Processos de (re)construção identitária em contexto prisional



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Análise de Conteúdo
Processos de (re)construção identitária em contexto prisional

Código entrevistado: Entrevistado 3, Tomané, masculino, 37 anos, divorciado, 1 filho, Matosinhos, 10.º ano de escolaridade, eletricista

EIXOS ANALÍTICOS:

1. Trajetória familiar: família de origem e de constituição

Entrevistado

Excerto

Síntese

Entrevistado 3, Tomané, masculino, 37 anos, divorciado, 1 filho, Matosinhos, 10.º ano de escolaridade, eletricista


“É assim…eu nasci no hospital de Matosinhos só que aos 3 meses de idade fui para Barcelos, para a beira da minha avó e do meu padrinho com quem sempre vivi…porque eu sou filho de namoro e…prontos, as situações da vida assim o fizeram!”
“Tive uma infância que até acho que foi boa, a minha avó nunca me faltou com nada graças à Deus! Tive uma infância na escola boa…”
“Pra Barcelos, eu nasci em Matosinhos…porque o pai da minha da se soubesse que a minha mãe engravidou de um homem já casado, pois eu sou filho de namoro não é?! Aquilo era um problema que para a família não era bom…e a minha avó prontos, tinha uma irmã aqui em Matosinhos, mandou-me vir aqui nascer, esconder a gravidez da minha mãe não é?! (…)Se o meu avô soubesse que a minha mãe engravidou de um homem casado…Deus me libre! Era capaz de pô-la fora da porta e coisas assim, a minha avó pra resguardar um bocado a minha mãe…prontos, teve que fazer isso! Esse foi o motivo de eu vir pra aqui pra Matosinhos!”

“Foi! A minha avó, mas também estava lá a minha mãe! A minha mãe, avó e o meu padrinho!”


“Sabe como fui o único neto, o único não que ao fim vieram mais dois, mas na altura era o único neto lá da família e sabe como é! Era o netinho da avó prontos…por assim dizer!”
“E: Uma relação muito próxima?

R.3: Muito próxima!”(…)

E: Mantinha uma boa relação com elas?

R.3: Sim, estão no estrangeiro e quando podem vêm aqui!”


“Não…tenho mais 2 irmãos, filhos de outro pai visto a minha mãe ter gosto que eu não crescesse sem pai, visto eu ser filho de namoro…ela casou com outro homem e que no fundo é meu padrasto não é?! Infelizmente já faleceu, a minha mãe também mas…graças a Deus mas…(…) A minha irmã tinha, quando a minha mãe faleceu, tinha 17 e a mais nova tinha 15! ”

“Embora os responsáveis pela minha educação fossem a minha avó e o meu padrinho, que a minha mãe tava lá em casa mas não se chateava com isso…só que na altura como era mãe solteira…prontos, naquele tempo, isso já vai há 37 anos já não era a mesma coisa que é agora! Aos olhos da sociedade era um bocado diferente mas…graças a Deus sempre tive apoio da minha avó incondicional, da minha mãe igual até ao dia que ela faleceu, o meu padrasto faleceu também 3 meses depois, num acidente de viação! E acabei mesmo por ficar com a minha avó e com o meu padrinho!”


“E eu tenho mais 3 irmãos por parte do meu verdadeiro pai que ainda é vivo! (…) Mantenho, ainda quando vou de precária telefono-os, vou comer a casa deles e tudo, está tudo bem! Nós não temos culpa dos erros dos nossos pais não é?!”
“Sair de casa nunca saí praticamente, saí de casa para ir pra tropa, mas não sair de casa! Saí de casa quando casei, mas mesmo assim aminha avó…eu não podia passar um dia sem ir lá a casa!”
“Vivia…vivia só que entretanto andava nas provas de motocross, fui pa tropa…e não sei quê…conheci umas companhias que não devia, comecei a fumar haxixe, do haxixe passei pa o cavalo, pra cocaína…só que até casar prontos…oh era aquela cena de dizer assim: “hoje é fim-de-semana, recebi ou isto ou aquilo…vou fumar!” e fumava, só que em vez de ser de fim-de-semana a fim-de-semana passou a ser diário! Entretanto aconteceu o que aconteceu, comecei a baldar-me ao trabalho, comecei a não estar tão presente na casa da minha avó, atrasava-me a ir buscar a minha mulher e tal…e prontos, a minha avó já era de idade só que já se apercebia bem das coisas e…”

“Foi no trabalho que tive, lá em Milhazes, no concelho de Barcelos! Eu ia comer a minha avó e parava lá no cafezito pra tomar um café e tal…e foi aí que conheci a rapariga.(…) dessa relação tenho uma filha com 12 anos!”

