Projeto de doutorado


Da alquimia árabe à ascensão e queda do flogístico



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1.6 Da alquimia árabe à ascensão e queda do flogístico 
 
Na filosofia natural aristotélica, o elemento fogo é um dos constituintes básicos do mundo 
sublunar. Os outros três são a água (não a que existe nos rios, lagos), o ar (não o que está presente 
na respiração dos seres vivos) e a terra (não a que se vê ou se pega com as mãos), elementos 
puros por natureza. Liberado de um corpo sob condições apropriadas, o fogo explica, entre outras 
coisas, a combustão da matéria. 
Os estudos de alquimia desenvolvidos pelos árabes na Idade Média ampliam o quadro aris-
totélico dos quatro elementos, com o “enxofre”, o “mercúrio” e o “sal”,  concebidos não como 
matéria ordinária, identificada com as substâncias reais de mesmo nome, mas como símbolos de 
certos princípios ou essências  da matéria. Assim, o “enxofre”  representa a inflamabilidade, o 
“mercúrio” a fluidez e volatibilidade, e o “sal” a solidez e incombustibilidade. 
Se tudo o que existe é, de alguma forma, uma combinação ou mescla de certos elementos 
ou essências, a transmutação de um metal em outro, e em ouro em particular, é algo que deve ser 
objeto de tentativas no laboratório, acelerando processos naturais que demandam um longo tempo 
à sua efetivação. 
                                                 
43
 PULLMAN, 1998, p. 121. 
44
 ROLLER, 1957. 
45
 ABRANTES, 1998, p. 151. 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
33 
Para Djabir ibn-Hayyan (760-815 d.C.), o primeiro e o mais notável nome da alquimia 
árabe, a prata, o cobre, o ferro, o mercúrio, o chumbo e o estanho são combinações de “mercúrio” 
e de “enxofre” em diferentes proporções e graus de pureza. A forma líquida do mercúrio comum 
decorre da grande concentração de “mercúrio”  que  ele contém. Quando puros e integrados no 
mais perfeito dos equilíbrios naturais, estes ‘princípios’ geram o ouro, o mais nobre dos metais.  
A prática alquímica deve viabilizar essa concepção teórica. Ela demanda a identificação da 
substância ativadora desse processo – o catalizador ou elixir. A importância do trabalho experi-
mental é destacada por Djabir, quando diz que “aquele que não realiza trabalhos práticos nem faz 
experiências jamais atingirá o menor grau de conhecimento”
46
À teoria do enxofre e do mercúrio de Djabir, outro grande alquimista do mundo árabe, Al-
Razi (865-925) agrega o sal, um componente não inflamável e não volátil, necessário à constitui-
ção de qualquer sólido. Na verdade, o interesse na transmutação dos metais é bastante antigo, 
sendo encontrado em Bolos de Mendes (
. De fato, à parte as diferentes 
concepções teóricas, místicas, religiosas, filosóficas de seus adeptos, ao longo do tempo, a alqui-
mia é, essencialmente, uma arte prática, e a paciência uma virtude indispensável. É particu-
larmente a perspectiva do reencontro com um segredo, supostamente revelado pelo deus Hermes 
(o Tote egípcio) nos elos perdidos do passado, que atrai e fascina. 
≈ 200 a.C.), que procurou obter ouro a partir do chumbo 
e do ferro.  
Aos insucessos do objetivo primordial da alquimia, desde os tempos mais remotos, aliam-
se misticismo, superstições, enigmas indecifráveis, obscuridades de toda a natureza e com os 
mais diversos propósitos. Contudo, o ouro é muito mais do que riqueza material. Os artesãos de 
um sem número de culturas talharam com esse metal os objetos mais preciosos de suas crenças. 
Ele é símbolo de pureza, incorruptibilidade, poder, magia, eternidade. Assim,  
 
