Projeto de doutorado



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1.8 Um papel para a história 
 
Compreender a evolução do pensamento científico em domínios como a física e a química 
à luz do pressuposto de que a história de uma ciência, como qualquer outra história, tem 
diferentes interpretações, conforme  mostra a moderna filosofia da ciência, não dispensa 
dificuldades, mas enseja um envolvimento seguro e consciente nos caminhos complexos da 
ciência.  
O conflito de opiniões, o debate crítico de idéias, a mudança paradigmática, demandam 
análise e comprensão do contexto histórico em que ocorrem. Do contrário, como se poderia en-
tender as divergências de Platão com os atomistas? As críticas de Bacon à falta de um método na 
ciência do século XVII? A importância da alquimia na história da química? O lento processo de 
afirmação do átomo como um conceito fundamental na ciência? 
Para Stanislao Cannizzaro, a evolução histórica da química precisava estar na mente de 
seus alunos:    
Em um belo ensaio sobre o ensino da química ele descreveu como introduzia o estudo a seus pupilos, 
“esforçando-me para situá-los [...] no mesmo nível dos contemporâneos de Lavoisier”, para que 
pudessem perceber, como os contemporâneos do grande químico, toda a força revolucionária, o prodígio 
de seu pensamento; depois os situava alguns anos à frente, a fim de que pudessem ter noção do lampejo 
revelador de Dalton
.
86
 
 
Certamente, o alcance e a grandeza da solução que um cientista dá a um problema só pode 
ser devidamente apreciado quando se conhece a dimensão desse problema dentro da ciência e se 
reconhece que o cientista não atua em um ‘vazio cultural e ideológico’. A história da ciência vai 
mostrar que essas soluções são sempre provisórias, que o conhecimento científico não é e nunca 
será definitivo. 
Mário Schenberg (1914-1990), físico brasileiro, considerava a história da ciência mais 
fascinante que um romance policial, pois enquanto o mistério de um romance sempre se esclarece 
ao seu final, os da ciência se multiplicam, constituindo-se em fonte permanente de novos e intri-
gantes questionamentos.
87
Longe de se  constituir em um processo tedioso de retomada de conceitos superados pela 
ciência atual, o estudo da gênese de teorias e idéias do passado, por exemplo à luz do conceito de 
 
                                                 
85
 BASSALO, 2000. 
86
 SACKS, 2002, p. 158. 
87
 SCHENBERG, 1985, p. 30. 


1. Do átomo grego ao átomo de Dalton: um percurso através da história da física e da química 
54 
história recorrente da filosofia de Gaston Bachelard (1884-1962)
88
As origens do atomismo estão na fase áurea do conhecimento antigo. Mas o átomo de 
Dalton não é uma extensão do átomo grego, ele é distinto, pois as bases conceituais e epistemoló-
gicas nas quais se estrutura são diferentes das de seu predecessor. 
, isto é, de uma história julgada 
criticamente a partir da ciência atual, permite não apenas avaliar como surgem e são modificadas 
ou descartadas essas estruturas e concepções teóricas, mas também entender onde se encontram 
as raízes históricas de determinados conceitos.  
 
As proposições de Demócrito, bem como as de Leucipo e Epicuro, não compõem uma teoria atômica, 
nem tampouco visam explicações para as transformações químicas. Suas concepções de mundo são bem 
diversas das concepções dos físicos modernos. Seus pensamentos constituem uma filosofia que procura 
explicar a natureza, a partir da inserção do homem nessa natureza: seus propósitos e seus valores. Nesse 
sentido, as teorias de Dalton não  são conseqüências das teorias de Demócrito. Diferentemente, Dalton 
tinha por objetivo construir um modelo de átomo capaz de explicar as relações de massa nas 
transformações químicas
.
89
 
 
O átomo de Dalton reflete a ciência de seu tempo. Da definição operacional e provisória do 
conceito de substância indivisível, de Boyle e Lavoisier, chega-se, através de Dalton, a certeza 
dos componentes últimos da matéria, das células básicas da combinação química; a determinação 
dos pesos atômicos (segundo um padrão) impõe-se como uma tarefa exeqüível face as técnicas de 
análise e síntese química disponíveis; a estabilidade dos sistemas atômicos é concebida em 
termos dinâmicos e, nessa perspectiva, as partículas de calor são essenciais na relação das forças 
envolvidas; a representação simbólica de Dalton expõe a suposta organização das estruturas 
fundamentais da  matéria, de forma ‘econômica e simples’, como convém à  ciência. Essa rede 
conceitual, enfim, compõe um quadro único em relação ao átomo, sem paralelo em sua história.
 
