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Beatriz Rodrigues

Hillary e Clair entraram naquele cômodo e me levantaram.
Eu  só  conseguia  balançar  a  cabeça  negativamente,  tentando  entender  o
que diabos estava acontecendo.
Clair havia voltado dos mortos? Como era possível?
Fui  levada  para  a  biblioteca,  o  mesmo  lugar  onde  ouvi  Héctor  com  os
amigos  dizendo  que  precisavam  dar  um  fim  nas  duas  strippers.  E  que  estúpida
fui ao pensar que ele se referia a mim!
Ele jurou me proteger. Eu confiava nele.
Foi um erro que me custaria caro.


— Eu pensei que fossemos amigas — encontrei forças para dizer isso.
Hillary olhou-me, não havia um pingo de sentimento em seu olhar. Seus
olhos  estavam  frios,  rígidos,  parecia  me  olhar  como  se  eu  fosse  um  animal  ou
pior do que isso.
—  Ninguém  tem  amigos  nesse  mundo  —  Hillary  murmurou.  —  Você
não entende, não é?
— O que eu não entendo?
Minha cabeça balançava sem parar.
O  que  diabos  essas  pessoas  tinham?  Por  que  de  repente  parecia  que  eu
não conhecia ninguém?
Clair... — me arrepiei ao vê-la.
Eu a vi. Ensanguentada, no chão, sem vida. Como era possível?
— A história se repete mais uma vez... — Clair sorriu. — A novata que
chama a atenção dos homens poderosos e acha que pode tê-los...
—  Nós  somos  petiscos.  Distrações.  Não  podemos  amar  esses  homens.
Eles  não  estão  a  nossa  altura.  Eles  pertencem  a  um  mundo  diferente  do  nosso,
Bia — Hillary completou. — Esses homens não nasceram para amar. Nasceram
para  governar  o  mundo  nas  sombras,  e  nós  somos  seus  brinquedos,  que  eles
usam para poder neutralizar a dor, aplacar o demônio interior e fazê-los esquecer
que são deuses em corpos humanos.
— Todo mundo perdeu o juízo — sussurrei para mim mesma.
Me arrepiei toda ao ouvir o scarpin batendo contra o chão.
A  mãe  de  Héctor  entrou  no  cômodo  e  pareceu  muito  feliz  em  me  ver,
pela primeira vez.
Também, amarrada e jogada no chão, completamente suja, desidratada e
contorcida, seria estranho que ela não contemplasse com um longo sorriso.
Por favor, senhora Mitchell...
Hillary e Clair se afastaram quando a mãe de Héctor ficou entre as duas,
a poucos passos de mim.
— Não implore. Não precisa ter medo. Eu não irei matá-la — ela disse
num tom piedoso. — Seria tolice. Eu perderia todo o meu dinheiro dessa forma.
Eu irei garantir que você viva para desejar nunca ter existido, pisado nessa terra
ou invadido a minha família.
— Eu não entendo... — eu ficava cada vez mais confusa.
A senhora Mitchell sorriu de um jeito maternal.


