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intrujeiro

? Mas eu, na altura, me concordei. 

Afinal se a vida da senhora já não tinha validade, o 

que importava era ajudar aqueles delírios dela. Talvez, 

quem sabe, pudessem essas loucuras sa-

rar a ferida que roubava o corpo dela. Mas 

já viu, senhor padre, o que eu me fui fin-

gir? Eu, Duarte Fortin, encarregado-geral 

dos criados, fugir com uma branca, prin-

cesa ainda para mais? Como se algum dia ela quisesse 

comigo, um tipo dessa cor e com pernação desigual. 

Não há dúvida, tenho alma de minhoca, hei-de rastejar 

no outro mundo. Os meus pecados pedem muitíssima 

reza. Reze-me, senhor padre, reze-me tanto! Porque o 

pior, o pior ainda não contei.

Eu carregava a princesa num caminho desviado. 

Ela nem deu conta desse desvio. Levei a senhora 

para a margem do rio, deitei-lhe sobre a relva macia. 

Fui ao rio buscar um pouco de água. Molhei a cara 

dela e o pescoço. Ela respondeu um arrepio, aquela 

máscara de pó começou de desmanchar. A princesa 

respirava aos custos. Olhou em volta e perguntou:

— A estação?

Resolvi mentir. Disse que era ali, mesmo ao lado. 

Estávamos naquela sombra só para esconder dos 

outros que esperavam no pátio da estação.

— Não podemos ser vistos, é melhor esperar o 

comboio neste esconderijo.

Ela, coitada, me agradeceu os cuidados. Disse que 

nunca tinha visto um homem tão bondoso. Pediu 

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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que lhe acordasse quando fosse a hora; estava muito 

cansada, precisava repouso. Fiquei a olhar para ela

apreciar sua tão próxima presença. Vi os botões do 

seu vestido, adivinhei toda a quentura que estava 

em baixo. O meu sangue ganhou pressas. Ao mesmo 

tempo, eu sofria medo. E se o patrão me apanhasse, 

ali no meio dos capins com a sua senhora? Era só 

apontar o focinho escuro da espingarda e disparar-

-me. Foi esse receio de ser espingardado que me tra-

vou. Fiquei demorado, só olhando aquela mulher 

no meu colo. Foi então que o sonho, mais uma vez, 

me começou a fugir. Sabe o que senti, senhor padre? 

Senti que ela já não tinha o seu próprio corpo: usava 

o meu. Está a perceber, padre? Ela tinha a pele bran-

ca que era a minha, aquela boca dela me pertencia, 

aqueles olhos azuis eram ambos meus. Era como se 

fosse uma alma distribuída em dois corpos contrá-

rios: um macho, outro fêmea; um preto, outro branco. 

Está-se a duvidar? Fique a saber, padre, que os opos-

tos são os mais iguais. Não acredita, veja: o fogo não 

é quem se parece mais ao gelo? Ambos queimam e, 

nos dois, só através da morte o homem pode entrar.

Mas se eu era ela, então, estava eu a morrer no 

meu segundo corpo. Assim, me senti enfraquecido, 

desistido. Caí ao lado dela e ficámos os dois sem 

mexer. Ela, de olhos fechados. Eu evitando a so-

nolentidão. Sabia que se fechasse os olhos, nunca 

mais havia de abrir-me. Eu já estava muito interno, 

não podia descer mais. Há momentos que ficamos 

muito parecidos com os mortos e essa semelhança 

dá força aos defuntos. É isso que eles não perdoam: 

é nós, os vivos, sermos tão parecidos com eles.

E sabe como salvei, padre? É porque enfiei os 

braços na terra quente, como faziam aqueles mi-

neiros moribundos. Foram as minhas raízes que me 

amarraram à vida, foi isso que me salvou. Levantei, 

todo suado, cheio das febres. Resolvi sair dali, sem 

demora. A princesa ainda estava viva e fez um gesto 

para me parar. Desprezei o pedido. Voltei para casa 

enquanto sentia aquele mesmo aperto de quando 

abandonei os sobreviventes na mina. Quando che-

guei, disse ao patrão: encontrei a senhora já morta, 

numa árvore perto da estação. Acompanhei-lhe 

para ele mesmo confirmar. Na tal sombra, a prin-

cesa ainda respirava. Quando o patrão se baixou, 

ela agarrou os ombros dele e disse:

— Anton!

