Projeto de doutorado



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1.3 O atomismo  
 
De acordo com  Leucipo e Demócrito, a matéria não é  contínua. Ela é constituída de 
‘germes’  eternos, minúsculas partículas duras, indestrutíveis, inacessíveis ao olho humano. Por 
concebê-las como as menores subdivisões possíveis da matéria, foram chamadas de átomos.  
 
 
 
Fig. 1.2 - Imagem artística de Demócrito
14
 

Sob a ação de forças da mais diversa natureza,  a matéria se desagrega, dissolve-se, 
despedaça-se, mas os seus elementos básicos permanecem incólumes, pois nada pode voltar ao 
nada. Como nada pode surgir do nada, são novas associações desses ‘germes’ que vão constituir 
novos corpos. É desse modo que a natureza opera, refazendo os corpos uns a partir dos outros, 
sem a intervenção de deuses.   
 
Não é por certo em virtude de um plano determinado nem por um espírito sagaz que os átomos se 
juntaram segundo uma certa ordem; também não combinaram entre si com exatidão os movimentos que 
                                                 
14
 
http://www.archaeonia.com/philosophy/presocratics/democritus.htm 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
16 
teriam; mas, depois de terem sido mudados de mil modos diferentes através de toda a imensidade, depois 
de terem sofrido pelos tempos eternos toda a espécie de choques, depois de terem experimentado todos 
os movimentos e combinações possíveis, chegaram finalmente a disposições tais que foi possível o 
constituir-se tudo o que existe. E é por assim se terem conservado durante muitos anos, uma vez chegados 
aos devidos movimentos, que os rios saciam o ávido mar com suas grandes águas, que a Terra, aquecida 
pelo vapor do Sol, renova as suas produções, e florescem todas as raças de seres vivos, e se sustentam os 
fogos errantes pelo céu
.
15
 
 
Os átomos de Demócrito são todos feitos de uma mesma substância. Diferem em tamanho, 
forma, movimentos e arranjos geométricos, sendo a diversidade de todas as coisas explicadas por 
essas diferenças.  
Desse modo, a maior ou menor rigidez de um sólido está associada ao grau de compac-
tamento dos átomos que o constituem. Por exemplo, há muito mais espaços vazios entre os áto-
mos de um objeto flexível do que os existentes em um corpo rígido, como uma pedra, os quais se 
encontram fortemente agrupados. Por esse motivo, esses objetos respondem de forma diferente 
quando submetidos à ação de uma mesma força ou agente deformador: há uma variação significa-
tiva de volume no corpo flexível, mas não na pedra, que mantém sua forma inalterada. 
A fim de explicar o contraste entre o sabor doce, amargo ou azedo das coisas, os atomistas 
gregos apelavam para a forma diversificada dos átomos. Enquanto átomos lisos e arredondados 
eram responsáveis pela agradável sensação do doce, ao paladar, átomos de forma irregular, ponti-
agudos, que podiam produzir até mesmo pequenas escoriações na língua, eram a causa do gosto 
de azedo ou de amargo de certas coisas. De fato,  
 
(...) não há nenhuma razão para supor que a sensação do doce seja produzida por átomos lisos, nem a de 
picante por átomos pontiagudos. Aliás, isto não faz qualquer sentido em nossa física. Mas é a imagem em 
si que é interessante, porque nos fez compreender o tipo de raciocínio e de explicação que se podia então 
encontrar
16
 

Também os sons agradáveis, como os das fontes d’água, ou os que os músicos com 
maestria extraem de seus instrumentos, são compostos por átomos arredondados, que contrastam 
com os de forma irregular, origem de sons estridentes, desafinados, que ferem os ouvidos. 
O fogo dos raios, formado por átomos pequenos, capazes de atravessar diminutos poros da 
matéria, é muito mais penetrante do que o fogo comum das tochas, de átomos muito maiores.  
Se a água flui com facilidade, sob o menor constrangimento, é porque é formada por 
elementos pequenos e rolantes. O mel, de natureza mais espessa e de movimento mais lento, nas 
mesmas condições, não pode reunir átomos tão redondos e lisos. Já a luz, é constituída por 
átomos muitíssimo finos, arredondados, velozes e sutis. 
                                                 
15
 LUCRÉCIO CARO, 1962, p. 74. 
16
 LENOBLE, 1990,
  
p.327. 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
17 
A filosofia atomista não restringe as suas explicações à matéria inorgânica. São os 
fenômenos  do mundo natural, em seu todo, incluindo aspectos relativos à própria vida, que ela 
almeja elucidar. 
Quase dois mil e quinhentos anos depois, em um discurso proferido na reunião de abertura 
do Congresso Internacional sobre Terapia através da Luz, realizado na cidade de Copenhague, em 
1932, Niels Bohr (1885-1962), um dos fundadores da mecânica quântica, mostra a atualidade 
dessa concepção. Ressaltando as diferenças e especificidades próprias da pesquisa realizada em 
física e em biologia e que é irracional qualquer pressuposto que aluda à biologia algum tipo de lei 
especial que seja incompatível com as regularidades físico-químicas já estabelecidas, ele diz que: 
 
As maravilhosas características constantemente reveladas nas investigações fisiológicas, e que diferem 
tão marcantemente do que se conhece sobre a matéria inorgânica, levaram os biólogos a crer que 
nenhuma compreensão adequada dos aspectos essenciais da vida é possível em termos puramente físicos. 
Por outro lado, dificilmente se poderia dar uma expressão inambígua à visão conhecida como vitalismo, 
que parte do pressuposto de que uma força vital peculiar, desconhecida dos físicos, rege toda a vida 
orgânica. Na verdade, penso que todos concordamos com Newton em que o fundamento último da 
ciência é a expectativa de que a natureza exiba efeitos idênticos em condições idênticas. Portanto, se pu-
dermos avançar tanto na análise dos mecanismos dos organismos vivos quanto na dos fenômenos 
atômicos, não deveremos esperar descobrir nenhuma característica alheia à matéria inorgânica.
17
 
 
A cinemática atomista pressupõe a existência do vazio, da ausência de matéria, do nada. 
Contudo, como ressalta Aristóteles no Livro IV da “Física”: “A conclusão do movimento a partir 
do vazio não é de modo algum necessária... Ele não é, de maneira alguma, condição absoluta de 
todo movimento... E isso se vê principalmente no turbilhão das coisas contínuas, nos líquidos, por 
exemplo”
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Além disso, argumenta Aristóteles, a própria noção de átomo é incompatível com a lógica 
que admite a divisão da matéria em quantidades cada vez menores, pois por que haveria este 
processo de se deter em algum ponto? 
. O deslocamento de um peixe na água ilustra o movimento de um corpo sólido em 
um meio contínuo. 
Uma analogia com a geometria permite um melhor entendimento dessa objeção 
aristotélica. Assim,  
 
(...)  se, por exemplo, divide-se  uma linha em partes cada vez menores podemos perguntar se a menor 

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