Em regra, a retomada de conceitos não resiste à  ação do tempo, evidenciando rupturas 
significativas, descontinuidades teóricas irreconciliáveis, decorrentes de modos de pensar 
diferentes, característicos de cada época. 
A filosofia da ciência ilumina a história da ciência. Sem ela, essa história é acrítica, enci-
clopédica, dogmática, linear, sem tropeços, sem idas e vindas, ‘racionalmente racional’.   
O átomo de Demócrito e o flogístico de Stahl são livres criações do espírito e objeto de 
debate dentro da ciência, mas enquanto a aceitação ou rejeição do primeiro se dá no terreno das 
hipóteses, consonante com o perfil de ciência vigente, a pertinência científica do segundo é objeto 
da experimentação, em princípio, instância definidora de sua corroboração ou abandono. 
O calórico, essa substância sutil do calor, não tem peso e, se o possui, não é detectado pelo 
instrumental científico, de modo que seus opositores ainda não dispõem de argumentos con-
                                                 
88
 BACHELARD, 1999. 
89
 LOPES, 1996. 


Do átomo grego ao átomo de Bohr 
55 
vincentes para a sua refutação. Mas isso não importa. A suposta ausência de peso do calórico 
contribui para reafirmar o peso de um corpo, e de seus contituintes elementares, como uma gran-
deza fundamental na ciência, uma constante independente de variações de temperatura.  
Na sua “Óptica”,  conhecida e citada por Dalton em suas anotações, Newton já havia 
chamado a atenção para o peso das ‘partículas sólidas, maciças, duras e impenetráveis’ de que a 
matéria é constituída. Mas o peso é apenas uma das muitas propriedades ressaltadas por ele, como 
tamanho, forma, cor, umidade. Em contraste, o peso atômico dos elementos é a pedra angular da 
teoria de Dalton.    
Entre acertos e equívocos, a contribuição de Dalton à ciência é indiscutível. Contudo,  a 
teoria atômica da matéria nunca foi uma unanimidade entre os cientistas do século XIX. Além 
dos aspectos técnicos relativos à estruturação e ao formalismo da própria teoria, estava em jogo 
uma outra importante questão: os átomos são entidades reais ou  constructos meramente 
matemáticos?  
 A hipótese atômica formulada por Dalton não assegura a realidade do átomo. Ela dota o 
átomo de uma função explicativa de natureza puramente numérica em relação aos resultados co-
nhecidos, como a lei de conservação da massa, a lei das proporções definidas e a lei da 
proporções múltiplas.
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O químico inglês Humphry Davy (1778-1829) expressa bem esse sentimento quando en-
trega a medalha real a Dalton,  em 1826. Na oportunidade, Davy destacou a contribuição que a 
teoria química das proporções definidas, ou teoria atômica, trouxe à ciência, “ao possibilitar a de-
dução de um imenso número de fatos a partir de alguns resultados experimentais autênticos e pre-
cisos”, sem, no entanto, deixar de ressaltar que era importante separar “a parte prática da doutrina 
de sua parte atômica ou hipotética”.
 
91
Em seu “Princípios da química inorgânica”, de 1902, Wilhelm Ostwald (1853-1932) 
afirma que 
 
 
Processos químicos ocorrem de maneira a dar a impressão de que as substâncias são compostas de 
átomos. [...] Na melhor das hipóteses, disso decorre a possibilidade de que seja assim realmente, mas não 
a certeza. [...] Não nos devemos deixar desencaminhar pela concordância entre imagem e realidade, 
confundindo as duas. [...] Uma hipótese é apenas uma ajuda para a representação


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