(...) o que começara como uma busca de riquezas transformou-se gradualmente – pelo menos para alguns 
–  em uma viagem do espírito. O trabalho do alquimista começou a alcançar os mais altos níveis da 
indagação filosófica; se o ouro fosse matéria em forma perfeita – luz solar metálica, rebento dos deuses – 
então qualquer  pessoa que aprendesse a criá-lo assumiria certamente os atributos da divindidade. O 
alquimista bem sucedido seria sábio, poderoso e, muito possivelmente, imortal
.
47
 
 
Por entre a complexa teia de motivações para o estudo da alquimia, há os que procuram 
utilizá-la para a preservação da saúde e para o tratamento de doenças. Nesse sentido, as raízes da 
iatroquímica (alquimia médica) do século XVI podem ser encontradas nas atividades médicas 
desenvolvidas por Al-Razi.  
Abu-Ali Al-Husayn Ibn Abdullah Ibn Sina (980-1037), conhecido por Avicena, é mais um 
estudioso que teoriza sobre a transmutação dos metais inferiores em ouro, a partir do enxofre e do 
                                                 
46
 MATHIAS, 1977. 
47
 CAVE; DOYLE; KELLY, 1993. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
34 
mercúrio. Em função da evidência empírica, mostra-se cético em relação a esse ideal. Por outro 
lado, desenvolve importantes e bem sucedidos estudos alquímicos com fins medicinais, utili-
zando diversos minérios e plantas. 
A alquimia alcança o ocidente com o acesso dos estudiosos às bibliotecas árabes, a partir 
da fragmentação do Império Islâmico no século XI. O conhecimento grego aí preservado faz com 
que se retome a filosofia natural aristotélica, devidamente compatibilizada com os ideais do 
mundo cristão por Alberto Magno (1200-1280) e Tomás de Aquino (1225-1274). 
É em função da concepção aristotélica de que toda  a explicação de um processo de mu-
dança deve se referir à sua causa final (explicação teleológica), que muitos filosófos medievais, 
entre os quais Roger Bacon (1214-1294), acreditam na transmutação dos metais sob a superfície 
da terra. Nesse caso, o ouro seria o ápice ou produto final de uma cadeia específica. Suposta-
mente, o catalizador ou elixir árabe, transformado em pedra filosofal, aceleraria o processo em 
metais deslocados de seu ambiente natural. 
Mesmo com sua prática cercada de mistérios, sua linguagem metafórica, seus caracteres 
pessoais e muitas vezes indecifráveis, a alquimia medieval européia, tal como a árabe, abriga 
interesses bastante diversificados. Entre eles, está a possibilidade de um real acesso à verdade, 
através de uma melhor compreensão da matéria, dos constituintes básicos de todas as coisas. 
A alquimia é uma das disciplinas tratadas por Alberto Magno em seus escritos não teológi-
cos, que incluem uma ampla variedade de interesses da ciência, como astronomia, física, botâ-
nica, zoologia, fisiologia, mineralogia. Contudo, é por ensejar a assimilação e a difusão da 
filosofia natural aristotélica, que considerava indispensável à formação do teólogo, por trazer à 
reflexão questões importantes sobre a razão e a fé, que ele deixa escrito o seu nome na história. 
Isaac Newton (1642-1727) foi um outro estudioso da alquimia que, exercendo o seu poder 
de fascínio sobre o espírito inquieto e indagador, não limita fronteiras no tempo. É justamente a 
possibilidade de imersão em um mundo que transcende o mecanicismo da matéria inerte, passiva, 
destituída de propriedades ocultas (nos termos aristotélicos), de incursão em um universo que na 
sua mais secreta intimidade é capaz de iluminar a razão, de fazer o pensamento entrar em resso-
nância com a essência última do fenômeno, que leva Newton a se interessar por ela em 1669.  
 
