Portugues ling int vol3 pnld2018 capa al pr indd



Baixar 39.74 Mb.
Pdf preview
Página264/273
Encontro07.02.2022
Tamanho39.74 Mb.
#21486
1   ...   260   261   262   263   264   265   266   267   ...   273
Linguagem Interacao 3 MP 0019P18013 PNLD2018
pontuaçãousos e significações, de autoria de Véronique 

Dahlet, professora associada do Departamento de letras 

modernas da Faculdade de Filosofia, letras e Ciências 

Humanas da universidade de São Paulo (FFlCH). 

Seus estudos tratam, entre outros assuntos, daquilo que 

vem sendo chamado pelos linguistas de “teoria da escrita”. 

um dos tópicos dessas pesquisas é a pontuação. 

em seu livro, Dahlet estuda o funcionamento da pon-

tuação em português com base na análise de textos jorna-

lísticos brasileiros e de textos literários recentes. Analisa 

igualmente o modo como as gramáticas da língua portu-

guesa tratam da pontuação, constatando que muitas vezes 

isso é feito de maneira insuficiente ou redutora. 

os extratos reproduzidos a seguir fazem parte do 

Capítulo 11 do livro, no qual ela tece conclusões a respeito 

Linguagem_Interacao_LP_V3_PNLD2018_361a414_MP_geral.indd   396

5/28/16   7:36 PM



MANUAL DO PROFESSOR

397


da pontuação em português e ainda sugere encaminhamen-

tos metodológicos para uma didática da pontuação. 

em sua obra, Dahlet cria o neologismo escriptor, para 

se referir à noção “o mais neutra possível de quem escreve, 

sem se confundir com a noção de ‘escritor’ (o autor de uma 

obra literária de ficção)”. 

TExTO 3

Relação entre a pontuação e o oral

Véronique Dahlet

O debate sobre a pontuação na sua relação ao oral 

continua, até hoje, aberto. No entanto, a divergência dos 

pontos de vista depende estreitamente da posição teóri-

ca a partir da qual o escrito e o oral são analisados. 

Destacam-se três correntes. A primeira, fonocentrista, 

leva a totalidade de sua reflexão sobre a língua para o 

oral, que, por sua vez, serve como referência quase exclu-

siva para analisar o escrito. A segunda corrente, fonográ-

fica, coloca o escrito na subordinação ao oral, admitin-

do, todavia, propriedades específicas do escrito. Enfim, a 

última corrente, autonomista, aborda o escrito numa 

relação de independência em relação com o oral.

A corrente fonocentrista se fundamenta na prima-

zia cronológica do oral. Cumpre à escrita perenizar a in-

formação pela fixação da matéria fônica: assim, induz-

-se, espontaneamente, que ela é um derivado, uma ima-

gem do oral, mas uma imagem deformada, incompleta. 

De Platão a Lévi-Strauss, passando por Saussure, a escri-

ta comporta a marca da perda e de uma notória inferio-

ridade em relação com o oral.

A função de representação do oral pelo escrito é cen-

tral e constitui uma razão suficiente para circunscrever o 

escrito na subordinação da 

phonè, apesar da diferença do 

sistema — gráfico — que condiciona sua realização.

No que diz respeito às correntes fonocentrista (de fa-

to, pouco representada hoje em dia) e fonográfica, tudo 

leva a crer que permanecem, mesmo que diversamente, 

habitadas pela questão da origem. A antecedência filogê-

nica do oral em relação com o escrito não deve deixar pre-

valecer o processo diacrônico em detrimento da situação 

em sincronia, pois o desenvolvimento formidável do es-

crito, tanto no plano técnico como no quantitativo, faz 

com que nossa memória e nossa experiência linguageira 

fiquem marcadas tanto pelo oral quanto pelo escrito.

A antecedência do oral reencontra-se também 

quando está em questão o processo de aprendizagem na 

criança, que aprende espontaneamente a falar antes de 

ter acesso à escrita. Ora, como pertinentemente nota 

Rey-Debove

1

 ao longo da aprendizagem escolar de uma 



língua estrangeira, são muitos os casos em que a palavra 

1

 reY-DeBoVe, Josette. À procura da distinção oral/escrito. In: CATACH, 



Nina. Para uma teoria da língua escrita. São Paulo: ática, 1996. 

oral é decodificada pelo escrito; é, ainda, o caso em lín-

gua materna, quando na leitura se encontram palavras 

novas cuja pronunciação é desconhecida. Enfim, exis-

tem situações em que o escrito constitui o único canal 

para se comunicar: Banfield

2

 menciona “o fato de que os 



surdos podem muito bem saber ler sem saber ler em voz 

alta”, de tal modo que “a escrita torna possível o fato de 

curto-circuitar a realização fônica da língua”.

Assim, assumo a postura segundo a qual “a escrita 

não pode ser tida como uma representação da fala”

3



Nessa perspectiva, os sinais de pontuação também não 

podem ser considerados como marcas, mesmo que im-

perfeitas, da voz na escrita e, sobretudo, da entonação e 

das pausas.

Na primeira parte deste estudo, já levantei a questão 

da entonação. Citei, a respeito, Anis, que frisa o fato de 

que se pode apenas ver uma similitude funcional entre 

os sinais de pontuação (no escrito) e a entonação (no 

oral), pois ambos preenchem um papel sintático-semân-

tico e pragmático, principalmente.