Meus dentes bateram um contra o outro quando a vi segurar a pistola e a
levantar.
Apertei os olhos com força e respirei pela última vez. Era chegado o meu
momento final e eu precisava aceitar que tudo tinha acabado.
— Diga ao Héctor que...
O tiro interrompeu minha voz.
Fez-se um silêncio e depois um segundo tiro.
O corpo cedeu ao chão. Não apenas um, dois.
Hillary e Clair estavam mortas. Dessa vez era real.
O  cheiro  da  morte  era  inconfundível,  preferi  manter-me  de  olhos
fechados e esperar a minha hora, eu não queria ver mais nada.
—  Eu  tinha  dezessete  anos  quando  me  casei  —  a  senhora  Mitchell
respirou  fundo.  —  Meu  pai,  um  homem  muito  poderoso,  entregou-me  a  um
destino glorioso: casar-me, contra a minha vontade, com o filho de uma família
ainda mais poderosa que a minha. E juntos produziríamos filhos fortes, os donos
do novo mundo, herdeiros de muito mais que toda a Nova York... herdeiros do
poder americano.
Ai, Deus, agora eu tinha que escutar o passado da mulher!
—  Essa  é  a  tradição.  Não  há  amor,  não  há  consentimentos,  só  há  a
obrigação de garantir que o império continue. De três filhos, eu só produzi uma
que  realmente  entende  o  significado  de  família,  pureza  e  império.  Os  outros
dois... uma completa decepção...
Ao abrir os olhos vi a mulher coçando a testa com a arma. Jesus do céu!
— Héctor foi apresentado a tantas mulheres... — ela suspirou fundo. —
E só me decepcionou... — quando nossos olhos se encontraram eu pude ver que
estavam  marejados,  vermelhos,  bem  irritados.  —  Contratou  uma  barriga  de
aluguel como pretexto de fugir de seus compromissos... e teve um filho fora da
tradição. Fora do casamento. Fora do que as nossas regras exigem.
Ela fez uma pausa onde procurou uma poltrona e se sentou.
— Serena deveria ter abortado... — ela murmurou mais para si mesma do
que para mim. — Gregory foi ver a puta particular dele naquela noite, eu sabia
que não podia confiar nela, então paguei outra mulher para que fizesse com que
aquele desgraçado tivesse uma overdose... então eu a matei...
Só nesse momento eu percebi que estava de cara no chão, tremendo, as
lágrimas não eram opção.
Eu não sabia o que era pior: ver que minhas antigas amigas haviam me


traído, ver que estavam mortas, ou assistir aquela mulher contando sua trajetória
de sociopata como se contasse uma história saída dos contos de fadas.
— Héctor sempre preferiu o pai, é igual a ele. Não pensou duas vezes em
ir  salvá-lo,  então  tive  a  chance  de  matar  Serena.  Mas  aquele  monstro  —  ela
apertou  a  mão  na  arma  e  franziu  a  testa.  —  Aquele  garoto  não  morre...  uma
aberração... como pode sobreviver?! Ai, Deus...
— Ele não tem culpa — falei corajosamente.
A mulher me olhou como se tivesse lembrado que eu estava ali.
Estava  tão  presa  em  seu  monólogo  que  havia  feito  daquilo  um  show
privado.
—  Ele  não  é  um  Mitchell  —  seus  olhos  pareciam  secos  e  sem  vida.  —
Assim como você não é.
Fiquei calada. Que espécie de mulher ela era?
— Gregory também teve filhos fora do casamento — ela disse com um
sorriso  estampado  no  rosto.  —  Percebi  que  era  forte  quando  matei  aquelas
mulheres e suas crianças — ela parecia orgulhosa de si. — Aquilo me preparou
para enfrentar pai e filho e suas fraquezas. Dominados por prostitutas que com o
tempo destroem essa família... acabam com tudo... parece que a única que pensa
na tradição e nos bons costumes sou eu.
Me assustei ao ouvir o som de um tiro.
Não havia vindo da arma daquela mulher.
Foi seguido de outros disparados.
Fiquei perturbada, no chão, apertei os olhos como se aquilo pudesse me
proteger ou me poupar de alguma cena horripilante.
Nada poderia ser tão horripilante quanto ver o sangue de Hillary e Clair
se espalhando pelo chão.
—  Mulheres  como  eu  precisam  ser  fortes  para  consertar  os  rumos  da
família  —  ela  se  levantou,  imponente.  —  Se  ao  menos  eles  se  relacionassem
com mulheres de bem... — ela balançou a cabeça num sinal negativo. — Não...
eles  preferem  as  sujas...  as  imigrantes  de  sangue  impuro...  mulheres  sem
ascendência, sem bons modos, sem valores...
E ela com certeza tinha valores.
—  Mas  estamos  consertando  essa  nação,  aos  poucos  —  ela  sorriu,
balançou  a  cabeça  num  sinal  positivo  nesse  instante,  para  variar.  —  Nada  que
um  muro  nas  fronteiras  não  resolva  e  mais  pessoas  de  bem  armadas  possam
cuidar  de  tudo.  Limpar  a  escória  do  nosso  mundo.  Colocá-las  em  seu  devido


lugar... — a mãe de Héctor andou em minha direção, e cada passo me fez tremer.
Não me olhe assim, eu não sou um monstro... É só questão de opinião — ela
sorriu.


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