A alquimia afirmava a existência de princípios ativos na matéria, como agentes primários dos fenômenos 
naturais. Em especial, postulava a existência de um agente ativo, a pedra filosofal, objeto da arte 
hermética. Toda a sorte de imagens era aplicada à pedra, todas elas expressando um conceito de atividade 
profundamente contrário à inércia da matéria mecânica, caracterizada apenas pela extensão
.
48
 
 
Para Newton, a compreensão dos princípios ativos da matéria, como o da gravidade e o que 
causa a coesão dos corpos, era essencial para um entendimento pleno da mecânica. Assim, ele 
não hesita em derivar os princípios gerais do movimento, de ampla aplicação, sem deixar de res-
                                                 
48
 WESTFALL, 1995, p. 116. 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
35 
saltar que as causas destes princípios ainda não foram descobertas, devendo portanto ser objeto de 
novos estudos.
49
Em todo caso, através da alquimia se estudava a matéria. Conforme Justus Liebig (1803-
1873), um dos formuladores do princípio da conservação da energia, no século XIX,  
 
 
(...)  a mais rica imaginação do mundo não teria podido conceber uma idéia melhor do que a pedra 
filosofal para inspirar as mentes e as faculdades dos homens. Sem ela, a química não seria o que é hoje. 
Para descobrir que não existia nada semelhante à pedra filosofal, foi necessário passar em revista e 
analisar todas as substâncias conhecidas na Terra. E é precisamente nisso que reside sua influência 
miraculosa
.
50
 
  
A mudança química é uma alternativa nova, não contemplada na análise aristótelica do 
processo de mudança, restrito a alterações no espaço (deslocamento de um objeto de um lugar a 
outro) e no tempo, que caracterizam e diferenciam os mundos terrestre e celeste.  
A descoberta de ácidos com grande poder corrosivo, como o ácido sulfúrico e a aqua fortis 
(ácido nítrico forte), amplia os horizontes da experimentação. As reações resultantes da dis-
solução de compostos, por exemplo, permitem o acesso aos elementos que os constituem.   
A iatroquímica, defendida e praticada por Paracelso (1493-1541) e outros, concebe o 
tratamento de doenças do corpo humano pela ingestão de remédios à base de uma farmacologia 
química. Supostamente, processos e transformações químicas no interior do organismo explica-
riam a cura. A experimentação em um  campo novo, sem bases teóricas claras, com freqüência 
desencadeava a morte do paciente. Esse andar às cegas, de tentativas isoladas de acerto com base 
na correção de erros, é característico de um período que antecede a química moderna. 
O trabalho de Paracelso talvez ilustre como muitas vezes são tênues e pouco definidos os 
limites demarcatórios entre o científico e o não-científico na conduta de um estudioso. A diversi-
dade de seus interesses, às vezes o coloca claramente na vertente da alquimia que dá vazão ao so-
nho da posse, da riqueza. O seu envolvimento na confecção de medicamentos parece mesclar as-
pectos científicos, humanitários e comerciais, tornando-os indissociáveis. As premissas teóricas 
de Paracelso, tão gerais quanto vagas, compõem uma espécie de fluido que permeia e dá sentido 
às suas ações. Para ele, o universo obedece a leis químicas, pois é obra de um químico superior.  
Não é apenas a física que se ressente de um método efetivo para a aquisição de conheci-
mentos, como enfatiza Francis Bacon. A sua crítica se estende a todos os segmentos da ciência, 
mas parece particularmente válida à química emergente, em função da estreiteza e imprecisão de 
seus estudos e experimentos. 
O conhecimento químico, na verdade, anda por caminhos muito sinuosos, pois apesar de 
avanços importantes, como o isolamento e a descoberta de novos elementos, ainda se encontram 
                                                 
49
 NEWTON, 2002, p. 290-291. 
50
 LIEBIG apud STRATHERN, 2002, p. 56. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
36 
vestígios de explicações rudimentares, insatisfatórias, como a que Paracelso e outros dão à ma-
deira que queima. Supostamente, nela se encontram presentes os três princípios da alquimia 
árabe: a fumaça representa a volatilidade (o princípio do mercúrio), as chamas a inflamabilidade 
(enxofre) e a cinza remanescente a solidez (sal)
51
Sob o véu de uma persistente e enigmática linguagem, falada e escrita, a tradição alquímica 
mantém a sua praxe secular, sendo transmitida de mestre a discípulo por gerações; em princípio, 
reservada apenas a uma casta de indivíduos iniciados. “É loucura dar alface ao burro que se 
contenta com cardos”, escreve Roger Bacon. O vulgo, bem ou mal intencionado, não pode en-
tendê-la. Assim, tudo se fará para desencorajar os curiosos: “deve haver sempre à porta do labo-
ratório uma sentinela armada de uma espada flamejante para examinar todos os visitantes e 
expulsar os que não forem dignos de ser admitidos”.

