? — ela se animou de repente.
— Não teve coragem de abrir a carta — escorei-me na mesa e me sentei.
— Disse que era melhor você abrir.
Bia franziu o cenho e rodeou a mesa, colocou a cadeira presidencial em
seu devido lugar e se sentou nela.
—  Anthony  tem  um  currículo  impecável.  E  tem  me  ajudado  na  clínica
por  dois  anos,  além  de  ter  estagiado  na  empresa  do  Ethan  Evans.  Não  entendo
porque ele seria recusado.
— Não será — me levantei e coloquei as mãos nos bolsos do paletó. —
Uma mãe formada em psicologia numa das melhores universidades do país, um
pai engenheiro, sem falar no sobrenome...
— Entendi, você acha que ele se sente inseguro — Bia analisou. — Mas
acho  fofo  que  ele  queira  dividir  esse  momento  conosco.  Eu  também  dividi
quando apliquei e fui aprovada em psicologia.
Concordei.
— E como você se sente sobre ele ir para tão longe? — ela perguntou.
— Você é minha mulher ou minha terapeuta? — reclamei.
Bia colocou os pés com os saltos vermelhos em cima da minha mesa.
— Eu sou muitas coisas, senhor Mitchell.
— E boa em todas elas — consertei a gravata e caminhei devagar em sua
direção.
Eu sempre achei impossível amar alguém por muito tempo. Uma semana
era o suficiente para me enjoar das pessoas com quem eu saía. Mas com Bia algo
estranho ocorria toda vez que nos olhávamos.
Era como o risco de uma fagulha no meio da escuridão.
E lentamente os olhares se tornavam sorrisos.
E os sorrisos se tornavam respirações ofegantes.
E  essa  falta  de  oxigenação  correta  no  cérebro  nos  empurrava  para
algumas loucuras.
Ele chegou! Ele chegou! — Allen invadiu a sala, nu, e correu para sua


mesa de estudos, onde se sentou e fingiu a mesma cara blasé do início.
Anthony entrou pela porta segundos depois. Estava vestido formalmente,
deixou  a  mochila  em  cima  da  poltrona  em  frente  à  mesa,  tirou  os  fones  de
ouvido e veio em minha direção, beijou o meu rosto e me abraçou.
— E o resultado? — perguntei.
— Vamos descobrir juntos, pai — ele se afastou e foi até Bia. — Aqui,
mãe,  em  suas  mãos  —  ele  entregou  o  envelope,  esticou  o  rosto  e  encheu  os
peitos de ar. — Estou pronto.
Bia rasgou o envelope sem cerimônias. Antes de tirar o conteúdo dentro
dele, Anthony se espantou ao encarar o irmão.
— O que você está fazendo?
— Brincando.
— E você está brincando de quê?
— De CEO.
— Allen, você está pelado.
— Eu sou o CEO, eu faço as regras — Allen protestou e voltou a rabiscar
os papeis diante de si.
Anthony  balançou  a  cabeça  negativamente.  Ao  voltar  sua  atenção  para
Bia ele fez sinal para que ela parasse.
— Eu... eu não... eu não sei se...
— Filho — andei em sua direção.
— Eu não me sinto... eu não... — ele começou a gaguejar.
Bia se levantou, eu fui em sua direção e segurei em suas mãos. Anthony
me encarou, os olhos azuis bem assustados, o rosto bastante vermelho.
Estou tendo um ataque de pânico — ele murmurou.
— Tudo bem. Sabemos lidar com isso, certo? — coloquei a mão em sua
cintura e o encaminhei para fora da sala. — Bia, fique de olho no CEO peladão.
— Vou ficar de olho sim.
Anthony e eu fomos para o hall que antecedia a sala presidencial. Fiz um
sinal para que o meu secretário saísse e nos deixasse a sós.
O direcionei para um dos sofás do lugar e me sentei na frente dele.
— Me diga o que está sentindo — segurei em seus braços.
— Eu não... eu... — Anthony começou a se atrapalhar com as palavras.
— E se... eu não... for suficiente?
Como?


