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compounde

 onde dormiam 

os outros. Primeiro, neguei. Mas, no fundo, eu dese-

java ela fosse lá. Para ela ver que aquela miséria era 

muito inferior da minha. E, assim, me aceitei: saí-

mos no escuro a ver o lugar desses com patente de 

mainato. A princesa Nádia se encheu de tristeza as-

sistindo àquelas vivências. Ficou tão expressionada 

que começou a trocar as falas, a saltitar 

do português para o dialecto dela. Ela 

só agora entendia o motivo do patrão 

não lhe deixar sair, nunca autorizar. É 

só para eu não ver toda esta miséria, 

dizia ela. Reparei que chorava. Coitada 

da senhora, senti pena. Uma mulher 

branca, tão longe dos da raça dela, ali, 

no pleno mato. Sim, para a princesa, 

tudo aquilo devia ser mato, arredores 

de mato. Mesmo a grande casa, arru-

madinha segundo a vontade dos seus costumes, 

mesmo a sua casa era residência dos matos.

No regresso, eu me espetei num desses picos de 



micaia

. O espinho me entrou fundo no pé. A prin-

cesa me quis ajudar mas eu lhe afastei:

— Não pode mexer. Esta minha perna, senhora...

Ela compreendeu. Começou de me dar um con-

solo, que aquilo nem era defeito, o meu corpo não 

merecia nenhuma vergonha. Ao princípio, não gos-

tei. Suspeitei que sentisse pena, compaixonada, só 

mais nada. Mas, depois, me entreguei naquela do-

çura dela, esqueci a dor no pé. Parecia aquela perna 

ambulante já nem era minha.

Desde essa noite a senhora começou sempre a 

sair, visitar as redondezas. Aproveitava as ausências 

do patrão, mandava que lhe mostrasse os caminhos. 

Um dia destes, Fortin, havemos de partir cedo e ir 

até às minas. Me assustavam aqueles desejos dela. 

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

Eu conhecia as ordens do patrão, proibindo as saí-

das da senhora. Até que, uma vez, a coisa estalou:

— Os outros empregados me disseram que andas 

a sair com a senhora.

Sacanas, me queixaram. Só para mostrarem que 

eu, como eles, me baixava diante da mesma voz. A 

inveja é a pior cobra: morde com os dentes da pró-

pria vítima. E, então, nesse momento, eu me recuei:

— Não sou eu que quero, patrão. É a senhora que 

manda.


Viu, senhor padre? Num instante, eu estava ali 

denunciando a senhora, traiçoando a confiança que 

ela me punha.

— É a última vez que acontece, ouviste, Fortin?

Deixámos de ruar. A princesa me pedia, insistia. 

Só por um bocadinho de distância, Fortin. Mas 

eu não tinha espírito. E, assim, a senhora voltou a 

ficar prisioneira da casa. Parecia estátua. Mesmo 

quando o patrão chegava, já noite, ela se mantinha, 

parada, olhando o relógio. Ela via o tempo que 

só se mostrava aos que, na vida, não têm presen-

ça. O patrão nem se incomodava com ela: 

marchava direito para a mesa, ordenava por 

bebida. Ele comia, bebia, repetia. Nem repa-

rava a senhora, parecia ela era subexistente. 

Não batia nela. Porrada não é coisa para 

príncipe. Pancada ou morte eles não executam, 

encomendam os outros. Somos nós a mão das suas 

vontades sujas, nós que temos destino de servir. Eu 

sempre bati por mando de outros, espalhei porra-

darias. Só bati gente da minha cor. Agora, olho em 

volta, não tenho ninguém que eu posso chamar de 

irmão. Ninguém. Não esquecem esses negros. Raça 

rancorosa esta que eu pertenço. O senhor também 

é negro, pode entender. Se Deus for negro, senhor 

padre, estou frito: nunca mais vou ter perdão. E 

que nunca mais! Como diz? Não posso falar de 

Deus? Porquê, padre, será que ele me ouve aqui, 

tão longe do céu, eu tão minúsculo? Pode ouvir? 

Espera, senhor padre, me deixa só endireitar esta 

minha posição. Raios da perna, sempre nega me 

obedecer. Pronto, já posso me confessar mais. Foi 

como eu disse. Dizia, aliás. Não havia história em 

casa dos russos, nada não acontecia. Só silêncios e 

suspiros da senhora. E o relógio batucando aquele 

vazio. Até que, um dia, o patrão me apressou com 

gritarias:


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