52
 
   
  
 
 
Fig. 1.13  - Roger Bacon pesando os quatro elementos (em uma gravura de 1618)
53
, e um 
laboratório alquímico (extraído da obra “The Story of Alchemy and the Beginnings of 
Chemistry”)
54
  

A ênfase no trabalho individual enseja a terminologia ambígua, não sendo incomum um 
estudioso valer-se de símbolos (e mesmo de nomes) distintos para uma mesma substância. Mas 
isso não impede a existência de certo consenso na representação de alguns elementos, 
substâncias, objetos, transformações (Fig. 14).  
 
                                                 
51
 STRATHERN, 2002, p. 72. 
52
 HUTIN, 1992, p. 14. 
53
 http://www.triplov.com/alquimias/pilar/pilar.1.gif 
54
 
http://www.answers.com/topic/alchemy
 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
37 
 
Fig. 1.14 - Simbologia alquímica.
55
 
  
Cem anos separam Paracelso de Robert Boyle, que se opõe a qualquer concepção de 
elemento que limite a constituição da matéria a um número reduzido de ‘substâncias universais’. 
Analisando a clássica situação da queima de um galho ou de uma folha vegetal, Boyle mostra a 
insustentabilidade da tese aristotélica dos quatro elementos. Assim, o líquido (seiva) que sai do 
corpo “e que chega a ferver” não é “água elementar”, pois contém a “virtude”  do mesmo. A 
confecção e o  uso de uma grande quantidade de chás e xaropes com fins medicinais a partir do 
sumo de vegetais mostra isso. Da mesma forma, o vapor desenvolvido não é “ar elementar”, mas 
um composto com propriedades que variam em função do vegetal, e que destilado é com 
freqüência eficaz na fertilização do solo. A chama exibe a parte sulfurosa do corpo, não tendo 
nenhuma correspondência com o “fogo elementar” de Aristotéles. O resíduo sólido (as cinzas) é 
sal, e não “terra elementar”. Boyle também ressalta que o ouro, a prata e outros metais não são 
redutíveis aos quatro elementos de Aristóteles. Ele igualmente contesta as três essências árabes.
56
Para Boyle,
 
toda a substância não decomposta em outra é um elemento fundamental (como 
a água de Thales ou o ar de Anaxímenes, na antiguidade). Não considerando os metais como ele-
mentos, Boyle acreditava que o ideal alquimista da transmutação de metais inferiores em ouro era 
uma possibilidade concreta. 
 
Mas os tempos agora são outros. Em seus escritos, Boyle procura expor o seu pensamento 
com clareza, descrevendo os seus experimentos de forma passível de reprodução por outros 
estudiosos. O debate científico em torno de uma linguagem uniforme, de aceitação geral e ine-
quívoca, ainda é um objetivo a ser alcançado por essa nova química, que definitiva e irreversivel-
mente se distancia dos ideais da prática isolada, individualista, incerta e sigilosa da alquimia.  
                                                 