— E se eu não for suficiente para Harvard? Eu sou um adolescente com
ansiedade e síndrome do pânico, estou longe de ser um gênio como tio Ethan ou
um  homem  firme  e  decidido  como  você...  E,  você  sabe  que  eu  quero  ir  para  a
escola de robótica, eu não quero fazer o mesmo curso que você, eu só...
Shhh — apertei seus braços e o trouxe com cuidado até mim.
Anthony  tremia.  Uma  vida  inteira  dessa  forma  não  havia  me  preparado
para  cada  vez  que  ele  tinha  esses  surtos,  cada  vez  era  como  enfrentar  pela
primeira vez todo aquele furacão.
—  Primeiro  que  você  é  mais  do  que  suficiente  para  Harvard.  Você  é
suficiente para Harvard, Oxford, Stanford, Cambridge... você é apaixonado pelo
que quer fazer, você se entrega de corpo e alma a tudo o que se propõe, tem um
bom  coração  e  tem  ajudado  a  sua  mãe  na  clínica  e  estagiou  para  o  Ethan.  Eles
levam em conta o fato de você ser pró-ativo e envolvido em questões sociais.
Eu  jamais  diria  para  o  meu  filho  que  pelo  histórico  familiar  e  pelo
sobrenome ele seria aceito em qualquer universidade do mundo. Isso seria dizer
que ele era quem era apenas pela família e isso era, em grande parte, mentira.
Anthony se preparou, construiu uma trajetória impecável para poder ser
aprovado de primeira. E ele me pediu que eu não usasse minha influência para
facilitar as coisas eu dei a minha palavra.
— Eu confio em você. Você é mais do que suficiente — repeti.
— E se eu for aceito? Eu não quero te decepcionar, eu sei que deveria ser
o próximo presidente da Mitchell & Smith, mas eu não me vejo feliz aqui, pai.
Respirei  fundo.  Do  jeito  que  os  pais  fazem  quando  veem  seus  filhos
crescendo e precisam dizer algumas verdades para eles.
— Anthony, olhe para mim — eu pedi. — Você não vai me decepcionar
por não seguir os meus passos. Siga o seu coração. Busque, acima de tudo, a sua
realização  pessoal,  não  importa  o  que  os  outros  achem.  Busque  o  seu  lugar  no
mundo, e se não houver esse lugar, construa. Você nunca vai estar sozinho, você
tem a mim, a Bia, o seu irmão, os seus parentes, os seus tios...
Ele concordou.
— Não se preocupe com o que acontece depois de descobrir o que tem na
carta. Eu estarei aqui e nós vamos descobrir o que fazer juntos. Deixe o futuro
acontecer no tempo dele. No presente você tem a mim como apoio e isso basta.
— Obrigado pai — Anthony fechou os olhos e segurou em minhas mãos.
— Eu também fiquei bem ansioso na minha época — revelei. — É chato
ser avaliado pelos outros para poder seguir os seus sonhos.


— Sim.
—  Mas  os  seus  sonhos  não  dependem  de  Harvard.  Você  vai  encontrar
uma forma de construí-los sozinhos, por que é isso o que fazemos desde o início
da humanidade, filho. Nós encontramos um caminho.
— Ok.
— Eu vou te visitar toda semana — já avisei.
— Pai... — ele me repreendeu.
— Você tem um bom coração, filho. Mesmo que te machuquem, mesmo
que  tentem  se  aproveitar  do  seu  bom  coração,  nunca  permita  que  seu  coração
endureça.  Seja  corajoso  para  enfrentar  os  obstáculos  e  gentil  ao  lidar  com  as
pessoas. Eu confio em você e confio na educação que te dei.
—  Você  pode  me  visitar  quinzenalmente  —  ele  riu,  limpou  as  lágrimas
dos olhos.
—  Toda  semana  e  sem  negociações  —  me  levantei.  —  Quando  você
estiver pronto, eu estarei pronto.
Anthony ficou sentado por mais um minuto. De olhos fechados ele ainda
parecia tenso e estava tentando se acalmar.
Era impossível não ver o tempo passando diante dos meus olhos.
O pequeno e frágil bebê dentro de uma redoma de vidro que todos diziam
que  não  ia  sobreviver;  a  criança  introspectiva  e  tímida  que  foi  se  abrindo  aos
poucos  para  o  mundo;  o  menino  que  foi  machucado  por  alguém  que  deveria
protegê-lo e encontrou numa completa desconhecida forças para seguir e acabou
chamando-a  de  mãe  e  o  adolescente  que,  como  todo  adolescente,  era  cheio  de
paranoias,  medos  e  inseguranças,  mas  também  de  uma  coragem,  uma  ousadia,
uma firmeza e vontade do novo que os adultos jamais deveriam perder.
— Eu estou pronto — ele avisou e se levantou.
Ajeitei o terno dele e indiquei que devesse ir na frente.
Fechei a porta atrás de nós quando entrei e esperei alguma expressão de
Bia que revelasse o conteúdo da carta.
Ela nem tinha mexido.
— Prontos? — ela perguntou.
— Vamos estar prontos quando acontecer — falei.
Bia puxou o conteúdo de dentro do envelope e entortou a boca ao ler o
enunciado da carta e a decisão da aplicação.
Olhou para Anthony e depois para mim.


— Espero que você tenha dito a ele que iremos visita-lo todos os finais
de semana.
— Eu disse — garanti.
Bia concordou.
— Você foi aprovado, meu amor.
Anthony  ficou  completamente  sem  reação.  Ficou  ali,  parado,  os  olhos
bem  abertos.  Esticou  a  mão  para  pegar  a  carta  e  conferiu  a  veracidade  da
informação.
Eu passei — ele disse, assustado.
O  menino  que  eu  ouvi  a  vida  toda  que  não  ia  sobreviver,  iria  para
Harvard.
Recebi o seu abraço com muito carinho e afaguei seus cabelos. Bia veio
também e o abraçou ternamente.
Foi  ela  quem  mudou  tudo.  Ela  nos  encontrou  em  um  momento  onde
estávamos machucados, sem esperanças e separados.
E esse era um de todos os momentos em que eu não podia imaginar que
existiria  sem  Bia,  alguém  por  quem  me  apaixonei  devagar,  mas  amei  rápida  e
perdidamente.
— Obrigado, família — Anthony agradeceu, apertado por nós dois.
O pelado também veio para o abraço e apertou a perna do irmão.
— Eu vou para Harvard também, não é, mamãe? — Allen perguntou.
— Vai sim filho — ela disse.
— Só daqui onze anos. E nem pense em crescer tão depressa! — eu pedi.




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