Português: trilhas e tramas, volume 2



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Nas trilhas do texto

A seguir, você vai ler um trecho do Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, em que as almas chegam a um braço de mar onde estão ancoradas as barcas que as conduzirão ao céu ou ao inferno.



Auto da barca do inferno

Gil Vicente

[...]


(Vem um Sapateiro carregado de formas e diz na barca do inferno):

Sapateiro – Ou da barca!

Diabo – Quem vem i?
Santo sapateiro honrado,
como vens tão carregado!

Sapateiro – Mandaram-me vir assi. Mas para onde é a viagem?

Diabo – Para a terra dos danados.
condenados,amaldiçoados

SapateiroE os que morrem confessados, onde tem sua passagem?

Diabo – Não cures de mais linguagem, qu’esta é tua barca – esta.

Sapateiro – Renegaria eu da festa,
e da barca, e da barcagem!
Como pod’rá isso ser,
poderá
confessado e comungado?

Diabo – Tu morreste excomungado,
e não no quiseste dizer:
esperavas de viver,
calaste dez mi enganos.
Tu roubaste, bem trinta anos,
o povo com teu mister.
ofício, profissão
Embarca, hora má pra ti;
que há já muito que t’espero.

Sapateiro – Digo-te que renão quero.
o mesmo que “não e não”

Diabo – Digo-te que si, ressi.
o mesmo que “sim e sim”

SapateiroQuantas missas eu ouvi
não m’hão elas de prestar?
não me haverão

Diabo – Ouvir missa, então roubar,
é caminho para aqui.

SapateiroE as ofertas, que darão?
E as horas dos finados?
referência às oferendas que se faziam aos santos, em razão de promessas e orações pela sua alma

DiaboE os dinheiros mal levados,
que foi da satisfação?

algo como: “Que tipo de satisfação receberam aqueles a quem você explorou?”

VICENTE, Gil. Auto da barca do inferno. In: Três autos e uma farsa. Lisboa: Editorial Verbo, 1971. p. 51-53.


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