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bater o xangui

Teoria parecerá um campeão. Não tem a perna par-



tida, também não exageremos. O enfermeiro diz que 

a coisa não é grave, só dolorosa. Passará depressa. 

Por que não dar-lhe uma possibilidade?

— Mas possibilidade de quê? Isso é que não com-

preendo!

— Pois não! Possibilidade de... sei lá! Ele é que sabe. 

Mas com certeza não quererá dizer, e concordo com 

ele. O camarada Teoria tinha duas hipóte-

ses: ir ou não ir. Escolheu a primeira. Tal-

vez mal, talvez sem muito reflectir, mas 

escolheu. E ele é homem para não voltar 

atrás na sua escolha. Se foi por teimosia 

ou não, isso só ele o sabe. O que sei é que 

os homens teimosos são-no geralmente 

até ao fim, sobretudo quando há um risco. Se quer 

partir a cabeça, se escolheu partir a cabeça, devemos 

dar-lhe a liberdade de partir a cabeça.

PEPETELA. 



Mayombe. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993. 

Pepetela, como é 

conhecido Artur 

Carlos Maurício 

Pestana dos Santos 

(1941), em 2008. 

Pepetela lutou 

ao lado do MPLA 

pela libertação 

do país. Sua obra 

trata da história 

contemporânea 

de Angola e 

dos problemas 

enfrentados pela 

sociedade angolana.

T

iago Queiroz/Ag•ncia Estado



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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor Valter Hugo Le-

mos, também angolano. De seu romance A máquina de fazer espa-

nhóis, selecionamos um trecho para você ler.

Nesse livro, narra-se a história de um barbeiro de 84 anos que, 

depois de ficar viúvo, passa a viver num asilo. O trecho transcrito, do 

terceiro capítulo do romance, mostra o dia em que o protagonista 

conversa pela primeira vez com um dos moradores do asilo. 

O escritor e músico angolano 

Valter Hugo Mãe (1971),  

em 2011.


TEXTO 27

um problema com o ser-se velho é o de julga-

rem que ainda devemos aprender coisas, quando, 

na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o 

sentido que assim seja para que nos afundemos in-

conscientemente na iminência do desaparecimen-

to. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga 

as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no 

resultado da conta é bem visto que a cabeça dos 

velhos se destitua da razão para que, tão de frente 

à morte, não entremos em pânico. a repreensão 

contínua passa por essa esperança imbecil de que 

amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis 

mais definidoras da vida, devemos só perder capaci-

dades. a esperança que se deposita na criança tem 

de ser inversa à que se nos dirige. e quando eu fico 

bloqueado, tão irritado com isso sem dúvida, não 

é por estar imaturo e esperar vir a ser melhor, é por 

estar maduro de mais e ir como que apodrecendo, 

igual aos frutos. nós sabemos que erramos e sabe-

mos que, na distracção cada vez maior, na perda de 

reflexos e de agilidade mental, fazemos coisas sem 

saber e não as fazemos por estupidez. fazemos por 

descoordenação entre o que está certo e o que nos 

parece certo e até sabemos que isso de certo ou er-

rado é muito relativo. é tudo mais forte do que nós.

foi ao fim de seis dias que disse a primeira pa-

lavra no lar, quando o senhor pereira estava ao pé 

do varandim inclinado para o salão e espreitava à 

procura do américo. o senhor pereira inclinou-se 

absurdamente, galgando com o corpo a barreira e 

observando o extenso compartimento, preocupado 

apenas com aquele objectivo tão definido, ao sair 

do meu quarto percebi-o avançado em perigo pelo 

espaço vazio, quase tombando por ali abaixo, um 

andar inteiro. apressei os passos até assomar ao 

seu pé e gritei, cuidado. com o susto da minha voz 

ele endireitou-se para saber quem chamava assim 

a atenção de quem. olhou-me e sorriu. achou que 

seis dias eram mais do que suficientes para que eu 

acabasse com o meu amuo. chegou perto e voltou 

a cumprimentar-me, como se novamente nos apre-

sentássemos, e congratulou-se com o fim da minha 

birra. foi pouco tempo, senhor silva, disse-me ele, 

eu estive quase três meses de bico calado, mas foi 

porque os meus filhos se portaram mal como uns 

estupores e só quiseram pôr a mão no meu dinhei-

ro, que ainda por cima não abundava. Pensei que 

estaria aqui a infernizar toda a gente até que me 

expulsassem, mas, quer ouvir, são profissionais e 

sabem que chegamos quase todos assim. eu não 

sorriria ainda. estava demasiado zangado para fa-

zê-lo, e só abriria a boca porque me parecera que 

ele se matava por distracção. não lho disse, e ele 

não se sentiu assustado. desceu comigo as escadas 

e encontrámos o américo no pátio das traseiras, a 

contar a alguns velhos histórias engraçadas sobre 

gente que ele inventava. sentámo-nos também. o 

senhor pereira disse, o nosso amigo já fala, é mais 

inteligente do que eu.

