Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno



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2.  Ensaios com aspirina no CCR 

Relativamente  aos  estudos  realizados  para  avaliar  o  efeito  da  aspirina  no  carcinoma 

colorretal, tem sido demonstrado o efeito protetor dos AINEs, não só na prevenção da 

recorrência  de  adenomas  como  também  na  redução  da  incidência  de  cancro  e 

consequentemente,  na  redução  da  mortalidade  por  CCR  (cerca  de  50%)  (Thun  et  alli

2012).  No  entanto,  o  efeito  protetor  parece  depender  do  tipo  de  fármaco,  da  dose  e, 

principalmente, do tempo de exposição (pelo menos dez anos de uso regular) (Rothwell 

et alli. 2011). 

No  referido  estudo  de  Rothwell  et  alii.,  relacionou-se  os  eventos  de  cancro  com  os 

resultados  obtidos  em  ensaios  inicialmente  projetados  para  avaliar  o  efeito  da  aspirina 

na prevenção de doenças cardiovasculares (Rothwell et alli. 2010). Os ensaios incluíram 

populações  de  pacientes  de  baixo  risco  cardiovascular  (n  =  10,224),  assim  como 

indivíduos  com  maior  risco  (história  de  acidente  isquémico  transitório;  acidente 

vascular cerebral menor ou oclusão arterial da retina, n = 3,809). Verificaram então que 

o  tratamento  com  doses  de  aspirina  entre  75  e  500  mg/dia  reduz  em  24%  o  risco  de 

CCR e em 35%, a mortalidade associada, observando-se um aumento do benefício em 

função  de  uma  maior  duração  do  tratamento.  Importa,  no  entanto,  salientar  que  o 

presente  ensaio  não  foi  originalmente  projetado  para  examinar  a  incidência  ou 

mortalidade por cancro, o que constitui uma limitação.  




Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno 

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Num  outro  estudo,  reuniram  resultados  obtidos  em  oito  ensaios  de  prevenção 

cardiovascular,  relacionando-os  com  os  efeitos  da  aspirina  na  mortalidade  associada  a 

todos os tipos de cancros (Rothwell et alli. 2011). Os ensaios incluíram um total de 25 

570 pacientes e 674 mortes relacionadas com cancro durante os períodos de avaliação, 

em que os resultados apontaram para uma associação entre as tomas diárias de aspirina 

em doses compreendidas entre 75 a 1200 mg/dia e a redução de risco de 21% de morte 

por qualquer tipo de cancro, embora o benefício tenha apenas sido observado após cinco 

anos de acompanhamento. Em seis dos ensaios, com dados sobre o local específico da 

ocorrência de  cancro,  os  pacientes  apresentaram  um  risco reduzido  de morte por CCR 

(HR,  0,41,  95%  CI,  0,17-1,00,  p  =  0,05),  com  início  cinco  anos  após  a  iniciação  do 

tratamento com aspirina. Por último, nos dois maiores ensaios realizados em indivíduos 

saudáveis [Physicians’s Health (PHS) e Women’s Health (WHS)], a aspirina (325 e 100 

mg,  respetivamente)  não  reduziu  significativamente  o  risco  de  CCR  (Cook  et  alli

2005). A ausência de efeito da aspirina nestes ensaios pode ser explicada por algumas 

limitações  na  conceção  dos  mesmos,  ou  seja,  a  duração  ou  acompanhamento  do 

tratamento inadequado. 

O  benefício  da  utilização  de  aspirina  na  prevenção  do  CCR  também  foi extrapolado  a 

partir  de  ensaios  clínicos  randomizados  da  aspirina  na  prevenção  de  adenomas,  as 

principais  lesões  precursoras  da  maioria  dos  CCR.  Estes  podem  ser  úteis  na 

determinação  do  ponto  final  para  a  prevenção  do  CCR  uma  vez  que  o  seu 

desenvolvimento  é  consideravelmente  mais  curto  do  que  a  evolução  de  CCR,  que  por 

sua vez demoram entre 5-10 anos a desenvolver. 

Até  à  data,  foram  realizados  quatro  estudos  randomizados  e  controlados,  avaliando  a 

eficácia da aspirina na população de risco moderado (Logan et alli. 2008). Uma meta-

análise  de  dados  desses  quatro  estudos  exibiu  uma  redução  significativa  de  21%  no 

risco  de  recorrência  de  qualquer  tipo  de  adenoma  (RR,  0,79,  95%  CI,  0,68-0,92,  p  = 

0,002),  com  um  nível  moderado  de  heterogeneidade  entre  os  estudos  (34%)  (Cole  et 



alli.  2009).  Além  disso,  houve  uma  redução  de  7%  no  risco  absoluto  de  recorrência 

(diferença  de  risco  [RD],  0,07,  95%  CI,  0,11-0,04,  p  <0,0001),  sem  heterogeneidade 

estatística.  

Logan et alli. 2008 e Cole et alli. 2009 compararam a aspirina associada ao ácido fólico 

com  o  placebo  e  não  encontraram  diferenças  significativas  no  risco  relativo,  nem 



Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno 

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absoluto,  para  a  recorrência  de  qualquer  tipo  de  adenoma,  sem  heterogeneidade 

estatística  entre  esses  estudos.  A  possível  interferência  do  ácido  fólico  sobre  o  efeito 

quimiopreventivo  de  aspirina  pode  explicar  esses  resultados  e  essa  hipótese  deve  ser 

investigada  em  estudos  posteriores.  A  meta-análise  de  Cole  et  alli.  (2009)  incluiu 

também  os  resultados  após  um  ano  de  acompanhamento  num  dos  ensaios  clínicos 

randomizados,  o  “Association  pour  la  Prevention  par  l’Aspirine  du  Cancer 

Colorectal“(APACC)  que  envolveu  272  pacientes  com  adenomas  colo-retais  tratados 

com acetilsalicilato de lisina solúvel em doses de 160 mg/dia, 300 mg/dia ou placebo. O 

tratamento  com  qualquer  uma  das  doses  de  aspirina  foi  associado  a  uma  redução 

significativa  no  risco  de  adenoma  recorrente  após  um  ano.  No  entanto,  não  foi 

demonstrada  redução  estatisticamente  significativa  na  recorrência  de  adenoma  após 

quatro anos de seguimento (Benamouzig et alli. 2012). Estudos adicionais encontram-se 

em curso, incluindo o estudo Japan Colorectal Aspirin Polyps Prevention (JCAPP), no 

qual se avalia o efeito da aspirina 100 mg/dia na ocorrência de tumores recorrentes dois 

anos  após  a  remoção  endoscópica  de  adenomas  colo-retais  e  cancro  numa  população 

japonesa (Ishikawa et alli. 2009). 






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