55
 MAAR, 1999, p. 200. 
56
 BOYLE, 1985, p. 119-137. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
38 
Uma boa demonstração desse afastamento é “O químico cético”
57
Indiferente às especulações sobre a natureza da matéria, Georg Ernst Stahl (1660-1734), 
um físico-químico alemão, explica a combustão admitindo que as substâncias possuem, 
intrinsecamente, um ‘princípio ígneo’, o flogístico
, publicado em 1661. 
Nessa obra, Boyle discute a pertinência do seu conceito de elemento químico, questionando con-
cepções que considera superadas. Para isso, promove uma discussão que envolve um adepto da 
teoria dos quatro elementos de Aristóteles, um paracelciano (que defende os três princípios da 
alquimia árabe), um observador interessado e um ‘cientista’ (o próprio Boyle).  
58
A teoria do flogístico explicava a calcinação (ou oxidação) dos metais. Concebidos como 
substâncias compostas por um óxido e flogístico, a exaustão do flogístico de um metal, por 
aquecimento, deixava como produto um óxido ‘pesado’. Um exemplo é a conversão do chumbo 
metálico em um pó amarelo, o litargírio.  
. Quando um corpo arde, ele perde flogístico 
para o ar. A chama, no caso, torna-se visível devido a rapidez desse processo de transferência. O 
resíduo da combustão é uma substância desflogistificada.  
Certas propriedades do flogístico, como, em algumas situações, a sua capacidade de re-
combinação com a substância do qual foi exaurido, permitem entender porque quando a tempera-
tura do litargírio é convenientemente elevada por uma substância rica em flogístico, como o car-
vão, obtém-se novamente chumbo. Contudo, nem todos os processos de desflogistificação e flo-
gistificação são reversíveis. O resíduo do carvão, a cinza desflogistificada, ilustra isso. 
Apesar de aceito por cientistas como Joseph Black (1728-1799), Henry Cavendish (1731-
1810), Joseph Priestley (1733-1804), a teoria do flogístico enfrentava importantes dificuldades. 
Além de abrigar um conceito vago, interpretado por uns como um fluido sutilíssimo, semelhante 
ao calórico, e por outros como um gás, ela não podia explicar por que os metais calcinados apre-
sentavam um peso maior depois de perderem o seu flogístico. Admitir que este ‘fluido’ tivesse 
peso negativo não parecia a ninguém uma hipótese plausível.  
Por outro lado, substâncias ricas em flogístico, e portanto de fácil combustão, como 
madeira, carvão e graxas, apresentavam resíduos mais leves que suas matrizes. Embora previsto, 
esse resultado era contraditório com o encontrado na calcinação dos metais. 
O certo é que o referencial do flogístico é parte integrante de um conjunto de ações que, de 
uma maneira ou de outra, impulsiona o estudo dos gases envolvidos nas reações químicas. 
Assim, elevando a temperatura de uma amostra  de calcário (carbonato de cálcio), Joseph 
Black mostrou a sua decomposição em um gás e cal (óxido de cálcio) e, novamente, a restauração 
do carbornato de cálcio a partir da combinação gás-óxido. A identificação desse gás como 
dióxido de carbono evidenciou  que essa substância também podia ser obtida a partir de um 
minério e não apenas da madeira, do carvão.  
                                                 
57
 BOYLE, 2003. 
58
 Também flogisto ou flogiston
.
 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
39 
A recombinação do óxido de cálcio com o ar, resultando, novamente, em carbonato de 
cálcio, levou Black a concluir que existe dióxido de carbono na atmosfera.  
 
Há, aqui, a primeira indicação clara de que o ar não é uma substância simples e que, portanto, apesar da 
concepção grega, não é um elemento segundo a concepção de Boyle. Consiste em uma mescla de pelo 
menos duas substâncias diferentes, o ar ordinário e o dióxido de carbono
.
59
 
