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“garotinho doente” — ela resmungou.
Não entendi bem o que aquilo queria dizer e ignorei completamente.
— O que a traz aqui? Justamente aqui — cruzei os braços.
A  mulher  olhou  para  o  meu  pai  em  cima  da  cama.  Seu  andar  era  como


uma  dança  silenciosa,  ela  tinha  gingado,  tinha  um  quê  de  encanto  quando  se
movimentava. Onze anos após conhecê-la... e ela continuava intacta.
— Gregory foi o meu síndico — ela sussurrou. — Era amigo pessoal do
meu pai e foi ele o meu professor — ela voltou a me olhar. — Gregory e Terence
reconheceram  o  meu  valor  quando  fui  indicada  para  a  Grande  Ordem  —  ela
suspirou.
—  Você  consegue  ver  na  mão  dele  se  a  “linha  da  vida  dele  é  longa  e
nítida” e se ele vai sair dessa? — provoquei.
Ela arqueou a sobrancelha, puxou a mão dele com toda a naturalidade do
mundo e demorou-se ali. Entortou a boca uma ou duas vezes e depois se voltou a
Anthony.
— Anthony, vá brincar no corredor — ela pediu.
Meu filho me encarou e eu concordei, então ele saiu.
—  Eu  tenho  olhos  por  toda  a  Nova  York  —  Lilith  localizou  a  poltrona
que ficava em um canto do quarto e não demorou até se sentar nela, cruzou as
pernas  e  continuou  a  me  encarar.  —  Posso  não  ter  estado  aqui  nos  últimos
meses, mas todos os meus olhos estavam e eu vi cada coisa que aconteceu.
— Quem precisa de uma bola de cristal ou cartas de tarot quando se tem
prostitutas  a  seu  serviço,  não  é?  —  sentei-me  na  poltrona  mais  modesta  que
ficava ao lado da cama do meu pai.
—  Prostitutas...  acompanhantes  de  luxo...  strippers...  mulheres  que
queiram  trabalhar  na  perigosa  noite  ou  queiram  ser  meus  olhos  no  mundo  dos
homens poderosos de Nova York. Eu faço com que eles se apaixonem por elas, e
elas me devolvem com informações privilegiadas — ela disse.
— Só em Nova York? — ri e umedeci os lábios.
—  Sou  modesta  e  não  irei  me  gabar  —  ela  também  riu  e  umedeceu  os
lábios.
— Você sabe o paradeiro de Bia? Me dê uma luz — pedi.
—  Eu  sei  —  Lilith  disse  como  se  aquela  informação  fosse  apenas  mais
uma  em  meio  a  tantas  outras,  aliás,  aquele  pareceu  um  assunto  bem
desinteressante para ela.
Sabe? — arregalei os olhos.
— Sei onde está. Quem a raptou. O que quer fazer com ela...
Respirei  fundo.  Eu  já  era  tenso  por  natureza,  numa  situação  dessas
então...
—  A  ignorância  é  uma  bênção,  Héctor.  Não  saber  traz  paz.  As  pessoas