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O patrão ouviu aquele nome que não pertencia- 

-lhe. Mesmo assim beijou a testa dela, carinhoso. Fui 

buscar a carroça e, quando a levantamos, ela já esta-

va morta, fria como as coisas. Do vestido dela caiu, 

então, uma carta. Eu tentei apanhar mas o patrão 

foi mais rápido. Olhou com admiração o envelope 

e depois me espreitou o rosto. Fiquei, de queixo no 

peito, receando ele me perguntasse. Mas o patrão 

machucou o papel e meteu-lhe no bolso. Fomos em 

silêncio até casa.

No dia seguinte, eu fugi para Gondola. Até ago-

ra estou lá, no serviço dos comboios. De vez em 

quando, venho até Manica e passo no velho ce-

mitério. Joelho-me na campa da senhora e peço 

desculpa nem eu sei de quê. Não, por acaso, até sei. 

Peço perdão de eu não ser aquele homem que ela 

esperava. Mas esse é só um fingimento de culpa, 

o senhor sabe como é mentira esse meu joelha-

mento. Porque enquanto estou ali, frente à cam-

pa, só lembro o sabor do corpo dela. Por isso lhe 

confesso este azedo que me rouba o gosto da vida. 

Já pouco falta para eu sair deste mundo. Mesmo já 

pedi licença a Deus para morrer. Mas parece Deus 

não escuta esses pedidos. Como diz, padre? Não 

devo falar assim, desistido? Se é assim que eu me 

lembro de mim, viúvo de mulher que não tive. É 

que já me sinto tão pouco. A única alegria que me 

aquece, sabe qual é? É quando saio do cemitério 

e vou passear nas poeiras e cinzas de antiga mina 

dos russos. Aquela mina já fechou, faleceu junto 

com a senhora. Eu caminho-me lá sozinho. Depois 

sento num velho tronco e olho para trás, para esses 

caminhos onde pisei. E sabe o que vejo, então? Vejo 

duas pegadas, diferentes, mas ambas saídas do meu 

corpo. Umas de pé grande, pé masculino. Outras 

são marcas de pé pequeno, de mulher. Esse é o pé 

da princesa, dessa que caminha ao meu lado. São 

pegadas dela, padre. Não há certeza maior que eu 

tenho. Nem Deus me pode corrigir desta certeza. 

Deus pode não me perdoar nenhum pecado e eu 

arriscar o destino dos infernos. Mas eu nem me 

importo: lá, nas cinzas desse inferno, eu hei-de ver 

a marca desses passos dela, caminhando sempre 

a meu lado esquerdo.

COUTO, Mia. Cada homem Ž uma ra•a. Lisboa: Caminho, 1994. p. 37-48.

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

GuinŽ-Bissau

 Aproveite a leitura do conto 

de Mia Couto e trabalhe as 

divergências ortográficas do 

português do Brasil em rela-

ção ao português que se usa 

na África e na Europa. Comen-

te a pretensão do Acordo Or-

tográfico: uniformizar a 

escrita 


das palavras. É fundamental 

que os alunos entendam que 

não se deseja (nem se conse-

guiria) uniformizar a língua por-

tuguesa. O que se pretende é 

uniformizar a ortografia. Ainda 

comente a oposição estran-

geiro × nacional, que também 

aparece na literatura brasileira. 

Durante a primeira fase do 

Modernismo, essa reação foi 

radical e já se referia não ape-

nas à influência portuguesa, 

como no Romantismo, e sim 

a tudo o que fosse estrangei-

ro. Mostre ainda a questão 

da 

assimila•‹o do poeta pelo 



universo cultural europeu e a 

consciência disso.

Ansiedade

Carlos Semedo 

Visto fato

de corte moderno

gravata condizente

A camisa


De fibra sintética

assenta impecavelmente

sou peça

sombria


d’uma Europa

patética


Minha África distante...

A saudade faz-me louco

Quer ser esborrachado

Pelas patas

D’um elefante

SEMEDO, Carlos. Ansiedade. In: AUGEL, Moema Parente. O desafio do 




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