 
Desenvolvendo novos experimentos com o dióxido de carbono, Black verificou que uma 
vela não ardia no interior de um frasco com esse gás, e que, quando acesa em um recipiente fe-
chado contendo ar, ela se apagava, como se sabia, depois de um certo tempo. A explicação, natu-
ralmente, era o excesso de dióxido de carbono existente, em decorrência da queima da vela.  
Retirando o dióxido de carbono do recipiente, mediante a sua absorção por compostos 
químicos, Daniel Rutherford (1749-1819), um estudante de Black, constatou não ser possível ini-
ciar uma nova combustão da vela. Isso ocorria, segundo Black e Rutherford, porque o ar rema-
nescente estava saturado de flogístico (cedido ao ambiente durante a queima da vela). Este “ar”, 
que mais tarde viria a ser conhecido por nitrogênio, foi designado por Rutherford como “ar flogis-
tificado”. 
Henry Cavendish, outro adepto do flogístico, investigou em profundidade as propriedades 
de um gás que se formava na reação de certos metais com ácidos, como no caso do ácido sulfú-
rico sobre o zinco ou do ácido clorídrico sobre o estanho. Esse gás (que depois recebeu o nome de 
hidrogênio), facilmente inflamável, levou Cavendish a aventar a hipótese de se tratar do próprio 
flogístico. 
O oxigênio é mais  um gás que se reúne ao elenco dos que começam a ser conhecidos 
graças ao trabalho de Joseph Priestley. Utilizando uma lente para concentrar raios de Sol sobre 
uma amostra de óxido de mercúrio em um tubo de ensaio, Priestley constatou que esse calcinado 
se transformava novamente em mercúrio, “liberando um gás de propriedades muito estranhas”. 
Isolando esse gás, constatou que os combustíveis ardiam nele antes e com mais brilho do que no 
ar. Nesse caso, concluiu Priestley, as substâncias nele imersas  
 
(...) teriam que ser capazes de liberar flogístico com extraordinária facilidade. Isto só poderia ocorrer se o 
gás fosse uma amostra de ar da qual se houvesse extraído o flogístico, de tal modo que aceitava qualquer 
quantidade do mesmo com grande avidez. Assim, Priestley chamou a este novo gás de ‘ar desflo-
gistificado’... Respirando-o, sentiu-se ‘leve e cômodo’
60
 

A teoria do flogístico é abandonada em função dos estudos de Antoine-Laurent Lavoisier. 
Convicto da fragilidade desse conceito, a sua refutação é conseqüência de uma postura científica 
que atribui grande valor à análise quantitativa de dados precisos, propiciados pelo aperfeiçoa-
mento do instrumental disponível (balanças, termômetros, bombas de vácuo) e da  acuidade da 
                                                 
59
 ASIMOV, 1999, p. 60. 
60
 Id, p. 63-64. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
40 
técnica experimental. Até então, era pequena a receptividade dos químicos à medição, e não sem 
razão, face às insuficiências dos equipamentos. Assim, o problema do peso, que abalava a crença 
no flogístico, não havia preocupado Stahl, que o concebia como um fluido imponderável. 
Encerrando uma amostra de estanho em um recipiente apropriado e pesando cuidadosa-
mente o seu conteúdo antes e depois de provocar a calcinação do metal, por elevação de tempe-
ratura, Lavoisier constatou que o peso do sistema não se alterava. Como o metal havia aumentado 
de peso, parecia lógico atribuir esse resultado à absorção de ar pelo metal. Ao permitir uma nova 
entrada de ar no recipiente, percebeu que isso ocorria de forma brusca (devido à diferença das 
pressões interna e externa). Pesando novamente o sistema, Lavoiser registrou um acréscimo de 
peso ao mesmo, como era de esperar, corroborando a sua hipótese. 
Também o chumbo, nas mesmas condições experimentais, apresentava comportamento 
análogo ao do estanho. Assim, para Lavoisier, não havia nenhum fluido imponderável, fantasioso, 
envolvido na calcinação de um metal. Era a combinação metal-ar que explicava esse fenômeno. 
 
 
Fig. 1.15 - Lavoisier e sua esposa em 1788, por Jacques-Louis David
61
 

Para todos os experimentos, apenas uma parte do ar era absorvida na calcinação, indepen-
dentemente da quantidade de metal utilizado. Sendo o dióxido de carbono (o ‘ar de Black’) um 
constituinte do ar, além de, supostamente, ser um gás absorvido pelos metais, ele concluiu, erra-
damente, que era este componente do ar que se combinava com os metais. Posteriormente, verifi-
cou tratar-se do ‘ar desflogistificado’ de Priestley, que ele chamou de oxigênio.  
                                                 