[...]

Quanto ao fato de dizer que a pontuação indica as 



pausas (por exemplo, a da vírgula), o erro de abordagem 

procede do mesmo raciocínio que coloca o escrito como 

derivado do oral. Não vou, aqui, questionar a pertinência 

da noção de pausa quando aplicada ao escrito, e sim li-

mitar-me a apresentar um argumento que invalida essa 

tomada de posição.

Suponhamos um segmento verbal que esteja espon-

taneamente oralizado e, depois, lido silenciosamente: a 

pausa respiratória não só pressuporia um isomorfismo 

exato na alternância entre expiração e inspiração em 

ambas as realizações (oral e escrito), como também 

pressuporia, dentro do próprio escrito, uma coincidên-

cia entre os momentos de inspiração e os lugares dos si-

nais de pontuação. Enfim, a pontuação indicadora de 

pausa implicaria que o olho, na leitura silenciosa, regu-

lasse a respiração. Suponhamos, agora, uma situação em 

que frases foram escritas e, em seguida, lidas em voz al-

ta: tal foi o protocolo de pesquisa efetuado pela linguista 

Védénina, que demonstrou, nesse caso também, a au-

sência de isomorfismo entre pausas respiratórias no oral 

e sinais de pontuação. A partir de um 

corpus de mil fra-

ses, percebeu-se que “o número de pausas ultrapassa o 

número de sinais de pontuação com 30% a mais, o que 

resulta numa média de três pausas orais para um sinal 

de pontuação”

4

. A pesquisa de Védénina vem contradizer 



a afirmação de que “a utilização de uma grade de con-

cordância entre entonação e sinais de pontuação não é 

2

 BANFIelD, A. Phrases sans paroles: théorie du récit et du style indirect libre. 



Paris: Seuil, 1995.

3

 mArCuSCHI, l. A. Da fala para a escrita. São Paulo: Cortez, 2000. 



4

 

JAFFrÉ, J. P. La ponctuation en français: études linguistiques contemporai-



nes. la Ponctuaction. metz: Cresef, jun. 1991.

Linguagem_Interacao_LP_V3_PNLD2018_361a414_MP_geral.indd   397

5/28/16   7:36 PM



MANUAL DO PROFESSOR

398


possível senão na atividade simétrica, isto é, quando ora-

lizamos frases escritas”

5



Tudo indica, portanto, que a ambiguidade (a não ser 



o erro) trazida pelo paralelismo entre pontuação e oral 

reside no fato de expressar a similaridade funcional entre 

entonação e sinais de pontuação no âmbito da primazia 

do oral sobre o escrito, de tal modo que a função de uma 

grande parte dos sinais de pontuação fica interpretada 

como tentando restituir os componentes do oral.

Por isso, é preciso distinguir claramente a fala e a es-

crita em suas condições de código. Neste caso, são os as-

pectos sonoro e gráfico que contam de modo essencial

6



pois confusões continuam marcando estes últimos. 

Vimos o caso da pontuação, mas poderíamos também 

pensar no ritmo, por exemplo, muitas vezes assimilado ao 

oral ou, quando incluído ao escrito, limitado apenas à poe-

sia versificada. Entretanto, cabe frisar que, quando consi-

deradas como “atividades comunicativas”, o ângulo de 

análise difere totalmente e a relação entre escrita e fala se 

funda num 

continuum e não numa dicotomia polarizada

7

.



Aquisição da pontuação

Convém abordar, aqui, a dimensão evolutiva da pon-

tuação: há uma lógica da pontuação, que possui sua coe-

rência interna e se modifica no decorrer da aprendizagem 

da escrita. Nessa perspectiva, o psicolinguista Fayol de-

monstrou que, antes mesmo de adquirir um determinado 

grau de controle sintático, é possível observar, em reda-

ções de crianças, uma certa lógica no emprego da pontua-

ção, apesar do número muito reduzido de sinais emprega-

dos. Assim, experiências mostraram que, na verdade, a 

“pontuação é empregada para indicar o grau de separação 

entre elementos adjacentes na estrutura de superfície” 

(Fayol & Abdi, 1988: 265)

8

. A criança, desde os primeiros 



anos de escrita, utiliza esses sinais de maneira condizente 

com o 


script, isto é, com “uma estrutura cognitiva que re-

mete a uma série relativamente estável de eventos” (ibi-

dem: 266). Isso permite que se possa observar o fato de 

que, quando se trata de colocar na sequência linear dois 

eventos cuja ligação é sentida como mais frouxa, há mui-

tos casos em que se encontra um sinal de segmentação de 

maior amplitude (já que a segmentação é sentida como 

mais forte). Inversamente, quando se trata de juntar dois 

eventos cuja ligação é sentida como mais próxima, então, 

domina o sinal de segmentação de amplitude menor, ou 

seja, a vírgula. Assim, por exemplo, a partir de um 

script tal 

como “João vai ao restaurante” (ibidem: 271), o ponto é 

que surge entre as três etapas do 

script, que são: tempo 

5

 BÉGuelIN, m. J. De la phrase aux énoncés: grammaire scolaire et descrip-




Baixar 39.74 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   260   261   262   263   264   265   266   267   ...   273




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal