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O que haviam feito com o meu filho?
— Sabe porque o seu pai se afastou daqui? — a voz feminina perguntou.
Muitos meses atrás. Numa época em que Bia era apenas uma ilustre stripper que
eu visitava no La Chica em meus horários livres.
Anthony estava pálido, um tanto desanimado e sem muitas forças.
—  Ele  fica  se  lembrando  dia  e  noite  que  você  matou  sua  mãe  quando
nasceu. Você é a causa pela qual sua mãe morreu e o seu pai não consegue viver
bem desde então — a voz feminina foi ficando cada vez mais próxima.
E conforme ela se aproximava, Anthony se encolhia.
—  O  seu  pai  não  te  abandonou  por  pena.  Você  sequer  foi  gerado  por
amor.  Foi  apenas  um  capricho  adolescente  dele,  você  é  literalmente  o  filho  de
uma  puta,  uma  vida  que  foi  paga  para  te  trazer  ao  mundo.  Sem  amor,  sem
carinho, sem querer. Apenas dinheiro.
O  rosto  do  meu  filho  se  contorceu  e  ele  começou  a  chorar.  Eu  não  me
contive, paralisado diante daquela situação, não me restou nada além de chorar
também.
—  Mas  um  dia  vai  vir  uma  mulher  que  o  fará  feliz.  E  ele  poderá  ter
filhos de verdade, com amor. Não uma criança doente e inválida como você que
sequer consegue andar direito! Você nunca foi amado ou desejado. Até mesmo
agora  que  ele  se  apercebeu  do  quão  grotesco  você  consegue  ser,  seu  fedelho,
Héctor já não consegue mais vir olhar no seu rosto, por que ele se pergunta por
que não te abandonou em um orfanato.
Uni  as  mãos  diante  do  rosto,  como  se  fizesse  uma  prece  e  continuei  a
ouvir tudo aquilo.
Seguido  de  abusos  físicos,  machucados  e  depois  muitos  remédios  que
faziam Anthony dormir por horas.
Nos vídeos e áudios seguintes não era diferente.


E aquela cena se repetiu até que meu filho estivesse completamente sem
cor, profundas olheiras, praticamente surtado.
Sozinho Anthony batia a cabeça na parede e tentava se machucar.
Gritava, chorava, se debatia na cama.
Lembro  que  foi  me  informado  que  sua  janela  fora  soldada  porque  ele
tentara pular. E sua porta ficava trancada pelo lado de fora e ele não podia sair de
jeito algum.
Assisti  tantos  vídeos,  ouvi  tantos  áudios,  fiquei  preso  naquele  inferno
grotesco até que percebi que eram sete horas da manhã e não mais duas e meia.
—  Você  não  vai  me  machucar!  —  agora  eu  entendia  a  expressão  de
Anthony.
Ele  estava  com  medo,  diante  de  uma  completa  desconhecida  que  fora
pintada como um demônio.
Ao que era quase arrebatador ouvir de Bia:
Eu não cheguei aqui para te machucar.
Fechei o notebook, com vontade de jogá-lo pela janela e destruir metade
da junto.
Eu estava com sono, com raiva, meus olhos ardiam, meu coração fervia,
eu realmente estava fora de mim.
Os sentimentos foram se tornando intensos que senti falta de ar.
Eu  havia  perdido  Bia  e  agora  via  ao  vivo  e  a  cores  tudo  aquilo  com  o
meu filho?
E eu tive sorte, pois aquilo não era nem mesmo um décimo do que havia
naquele HD.
— Papai — a voz de Anthony me chamou na porta.
— Sim, filho — respirei fundo, esfreguei as duas mãos no rosto e tentei
manter a pose de que nada estava acontecendo.
— Eu estou com fome — ele gemeu.
Aquilo foi um gatilho horrível.
Estiquei  o  pescoço  e  tentei  guardar  as  lágrimas,  mas  elas  começaram  a
descer.  Ouvir  aquilo  foi  como  rever  as  cenas  onde  meu  filho  ficava  horas  sem
comer  e  depois  que  comia  dormia,  ou  quando  era  maltratado  e  recebia  abusos
verbais ou físicos.
Eu não era mais forte. Não tinha mais como ser.
Abaixei  o  rosto,  chorando  entre  as  palmas  das  mãos,  culpando-me  por