61
 
http://fr.wikipedia.org/wiki/Antoine_Lavoisier 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
41 
Em presença do ‘ar de Priestley’, o óxido vermelho resultante do aquecimento do mercúrio 
convertia-se novamente em mercúrio, preservando suas propriedades originais. Qualquer calci-
nado “absorvia completamente uma determinada quantidade de oxigênio, mas apenas uma fração 
desta mesma quantidade, de ar”.
62
Por outro lado, o menor peso das cinzas em relação ao da madeira da qual se originava ex-
plicava-se porque o dióxido de carbono resultante da queima se transferia para a atmosfera. Esse 
mesmo processo, efetuado em um recipiente fechado, mostrava uma relação de peso inalterável 
no sistema antes e depois da combustão. 
   
No curso de seus experimentos, Lavoisier verificou que, quando se leva em conta todos os 
elementos envolvidos em uma reação química, não há variação de peso (ou de massa, mais pre-
cisamente) no sistema considerado. Em outras palavras, a massa não é criada e nem destruída em 
uma reação química. Esse resultado é conhecido como a lei da conservação da massa, de 
Lavoisier. 
Em uma série de novos estudos experimentais, conduzidos com o rigor e a precisão habitu-
ais, Lavoisier mostra que o ar inalado na respiração possui mais oxigênio do que o exalado, o 
qual apresenta uma grande quantidade de “ar fixo”, ou “ar de Black” (dióxido de carbono). 
O trabalho de Lavoisier, enfim, evidencia que o flogístico não existe. A oxidação de um 
metal não está relacionada à perda de flogístico pelo metal, mas à sua combinação química com o 
oxigênio. A combustão é um processo químico que envolve a queima do oxigênio. 
A supressão de um conceito fortemente arraigado a um conjunto de explicações não é ins-
tântanea, mesmo frente a evidências experimentais que o colocam em dificuldades aparentemente 
incontornáveis. O flogístico é mais um exemplo na história da ciência. 
Em 1783, Cavendish obtém água combinando, aproximadamente, dois volumes do “ar in-
flamável”, que havia isolado anteriormente e rico em flogístico (o hidrogênio), com um volume 
de “ar desflogistificado” (o oxigênio). Impregnado por suas concepções teóricas, ele não admite 
que a água possa ser um composto químico acreditando ter encontrado evidências da existência 
desse elemento nos gases manipulados. 
Para Lavoisier, os experimentos de Cavendish demonstram que a água é um composto de 
oxigênio e hidrogênio e não um elemento irredutível a outros, como se pensava.  
Priestley também recusa a exclusão do flogístico, publicando o “Estabelecimento da dou-
trina do flogístico e a refutação da composição da água” em 1800. Já Black adere a Lavoisier.  
Retomando a noção de elemento químico, de Boyle, isto é, de uma substância que não se 
pode decompor em outra por nenhum processo físico ou químico, Lavoisier publica, em 1789, no 
“Tratado elementar de química”, uma lista contendo 33 elementos. Desses, 25 encontram-se pre-
sentes, hoje, na tabela periódica dos elementos. Além de alguns óxidos, fazem parte da lista a luz 
                                                 
62
 MASON, 1962, p. 247. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
42 
(em função da teoria corpuscular newtoniana da luz) e o calor (ainda objeto de disputas, quanto à 
sua natureza). 
A impossibilidade experimental do presente no processo de divisão de um elemento, não 
significa a sua inviabilidade no futuro. Destacando isso em seu “Tratado”, Lavoisier escreve que: 
 
A química caminha em direção a seu objetivo e para sua perfeição dividindo, subdividindo e re-
subdividindo e ainda ignoramos qual será o termo de seus sucessos. Nós não podemos portanto assegurar 
que o que olhamos como simples hoje, o seja na realidade; tudo o que podemos dizer é que tal substância 
é o termo atual ao qual chega a análise química, e que ela não pode mais se subdividir além dele, no 
estado atual de nossos conhecimentos
63
 

No século XIX, uma nova geração de químicos desenvolve o legado de Boyle e Lavoisier, 
principalmente.  


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