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Linguagem Interacao 3 MP 0019P18013 PNLD2018
moleque:

 

empregado 



domŽstico.

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Chama os criados, Fortin. Rápido, todos lá 

para fora.

Juntei os 

moleques

, mainatos e também o cozi-

nheiro gordo, o Nelson Máquina.

— Vamos para a mina. Depressa, subam todos 

na carroça.

Chegámos à mina, fomos dados as pás e começá-

mos a cavar. Os tectos da mina tinham caído, mais 

outra vez. Debaixo daquela terra que pisávamos 

estavam homens, alguns já muito mortos, outros a 

despedirem da vida. As pás subiam e desciam, ner-

vosas. Víamos aparecer braços espetados na areia, 

pareciam raízes de carne. Havia gritos, confusão 

de ordens e poeiras. Ao meu lado, o cozinheiro gor-

do puxava um braço, preparando toda a força dele 

para desenterrar o corpo. Mas o quê, era um braço 

avulso, já arrancado do corpo. O cozinheiro caiu 

com aquele pedaço morto agarrado em suas mãos. 

Sentado sem jeito, começou de rir. Olhou para mim 

e aquele riso dele começou a ficar cheio de lágrimas, 

o gordo parecia uma criança perdida, soluçando.

Eu, senhor padre, não aguentei. Descon-

segui. Foi pecado mas eu dei costas naquela 

desgraça. Aquele sofrimento era demasiado. 

Um dos mainatos me tentou segurar, me in-

sultou. Eu desviei o rosto, não queria que ele 

visse que eu estava a chorar.

Naquele ano, a mina caía pela segunda vez. Tam-

bém da segunda vez eu abandonava os salvamentos. 

Não presto, eu sei, senhor padre. Mas um inferno 

assim o senhor nunca viu. Rezamos a Deus para 

depois de falecermos, nos salvar dos infernos. Mas 

afinal os infernos já nós vivemos, calcamos suas 

chamas, levamos a alma cheia de cicatrizes. Era 

como ali, aquilo parecia uma machamba de areia 

e sangue, a gente tinha medo só de pisar. Porque 

a morte se enterrava nos nossos olhos, puxando a 

nossa alma com os muitos braços que ela tem. Que 

culpa tenho, diga-me com sinceridade, que culpa 

tenho de desconseguir peneirar pedaços de pessoa?

Não sou homem de salvar. Sou pessoa de ser 

acontecida, não de acontecer. Tudo isso eu pensa-

va enquanto regressava. Meus olhos nem pediam 

caminho, parecia eu caminhava em minhas próprias 

lágrimas. De repente, lembrei da princesa, parecia 

que escutava a sua voz pedindo socorro. Era como 

se ela estivesse ali, à esquina de cada árvore, supli-

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CAPÍTULO 8  DISSERTA‚ÌO EM PROSA

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cando de joelhos como eu estou agora. Mas eu, mais 

outra vez, negava dispensar ajudas, me afastava das 

bondades.

Quando cheguei na cubata custava-me ouvir 

aquele mundo em volta, cheio dos sons bonitos do 

anoitecer. Escondi-me nos próprios meus braços, 

fechei o pensamento num quarto escuro. Foi então 

que as mãos dela chegaram. Vagarmente, desenro-

laram aquelas cobras teimosas que eram os meus 

braços. Falou-me como se eu fosse criança, o filho 

que ela nunca teve:

— Foi desastre na mina, não foi?

Respondi só com a cabeça. Ela proferiu maldi-

ções na sua língua e saiu. Fui com ela, sabia que 

sofria mais que eu. A princesa sentou-se na sala 

grande e, em silêncio, esperou o marido. Quando o 

patrão chegou, ela levantou-se devagar e nas mãos 

dela apareceu o relógio de vidro. Esse que ela tanto 

me recomendava cuidados. Subiu o relógio bem 

acima da cabeça e, com força máxima, atirou-lhe 

no chão. Os vidros se espalharam, brilhantes grãos 

cobriram o chão. Ela continuou partindo outras 

louças, tudo fazendo sem pressas, sem gritos. Mas 

aqueles vidros cortavam a alma dela, eu sabia. O 

patrão, sim, gritou. Primeiro em português. Deu 

ordem para que parasse. A princesa não obedeceu. 