“Foi mais ou menos nessa altura, saí da tropa fui trabalhar para o mesmo senhor…foi mais ou menos nessa altura…18-19 anos…casei aos 22, tive 3 anos de namoro praticamente!”

“o meu padrinho nunca me deixou ficar mal, continuou a pagar esse apartamento que eu comprei, vou morar com a minha mulher outra vez, que ela entretanto ficou na casa da mãe que trabalhava lá pertinho com o meu filho! E eu comprei esse apartamento e tal, começo a fazer a minha vida toda de novo outra vez, sem tocar em nada, quando infelizmente faleceu a minha avó! Fiquei mal, fiquei mesmo mal…”

“…não lhe vou mentir, estou a ser sincero…a única escapatória que tive foi...pa não pensar nisto…olha, vou dar um fumo outra vez…pa não pensar nisso e prontos! (…) Comecei a dar outro…comecei a dar outro…comecei a dar outro, prontos…voltei aos mesmo outra vez! Voltei ao mesmo e entretanto…”

“por acaso foi sempre uma coisa com que me preocupei, foi com a minha mulher e com o meu filho (…)vou me internar numa clínica e é assim…tu voltas outras vez pa casa da tua mãe, ficas lá com o menino e quando eu tiver bom, eu regresso e vamos continuar a viver juntos!”

“(…)o meu padrinho sempre foi assim, já na altura de infância era assim…eu ia ao garagista, metia o que queria na mota e chegava ao fim do mês e pagava! Também se calhar foi este mau hábito que me fez andar sem faltar dinheiro…e o meu padrinho graças a Deus ia todos os meses pagar o depósito do meu apartamento, as prestações!”

“A minha relação foi…passando 5 anos, que eu saí dessa pena de 3 anos e meio…deixei-me estar junto com essa companheira que estou agora há 1 ano e meio…e ao fazer os 5 anos sou chamado ao juiz automaticamente para assinar o divórcio que agora há uma lei que uma pessoa estando separado 5 anos, automaticamente ao fim dos 5 anos, mesmo que ambas as partes não queiram tem que assinar o divórcio!”




Quando engravidou dele, a mãe do entrevistado foi mandada para a casa de uma tia materna em Matosinhos a fim de esconder uma gravidez fruto de uma relação extraconjugal, pois o pai biológico de Tomané era na altura casado e tinha 3 filhos, atuais meios-irmãos. Atualmente mantém esses laços familiares, afirmando que apesar de tudo eles não têm culpa dos erros que os pais cometeram no passado.
Após esse nascimento, escondido de uma sociedade conservadora, Tomané regressou com 3 meses de idade juntamente com a sua mãe para a casa da sua avó onde viveu juntamente com o seu tio/padrinho.
Mais tarde a sua mãe voltou a casar, por imposição da avó, pois uma mãe solteira era nessa altura mal visto aos olhos da sociedade. Dessa relação resultaram duas crianças, irmãs de Tomané. Atualmente, e mesmo encontrando-se no estrangeiro, conta sempre com o apoio incondicional das suas irmãs.
Tomané refere que teve uma trajetória infantil e juvenil onde nunca lhe faltou nada, quer financeiramente, quer pelos laços de afetos que se criaram numa família que considera ter sido sempre muito unida. Apesar de ter sido criado e educado principalmente pela avó, foi o padrinho o seu grande porto de abrigo, tendo-o ajudado quer a nível profissional, quer financeiramente na atividade desportiva que na altura praticava, nomeadamente o Motocross.
Após a morte da sua mãe e pouco tempo depois do seu padrasto, Tomané ficou a viver com a sua avó e padrinho.
Após ter saído da tropa com então 18-19 anos, Tomané começou a namorar uma rapariga e dessa relação resultou uma filha com 12 anos. Casou aos 22 anos com uma rapariga que conheceu na freguesia de Milhazes em Barcelos, num café perto do seu local de trabalho.
Quis constituir família e foram viver para um apartamento oferecido pelo padrinho, com o objetivo de refazer a vida dele e sair do vício da droga. Quando a sua avó morreu, Tomané sofreu bastante e sem forças voltou novamente para o consumo de drogas.
Mesmo tendo ingressado em clínicas de desintoxicação, nunca deixou de se preocupar pela sua mulher e filha. Atualmente, e divorciado da mãe da sua filha, mantém uma relação com uma mulher há 1 ano e meio.




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