MÃE, Valter Hugo. A m‡quina de fazer espanh—is.  

São Paulo: Cosac Naify, 2011. p. 33-34.

 Chame a atenção dos alunos para o fato de o escritor, nesse livro, não utilizar inicial maiúscula depois de sinais de 

pontuação, como ponto-final, nem ao indicar nomes próprios. 

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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Mo•ambique

Dança tradicional em 

Moçambique, 2004. Por 

habitar o sudeste do 

continente africano, parte 

do povo moçambicano já 

havia estabelecido contato 

com outros povos — 

árabes, persas, indianos e 

chineses — bem antes de os 

portugueses aportarem em 

suas terras. Essa convivência 

gerou uma língua própria, 

o suaíli, que acabou 

incorporando termos do 

inglês e do português.  

José Craveirinha 

Sou analfabeto

A comida das livrarias

é indigerível para mim eu sei.

E sobre isso infelizmente só há duas opiniões

a tua opinião quando me bates.

A minha opinião quando apanho.

Sou analfabeto.

Mas na minha gramática

Ultrapasso todos os idiomas

Quando a minha pele sente na porrada

Qualquer tipo de abecedário.

CRAVEIRINHA, José. In: SANTILLI, Maria Aparecida. Paralelas e tangentes: entre literaturas de l’ngua portuguesa. São Paulo: Edusp, 2003. p. 56.

TEXTO 28


5

10

F



erhat Momade/Associated P

ress/Glow Images

Mia Couto, escritor moçambicano, é considerado um 

dos nomes mais importantes da nova geração de literatura 

africana de língua portuguesa. Vencedor de vários prêmios, 

tem a sua obra traduzida em várias línguas. Principais obras: 

Estórias abensonhadas (contos), O fio das missangas (contos), 

Terra sonâmbula (romance), Um rio chamado tempo, uma casa 

chamada terra (romance).

Leia, a seguir, um de seus contos.

Mia Couto (1955), em 2015. Esse escritor utiliza o vocabulário corrente em 

várias regiões do país para compor suas histórias.

F

rancois Guillot/Agência F



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O escritor moçambicano  

José Craveirinha [s.d.].

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

TEXTO 29

A princesa russa

Mia Couto

[...] Bastou correr fama que em Manica havia ouro 

e anunciar-se que para o transportar se construiria 

uma linha férrea, para logo aparecerem libras, às 

dezenas de milhar, abrindo lojas, estabelecendo car-

reiras de navegação a vapor, montando serviços de 

transportes terrestres, ensaiando indústrias, venden-

do aguardente, tentando explorar por mil formas não 

tanto o ouro, como os próprios exploradores do futuro 

ouro [...].

António Ennes, Moçambique, Relatório Apresentado ao Governo,  

Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1946, p. 27-30.

Desculpa, senhor padre, não estou joelhar direito

é a minha perna, o senhor sabe: ela não encosta 

bem junto com o corpo, esta perna magrinha que 

uso na esquerda.

Venho confessar pecados de muito tempo, sangue 

pisado na minha alma, tenho medo só de lembrar. 

Faz favor, senhor padre, me escuta devagar, tenha 

paciência. É uma história comprida. Como eu sempre 

digo: carreiro de formiga nunca termina perto.

O senhor talvez não conhece mas esta vila já be-

neficiou de outra vida. Houve os tempos em que 

chegava gente de muito fora. O mundo está cheio 

de países, a maior parte deles estrangeiros. Já enche-

ram os céus de bandeiras, nem eu sei como os anjos 

podem circular sem chocarem-se nos panos. Como 

diz? Entrar direito na história? Sim, entro. Mas não 

esqueça: eu já pedi um muitozito do seu tempo. É 

que uma vida demora, senhor padre.

Continuo, então. Nessa altura, chegou também na 

vila de Manica uma senhora russa, Nádia era o nome 

dela. Diziam era uma princesa lá na terra de onde viera.

Acompanhava seu marido Júri, russo também. 

O casal chegou por causa do ouro, como os outros 

todos estrangeiros que vinham desenterrar riquezas 

deste nosso chão. Esse Júri comprou as minas, na 

espera de ficar rico. Mas conforme dizem os mais 

velhos: não corras atrás da galinha já com o sal na 

mão. Porque as minas, padre, eram do tamanho de 

uma poeira, basta um sopro e o quase fica nada.


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