Ele gritou na língua, ela nem ouviu. E, sabe o que 

ela fez? Não, o senhor não pode imaginar, mes-

mo a mim me custa testemunhar-me. A princesa 

descalçou os sapatos e, olhando a cara do marido

começou a dançar em cima dos vidros. Dançou, 

dançou, dançou. O sangue que deixou, senhor pa-

dre! Eu sei, fui eu que limpei. Levei o pano, passei 

no chão como se cariciasse o corpo da senhora, 

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aifi/Arqui

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o da editora



consolando as tantas feridas. O patrão me ordenou 

que saísse, deixasse tudo como que estava. Mas 

eu recusei. Tenho que limpar este sangue, patrão. 

Respondi com voz que nem parecia minha. Deso-

bedecia eu? De onde vinha aquela força que me 

segurou no chão, preso na minha vontade?

E foi assim, o impossível verídico. Muito tempo se 

passando num súbito repente. Não sei se por motivo 

dos vidros, no seguinte dia, a senhora se adoeceu. 

Ficou deitada num quarto separado, dormia sozi-

nha. Eu fazia arrumação da cama enquanto ela des

-

cansava no sofá. Falávamos. O assunto não variava: 



recordações da sua terra, embalos de infância dela.

— Essa doença, senhora, com certeza são sau-

dades.

— Tode minha vide eshtá lá. O homem que amo 



eshtá na Rússia, Fartin.

Eu me oscilei, fingido. Nem não queria entender. 

— Chame-se Anton, esse é único sanhor de meu 

caração.


Estou a imitar as falas dela, não é fazer pouco. 

Mas eu guardo assim a confissão dela, desse tal 

amante. Seguiram-se confidências, ela sempre me 

entregando lembranças desse amor escondido. Eu 

tinha medo que as nossas conversas fossem ouvi-

das. Despachava o serviço às pressas só para sair do 

quarto. Mas, um dia, ela me entregou um envelope 

fechado. Era assunto de máximo segredo, ninguém 

nunca podia suspeitar. Me pediu para entregar 

aquela carta no correio, lá na vila.

Daquele dia em diante, ela sempre me entregava 

cartas. Eram seguidas, uma, outra, mais outra. Es-

crevia deitada, as letras do envelope tremiam com 

a febre dela.

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

Mas padre: quer saber a verdade? Eu nunca en-

treguei as tais cartas. Nada, nem uma. Este pecado 

tenho e sofro. Era o medo que travava as devidas 

obediências, medo de ser apanhado com aquelas 

provas ardendo em plena mão.

A pobre senhora me encarava com bondade

acreditando um sacrifício que eu nem fazia. Ela 

me entregava as correspondências e eu começava 

a tremer, parecia os dedos seguravam lume. Sim, 

digo certo: lume. Porque foi esse mesmo o destino 

de todas aquelas cartas. Todas eu deitei no fogareiro 

da cozinha. Ali foram queimados os segredos da 

minha senhora. Eu ouvia o fogo e parecia eram os 

suspiros dela. Caramba, senhor padre, estou a suar 

só de falar estas vergonhas.

Assim, passou-se o tempo. A senhora só piorava 

das forças. Eu entrava no quarto e ela muito me 

olhava, quase me furava com aqueles olhos azuis. 

Nunca perguntou se tinha chegado resposta. Nada. 

Só aqueles olhos roubados do céu me inquiriam em 

mudo desespero.

O médico, agora, vinha todos os dias. 

Saía do quarto, abanava a cabeça, negan-

do esperanças. Toda a casa se penum-

brava, as cortinas sempre fechadas. Só 

sombras e silêncios. Uma manhã vi a 

porta abrir-se quase uma fresta. Era a senhora que 

espreitava. Com um aceno, fez-me entrar. Perguntei 

as suas melhorias. Ela não respondeu. Sentou em 

frente do espelho e espalhou aquele pó cheiroso, 




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