Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno



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Potencial utilização do ácido acetilsalicílico como anticancerígeno 

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VI. Ensaios clínicos

 

 



1.  Ensaios com aspirina em todos os cancros 

Como  referido  anteriormente,  existe  uma  grande  variedade  de  evidências  clínicas  que 

demonstram  que  a  aspirina  pode  proteger  contra  diferentes  tipos  de  cancro, 

especialmente  cancro  colorretal  (Thun  et  alli.  2012),  sugerindo  que  o  efeito 

antiplaquetário da aspirina desempenha um papel no seu efeito anticancerígeno. Apesar 

de  indiretas,  surgiram  provas  que  sustentam  esta  ideia,  nomeadamente  o  “Ensaio  de 

Prevenção de Trombose”, que por sua vez envolveu a administração diária de 75mg de 

aspirina de libertação controlada, atuando, assim, quase exclusivamente por inibição da 

ciclooxigenase  COX-1  (Charman,  1993).  Este  ensaio  clínico  randomizado,  que  tinha 

como  objetivo  avaliar  o  efeito  do  ácido  acetilsalicílico  no  desenvolvimento  da 

trombose,  acabou  por  revelar  resultados  surpreendentes:  além  dos  efeitos  anti-

trombóticos obtidos com doses de aspirina compreendidas entre 75 - 100mg, com uma 

inibição  quase  completa  da  atividade  da  COX-1,  foi  detetado  também  o  efeito 

preventivo do cancro, embora a longo prazo (Rothwell et alli. 2010). Constatou-se ainda 

que o efeito preventivo máximo seria detetável, em doses baixas administradas uma vez 

por  dia,  em  análises  a  longo  prazo,  feitas  em  ensaios  clínicos  cardiovasculares 

randomizados (Rothwell et alli. 2010), em ensaios de recorrência de adenomas (Logan 

et  alli.  2008),  assim  como  na  maioria  dos  estudos  de  observação  realizados  em 

diferentes  condições  e  metodologias  (Cuzick  et  alli.  2009).  De  um  modo  geral,  estes 

resultados  mostram  que  os  efeitos  inibitórios  máximos  da  aspirina  em  doses  baixas, 

coincidem  mais  ou  menos  quer  com  o  seu  benefício  clínico  na  redução  do  risco  de 

acontecimentos  clínicos  cardiovasculares,  quer  na  prevenção  do  cancro  (Charman, 

1993). 

Mesmo que indireta, esta descoberta revela extrema importância para apoiar a hipótese 

de que o efeito antiplaquetário da aspirina é um mecanismo fundamental não só para a 

prevenção  de  eventos  vasculares,  como  também  na  tumorigénese  (Thun  et  alli.  2012; 

Patrono et alli. 2001; Dovizio et alli. 2013) . 

Um estudo recente realizado por Rothwell et alli. (2011) mostrou que a aspirina reduziu 

o  risco  de  morte  por  cancro  em  cerca  de  20%  nos  ensaios  cardiovasculares,  devido 



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principalmente a uma redução de 34% nas mortes após cinco anos. O acompanhamento 

pós-ensaio,  a  longo  prazo,  demonstrou  que  o  risco  de  morte  por  cancro  manteve-se 

cerca de 20% menor nos grupos tratados com aspirina, e esse benefício aumentou com a 

duração do tratamento prevista. O período de latência até se observar um efeito sobre as 

mortes foi cerca de cinco anos para o esófago, pâncreas, cérebro e cancro de pulmão, no 

entanto mais demorado para o estômago, colo-retal e cancro da próstata. Para o cancro 

do pulmão e do esófago, o benefício foi confinado a adenocarcinomas. Esses resultados 

forneceram, portanto, a primeira evidência confiável de que a aspirina previne o cancro 

nos  seres  humanos,  o  que  é  consistente  com  as  previsões  anteriores  de  efeitos  sobre 

cancro  de  esófago,  estômago,  pâncreas,  pulmão,  próstata  e,  possivelmente,  cérebro 

(Sivak et alli. 2004). A estimativa do efeito da aspirina sobre as mortes por cancro nos 

primeiros  cinco  anos  de  ensaios  não  exclui  um  benefício  clinicamente  importante  a 

curto prazo para os cancros. Rothwell et alli. (2011) estudaram as mortes por cancro em 

todos  os  ensaios  com  aspirina  administrada  diariamente  versus  controlo  e  o  curso 

temporal  dos  efeitos  da  aspirina  em  baixas  doses  sobre  a  incidência  de  cancro,  bem 

como  outros  resultados  de  ensaios  de  prevenção  primária.  Usando  dados  de  pacientes 

individuais de todos os ensaios clínicos randomizados de aspirina diariamente em baixa 

dose na prevenção primária de eventos cardiovasculares, estes mostraram que a aspirina 

também  reduz  a  incidência  de  cancro,  quer  em  homens  quer  em  mulheres,  bem  como 

em fumadores e não-fumadores. Os efeitos da aspirina sobre outros desfechos principais 

(ou  seja,  risco  de  eventos  cardiovasculares  e  o  aumento  do  risco  de  hemorragia 

extracraniana) evoluem com a duração do tratamento. Curiosamente, a redução do risco 

de cancro é o único estatisticamente significativo a partir de três anos em diante. Além 

disso, Rothwell et alli. (2012) descobriram também que a prevenção de metástases com 

a  aspirina  poderia  explicar  a  redução  precoce  de  mortes  por  cancro.  Esta  descoberta 

sugere  que  a  aspirina  pode  ajudar  no  tratamento  de  alguns  tipos  de  cancro  e  contribui 

para o princípio da intervenção farmacológica para prevenção de metástases. 

No total, os resultados das análises de Rothwell et alli. (2012) sugerem que, em termos 

de  prevenção  da  progressão  do  cancro,  o  efeito  preventivo  da  aspirina  é  maior  em 

adenocarcinomas.  Estes  incluem  os  cancros  do  intestino,  CCR,  especialmente  alguns 

tipos de cancro do pulmão e a maioria dos cancros da mama e da próstata. Em termos de 

prevenção,  a  longo  prazo,  do  desenvolvimento  de  novos  cancros,  as  maiores  reduções 



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são observadas  são no CCR e no cancro do esofágico, com  efeitos  menores  em  vários 

outros tipos de cancro mais comuns. 

Um  outro  estudo  revelou  que  em  ensaios  clínicos  randomizados  de  prevenção 

secundária, o uso de aspirina está associado a uma redução de eventos cardiovasculares 

não-fatais  (25  a  30%)  e  eventos  fatais  (de  10  a  15%)  onde  o  benefício  máximo  foi 

detetado  em  baixas  doses  (75-150  mg  por  dia)  (Baigent,  2002).  Em  doses  mais 

elevadas,  foi  demonstrada  uma  tendência  para  uma  eficácia  reduzida  (Baigent,  2002), 

possivelmente  devido  à  inibição  da  prostaciclina  dependente  da  COX-2.  Em  doses 

superiores a 325 mg por dia, a aspirina é utilizada como um analgésico eficaz e agente 

anti-inflamatório, que atua por inibição das prostaglandinas dependentes da COX-2 em 

células inflamatórias e da medula espinal.  






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