tantas coisas que o único veredito possível era a morte.
Tomei um baita susto quando senti a mão de Anthony em meu braço.
Esfreguei  o  dorso  das  mãos  nos  olhos  e  deixei  o  rosto  todo  úmido,  os
olhos certamente vermelhos pelo cansaço e pela ira.
—  Eu  também  choro  às  vezes  —  Anthony  sorriu  gentilmente,  os  olhos
brilhando.
Aquele era o meu filho. Em seu melhor estado.
O rosto corado, bem mais gordinho que nas imagens onde estava magro e
debilitado. Os olhos grandes, brilhantes, as bochechas bem cheinhas.
—  Vem  cá  —  o  peguei  em  meus  braços.  Tentei  encará-lo  com  menos
severidade,  que  era  algo  natural  do  meu  olhar,  e  o  máximo  possível  de  calor
humano que ainda me restava depois de terem me tirado tudo e mais um pouco.
Respirei fundo e não foi suficiente.
Eu nunca vou te abandonar — aquilo foi o suficiente para não uma ou
duas, mas várias lágrimas escorrerem pelo meu rosto. — Você não é culpado de
absolutamente  nada.  Você  foi  esperado,  desejado,  amado,  você  é,  foi  e  sempre
será  todo  o  meu  mundo.  A  sua  mãe  seria  a  mulher  mais  feliz  do  mundo  se
pudesse te ter nos braços, mas infelizmente, por complicações que não tem a ver
com você, meu filho, ela não sobreviveu.
Anthony  era  novo,  mas  ficou  nítido  que  ele  entendeu  o  que  estava
acontecendo.
De alguma forma ele percebeu que eu havia descoberto algo.
—  Eu  te  amo.  Eu  sempre  vou  te  amar.  Independente  do  que  digam,  do
que pensem, do que te queiram te fazer acreditar. Você é parte de mim. Eu passei
noites  em  claro  cuidando  de  você,  dia  após  dia  eu  te  vi  crescer  para  além  do
tamanho da palma da minha mão.
Eu sei, papai — Anthony disse e me abraçou.
A  única  coisa  que  se  comparava  àquele  abraço  e  aquelas  palavras  tão
inocentes de uma criança era o sorriso de Bia.
Quando  ela  olhava  para  o  teto.  Ria,  do  nada,  e  me  deixava  nervoso
porque eu simplesmente não conseguia entender a inocência.
A inocência de ser feliz, a inocência de acreditar, a inocência de deixar o
passado para trás e se reinventar.
—  Eu  sinto  muito  que  coisas  terríveis  tenham  acontecido  a  você  na
minha ausência. Mas elas nunca mais acontecerão, filho. Nunca mais.
—  Tudo  bem  —  Anthony  bocejou  enquanto  me  apertava  com  seus


bracinhos. — Mas eu ainda estou com fome.
—  É  claro,  é  claro  —  me  levantei  com  ele  nos  braços  como  se  ainda
fosse  um  bebezinho  e  fomos  para  a  cozinha.  —  Tem  muita  coisa  na  geladeira
que podemos esquentar e comer.
— Eu sei fazer panquecas — Anthony disse orgulhoso.
— Sabe? — perguntei admirado.
— A Bia me ensinou.
— Imagino que sim — concordei e o sentei em cima da mesa.
Abri a geladeira e tirei de lá tudo o que poderíamos fazer para o café da
manhã.
Era  engraçado  ter  de  me  virar  sozinho  sem  dezenas  de  empregados  e
pessoas que faziam tudo por mim.
Naquele  momento  era  como  voltar  para  os  velhos  tempos:  apenas
Anthony e eu.
E  mesmo  assim  ficava  uma  lacuna,  um  espaço  vazio,  que  já  não  podia
mais ser preenchido por apenas nós dois.
—  Quando  a  Bia  vai  vir  morar  nesse  apartamento?  —  Anthony
perguntou.
A  sincronia  de  nossos  pensamentos  e  sentimentos  não  podia  ser  mera
causalidade.
— Em breve, filho — foi a minha resposta.
Agora eu só precisava encontrá-la.




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