não  são  ignorantes  da  realidade  e  da  verdade  porque  são  ruins  ou  de  mal
coração. Custa caro ver as coisas como são. Às vezes é mais fácil manter-se nos
aspectos  mais  primais  da  nossa  espécie  como  elencar  um  herói  que  nos  salve,
acreditar piamente em mentiras e permitir que o ódio e o medo seja alimentado
dentro de nós e nos sintamos capazes de mudar o mundo com mais ódio e medo
— Lilith disse tudo aquilo com tranquilidade. Eu sempre me perguntei como ela
podia.
— Já é tarde demais, Lilith. Eu já sei a verdade — suspirei.
—  Sim,  vejo  em  seus  olhos  —  ela  sorriu.  —  Você  também  não  fez  a
barba hoje cedo — ela notou.
Passei a mão no pescoço e senti, de fato, que meus cuidados não estavam
mais em dia como antes.
Também, como eu poderia ter cabeça para isso?
— Saber a verdade não basta. É preciso enfrentá-la — ela murmurou. —
E  enfrentar  a  verdade  pode  nos  fazer  questionar  nosso  estilo  do  vida...  nosso
passado...  nossa  existência...  Ninguém  quer  isso.  Só  queremos  achar  um
culpado,  elencar  um  bom  solucionador  e  lavar  as  nossas  mãos.  Por  isso  as
pessoas continuam na caverna, não mais porque estão acorrentadas, mas por que
isso lhes traz paz...
— Uma paz sangrenta, violenta e hostil — completei.
—  Ignorar  a  verdade  faz  bem  a  curto  prazo.  A  longo,  ela  é  capaz  de
destruir  uma  nação.  Um  povo.  O  lado  humano  que  habita  dentro  de  nós  e  nos
resta, se nos resta — Lilith começou a mexer nos braceletes de ouro.
— Onde Bia está? — perguntei.
— Estava em um hotel bem chulo até ontem à noite — ela respondeu. —
Foi  levada  para  um  local,  digamos,  “mais  confiável”.  Diga-me,  Héctor,  os
irmãos do Grande Templo sabem o que aconteceu a sua mulher?
— Não. Seria um caos.
Lilith concordou e sorriu, como se aquilo quisesse dizer alguma coisa.
—  Encontrá-la  não  será  um  problema  —  ela  uniu  as  mãos  em  cima  do
colo. — O depois disso que pode ser desafiador.
— Eu estou pronto. Eu sei o que preciso fazer.
—  Admiro  isso  em  você.  Você  foi  submetido  a  provas  para  entrar  no
Grande Templo e passou com honras.
— Eu nunca entendi isso — balancei a cabeça. — Em todas as provas eu
cheguei em último... — ri da minha própria desgraça.


— Geoffrey chegou em primeiro em todas — ela me fez lembrar. — Mas
ele  não  sabia  o  que  estava  fazendo.  Derrubava  os  concorrentes,  pregava  peças,
impedia que eles avançassem... — quando ela disse aquilo foi como voltar onze
anos  atrás.  Eu  podia  ver  e  sentir  tudo  aquilo.  —  Você  ficou  para  trás  porque
tentou reerguer os participantes, ajudou-os a finalizar as provas e deu tudo de si
para que ninguém ficasse para trás.
— E isso é saber o que se está fazendo? — perguntei.
—  Nunca  dissemos  que  as  provas  eram  sobre  quem  chega  primeiro  —
ela respondeu com simplicidade. — As provas sempre são sobre quem você é.
De repente muitas coisas fizeram sentido em minha cabeça.
— O que você pensou? Pensou que entrou no templo só porque o Smith
te indicou? E que ele moveu mundos e fundos para que você entrasse? — ela riu.
— Você é um homem poderoso e chegou onde chegou porque é capaz, tem bom
coração e bom espírito de liderança. Você sabia desde cedo que o jogo do poder
não  é  sobre  ser  maior  ou  mais  poderoso  que  outro,  mas  ser  maior  e  mais
poderoso do que você mesmo.
Lilith se levantou e eu também.
— Meu pai sempre deixou bem claro que eu não estava pronto e que eu
não era capaz de dirigir a Mitchell & Smith.
Dizer aquilo doeu.
Acho que por me abrir e sentir algo tão profundo por Bia e estar sensível
por não tê-la, tudo fazia meus olhos marejarem.
Que merda! — praguejei.
— O seu pai só queria proteger o bebê dele — Lilith me encarou como se
aquilo fosse muito óbvio.
Eu fiquei paralisado.
—  Gregory  sabia  o  preço  do  poder  e  o  que  ele  faz  com  as  pessoas.  Ele
queria, assim como você sempre quis, proteger o bebê dele do mundo perigoso,
sujo e amedrontador.
— Mas no fim ele não teve escolhas — resmunguei e funguei. — Aqui
estou eu. Como CEO, chefe de toda a família agora, no lugar dele.
—  E  ali  está  seu  filho  —  ela  olhou  em  direção  a  porta.  —  Longe  da
mansão que o protegia, tão perigosa quanto o mundo violento e hostil que é fora
dela. Uma hora os pais entendem que não podem proteger seus bebês do mundo
—  Lilith  andou  até  mim  e  segurou  em  minhas  mãos.  —  Uma  hora  os  pais
aprendem que a melhor forma é preparar, fortalecer e ensinar seus filhos a como


não  repetirem  os  mesmos  erros  que  eles.  O  mundo  pode  continuar  violento  e
hostil,  na  verdade  ele  sempre  foi.  Mas  nós,  Héctor,  passamos  a  eles  nossa
experiência,  nosso  suor,  nosso  sangue,  nossas  noites  mal  dormidas,  nossas


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