Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno



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Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno 

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II. Perspetiva histórica da descoberta da aspirina

 

A terapia com plantas medicinais ou fitoterapia foi uma das primeiras técnicas de cura e 

de  prevenção  de  doenças  utilizada  pelo  Homem.  Na  tentativa  de  prevalecer  sobre  a 

doença  surge  a  necessidade  de  testemunhar  e  perceber  os  potenciais  benefícios  das 

plantas contribuindo, assim, para o desenvolvimento de fármacos. 

 

 



Figura 1 – Cronograma da história da aspirina 

Adaptada de Fuster et alli. (2011) 

 

A  história  do  salgueiro  (Salix  sp.)  remonta  às  civilizações  primitivas,  especialmente  à 

Mesopotâmia  há  cerca  de  6000  anos,  quando  as  plantas  foram  exploradas  para 

alimentos  e  como  fonte  de  tratamento  de  doenças.  Experiências  de  ambas  as 

civilizações,  Assírios  (4000  AC)  e  Babilónios  (605-562  AC),  no  atual  Iraque, 

contribuíram  para  o  desenvolvimento  dos  medicamentos.  No  Código  de  Hamurabi 

(1750 AC), encontraram-se vários registos sobre a história médica que contribuiu para a 

longa  cadeia  de  conquistas  farmacológicas.  Nessas  civilizações,  cirurgiões  e  médicos 

usavam  nebulizações  à  base  de  extrato  de  salgueiro  para  curar  doenças,  dores, 

inflamações e febre comum. Foram encontradas placas de argila, deixadas pelos assírios 

do  período  sumério,  descrevendo  o  uso  de  salgueiro  em  tais  condições  (Lévesque  & 

Lafont,  2000).  De  acordo  com  essas  inscrições,  os  Sumérios  foram  a  primeira 

civilização conhecida a registar receitas médicas para a dor (Wells, 2000). 



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Também  os  Egípcios  (1300  AC)  usaram  as  folhas  de  salgueiro  para  tratar  doenças 

inflamatórias. Incluíram o salgueiro na lista de remédios à base de plantas no “Papiro de 

Ebers”  (Nunn,  1996),  no  antigo  Egito,  que  descreve  o  efeito  analgésico  das  folhas  de 

salgueiro para o alívio das feridas inflamadas (Jack, 1997).

 

A casca do salgueiro foi ainda explorada pelas civilizações chinesas e gregas há mais de 



2000 anos atrás, para aliviar a febre e dor (Riddle, 1999). Os Chineses usaram cascas de 

álamo  (Populus  alba)  e  de  salgueiro-chorão  (Salix  babylonica)  durante  séculos  para 

tratar  febre  reumática,  constipações,  hemorragias,  bócio  e  como  antisséptico  para 

feridas em geral (Rainford, 1984). Os gregos, por sua vez, também usaram o salgueiro 

como  uma  forma  de  medicina.  O  filósofo,  Hipócrates  (460-370  AC)  recomendava 

mascar casca de salgueiro a pacientes que sofriam de dor e febre  e também prescrevia 

uma mistura de folhas de salgueiro para aliviar as excruciantes dores de parto (Riddle, 

1999).  Cerca  de  500  anos  mais  tarde,  outro  médico  grego,  Dioscórides,  também 

prescrevia  a  casca  do  salgueiro  para  reduzir  os  sintomas  de  inflamação,  e  o  seu  uso 

continuou  devido  às  suas  propriedades  analgésicas  e  anti-inflamatórias.  Um  outro 

médico  grego,  Celsius,  aceite  como  o  autor  dos  famosos  sintomas  da  inflamação: 

vermelhidão, inchaço com calor e dor”, tratava as mulheres com prolapso uterino com 

folhas de salgueiro fervidas em vinagre. Além disso, também Plínio Romano descreve 

calos  tratados com  uma  pasta de casca de salgueiro queimado, e Galeno  tratou  feridas 

sangrentas e úlceras com folhas dessa árvore (Wells, 2003).  

A era moderna da descoberta da aspirina começou no século  XVIII, quando se reuniu 

mais informação científica.  

Em  1763,  o  reverendo  Edward  Stone  relatou  o  efeito  benéfico  da  casca  de  salgueiro, 

numa carta dirigida à Royal Society. Aqui, Stone descreveu os resultados de um estudo 

clínico, ao tratar pacientes que sofriam de malária (febre, geralmente considerado como 

sendo malária) com  casca de salgueiro  em  pó num  pouco de  água. Cento  e treze  anos 

mais  tarde,  Thomas  MacLagan,  um  médico  escocês,  realizou,  em  1876,  um  estudo 

clínico para testar a eficácia da terapêutica com salgueiro em pó. Tratou-se a si próprio 

com  sucesso,  antes  de  aplicar  este  extrato  aos  seus  pacientes  no  tratamento  do 

reumatismo  agudo.  Os  seus  tratamentos  resultaram  numa  redução  completa  da  febre  e 

da  inflamação  das  articulações.  No  entanto,  foi  apenas  a  partir  de  1971  que  a  exata 




Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno 

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farmacologia da aspirina foi elucidada e se demonstrou que esta interfere com a síntese 

de prostaglandinas (PGs) (MacLagan, 1876). 

Estudos  epidemiológicos  modernos  da  década  de  1980  indicaram  que  aspirina  é 

inversamente  associada  ao  risco  de  desenvolver  cancro  colorretal.  Estudos 

epidemiológicos e biológicos, têm vindo, desde então, a concentrar-se na aspirina como 

um  fármaco  com  potencial  anticancerígeno.  Além  disso,  tem  sido  demonstrado  que  a 

aspirina,  em  concentrações  relativamente  elevadas  (5-20  mM),  possui  um  potencial 

efeito  inibitório  nas  células  de  proliferação  em  várias  populações  de  células 

cancerígenas. Estas doses, no entanto, podem ter diversos efeitos, e, consequentemente, 

limitar o potencial anticancerígeno direto. 

 




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