Projeto de doutorado


A substância e a forma na composição de todas as coisas



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1.2 A substância e a forma na composição de todas as coisas 
 
A teoria atômica da matéria é mais uma notável invenção grega. 
A idéia de que a matéria é constituída por átomos, isto é, por corpúsculos indivisíveis, foi 
estabelecida por Leucipo de Mileto (460-370 a.C.) e desenvolvida por Demócrito de Abdera 
(470-380 a.C.). O aparecimento dessa concepção é parte integrante de uma cultura científica que, 
desde o século VI a.C., com Thales de Mileto (640-562 a.C.), começa a dar os primeiros passos 
na tentativa de compreender racionalmente o mundo natural.
4
De que o mundo é feito? É a pergunta que orienta os estudos dos primeiros filósofos gre-
gos, que começam a buscar respostas que não mais admitem conjeturas associadas a mitos, ma-
gias e superstições. 
 
Para Thales, a matéria primitiva da qual se originam todas as coisas é a água. Sem água 
não há vida nos  mundos  vegetal e animal. Essa dependência reforça as convicções teóricas de 
Thales, que também vê no mundo inanimado diferentes manifestações desse elemento, por exem-
plo, a neve, o gelo, o ar (úmido) e o vapor (constituinte das nuvens).  
Anaximandro (611-545 a.C), também de Mileto, discorda de Thales. A água não pode ex-
plicar a poeira, pois as qualidades de úmido e seco são opostas. Esses opostos, supõe ele, devem 
ter se diferenciado a partir de uma mesma substância, esta sim, origem de tudo. Não conseguindo 
                                                 
2
 MAXWELL apud PAIS, 1995, p. 93. 
3
 FEYNMAN, 1995, p. 39. 
4
  Mileto é uma das cidades gregas localizada na Jônia, sudoeste da atual Turquia. As bases de uma nova forma de 
conhecimento que aí começa a se estruturar logo se espalham para outras cidades gregas, em ilhas do mar Egeu e 
continente (particularmente na Itália). 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
12 
identificar que substância é esta, ele a designa pelo nome de apeiron, que significa indeterminado. 
É a partir do apeiron, por processos ainda desconhecidos, que a natureza exibe suas formas e fe-
nômenos.  
Segundo Anaxímenes (585-528 a.C.), outro grande filósofo milesiano, tudo é ar, em dife-
rentes graus de compactação. Quer dizer, é a maior ou menor rarefação ou condensação desse 
elemento que explica a diversidade das coisas. Assim, o fogo é ar muito rarefeito; a nuvem, a 
água e a terra, em suas distintas formas, isto é, os sólidos, resultam, respectivamente, da progres-
siva condensação desse elemento.  
A infinita diversidade das coisas e dos fenômenos talvez esconda, em sua essência, um ele-
mento único estruturador de tudo, admite inicialmente Heráclito de Éfeso (576 -  480 a.C.). No 
entanto, a concepção da própria natureza dessa substância, imutável em si mesma, constitui, em 
sua visão, um contra-senso com o dinamismo das transformações e dos processos existentes no 
mundo material. Por  isso, Heráclito elege o  fogo, “ao mesmo tempo matéria e força motriz”
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O fogo de Heráclito não é uma chama material; muito menos um tijolo fundamental  da 
natureza. É, sob muitos aspectos, um conceito semelhante à moderna energia.  

como um elemento símbolo de todo esse dinamismo.  
De acordo com o filósofo jônio Xenófanes de Cólofon (570-460 a.C), a origem de todas as 
coisas, o elemento primordial do Universo, é a terra. 
Empédocles de Agrigento (492-432 a.C.) rompe com o monismo dos primeiros filósofos. 
A natureza é complexa demais para ser explicada pelas transformações de uma única substância. 
A terra, a água, o ar e o fogo, combinados entre si e em percentuais variados, são as raízes 
últimas, os constituintes fundamentais de tudo o que existe.  
Além dessa proposição inovadora dos quatro elementos, que será mais adiante retomada 
por Aristóteles de Estagira (384-322 a.C.) para explicar a composição dos objetos terrestres (mas 
não celestes)
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, Empédocles considera que todos os fenômenos (como o movimento e a agrega-
ção/desagregação da matéria) ocorrem pela ação de duas forças básicas da natureza: a “força 
amor” (atração), que aproxima os diversos elementos e a “força ódio” (repulsão), que os separa. 
Assim, “em seu modo poético e qualitativo, Empédocles é o primeiro a postular a realidade das 
causas no mundo físico e a identificá-las com forças”
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Em um de seus poemas, Empédocles enaltece a figura de um homem de extraordinários co-
nhecimentos, que sabia mais do que era possível a alguém aprender em dez ou vinte vidas. Esse 
. Para a ciência jônica, o movimento e as 
transformações da matéria primordial são atributos inerentes a esta matéria, o que dispensa a aná-
lise causal de qualquer evento. 
                                                 
5
 HEISENBERG, 1995, p.52.  
6
 PEDUZZI, 1996. 
7
 SAMBURSKY, 1990, p. 39. 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
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filósofo é Pitágoras de Samos (570-497 a.C.), fundador de uma escola de pensamento com bases 
filosóficas inteiramente diferentes da escola materialista de Mileto. 
 
 
 
 
Fig. 1.1 - Pitágoras, em detalhe do
 
afresco “A escola de Atenas”, de Rafael.
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Como os milesianos, Pitágoras acredita na existência de uma matéria primordial, mas não 
se ocupa em especular que substância é essa. O mundo, para ele e seus seguidores, é governado 
pelos números.  
 
Os números constituíam o verdadeiro elemento de que era feito o mundo. Chamavam Um ao ponto, Dois 
à linha, Três à superfície e Quatro ao sólido, de acordo com o número mínimo de pontos necessários para 
definir cada uma dessas dimensões. Os pontos se somavam para formar as linhas; as linhas, por sua vez, 
para formar superfícies; e estas para formar os volumes. A partir de Um, Dois, Três e Quatro podiam 
construir o mundo
.
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As diferenças entre as diversas espécies de coisas devem ser buscadas na forma, nas distin-
tas estruturas geométricas dos corpos, determinadas pelos números. “A ênfase é deslocada da ma-
téria [que afinal de contas  é comum a todas as coisas] para a forma. A estrutura é a realidade 
fundamental, e esta estrutura pode ser expressa numericamente, em termos de quantidade”
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Apesar de indissociáveis, a relação número-objeto não implica que os pitagóricos conce-
bam os corpos como um conglomerado de pontos materiais. Os números irracionais impedem 
qualquer especulação nesse sentido, já que não podem ser escritos como nenhuma combinação de 
números inteiros. A incomensurabilidade entre o lado e a diagonal do quadrado ilustra isso


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