Portugues ling int vol3 pnld2018 capa al pr indd



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ma-

ximbombo

. Vou mais cedo... 

Multidão comemorando a independência de Angola, em 13 de novembro 

de 1975. 



giroflé:

 cravo em 

botão.

maximbombo:

 

ônibus de 



transporte público.

F

red Bridgland/K



eystone/Get

ty Images

— Não. Precisa de ser hoje. Preciso de saber tudo 

já. De dentro veio a resposta muda de Marina. A 

luz apagou-se. Ouvia-se chorar no escuro. Ricardo 

voltou-se lentamente. Passou as mãos nervosas pelo 

cabelo. E subitamente o facho da lanterna do polícia 

caqui bateu-lhe na cara. 

— Alto aí! O qu’é que estás a fazer? 

Ricardo sentiu medo. O medo do negro pelo polícia. 

Dum salto atingiu o quintal. As folhas secas ce-

deram e ele escorregou. O Toni ladrou. 

— Alto aí, seu negro. Para. Para, negro! 

Ricardo levantou-se e correu para o muro. O po-

lícia correu também. Ricardo saltou. 

— Para, para, seu negro! 

Ricardo não parou. Saltou o muro. Bateu no pas-

seio com violência abafada pelos sapatos de borra-

cha. Mas os pés escorregaram quando fazia o salto 

para atravessar a rua. Caiu e a cabeça bateu pesa-

damente de encontro à aresta do passeio. 

Luzes acenderam-se em todas as janelas. O Toni la-

drava. Na noite ficou o grito loiro da menina de tranças. 

Estava um luar azul de aço. A Lua cruel mostrava- 

-se bem. De pé, o polícia caqui desnudava com a 

luz da lanterna o corpo caído. Ricardo, estendido 

do lado de cá da fronteira, sobre as flores violeta 

das árvores do passeio. 

Ao fundo, cajueiros curvados sobre 

casas de pau a pique estendem a sombra 

retorcida na sua direcção. 

VIEIRA, Luandino. A cidade e a inf‰ncia. São Paulo: 

Companhia das Letras, 2007. p. 39-44.

 Sugerimos comentar estes aspectos: a descoberta das diferenças e a conscientização de que existe preconceito; além das diferenças étnicas, as sociais — 

Marina parece pertencer a uma classe social mais abastada que a de Ricardo; quanto à linguagem, mostre as pequenas diferenças entre o português angolano

 

e o do Brasil. Chame a atenção dos alunos para questões ortográficas e semânticas e mostre que a



 

sintaxe não oferece o menor problema de compreensão, não causando estranheza ao leitor brasileiro.

 

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

O romance Mayombe, de Pepetela, escrito em 1971 e editado pela primeira vez 

em 1980, traz a seguinte dedicatória: “Aos guerrilheiros do Mayombe, que ousaram 

desafiar os deuses abrindo um caminho na floresta obscura, vou contar a história 

de Ogun, o Prometeu africano”.

O assunto do romance é o cotidiano da guerrilha na floresta de Mayombe, 

durante a luta armada pela libertação de Angola. Apresenta vários narradores, 

todos militantes do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). 

A fala desses narradores em primeira pessoa se encaixa em uma narrativa em 

terceira pessoa. Por exemplo, no primeiro capítulo aparecem: Eu, o Narrador, sou 

Teoria; Eu, o Narrador, sou Milagre. Aparecerão ainda outros, como Eu, o Narrador, 

sou Mundo Novo; Eu, o Narrador, sou Chefe de Operações... Cada personagem 

desenvolve, pois, uma análise autônoma dos motivos pelos quais participam dessa 

luta pela independência. 

Vamos ler um trecho do primeiro capítulo do romance.

TEXTO 26

A missão


Pepetela

O rio Lombe brilhava na vegetação densa. Vinte 

vezes o tinham atravessado. Teoria, o professor, ti-

nha escorregado numa pedra e esfolara profunda-

mente o joelho. O Comandante dissera a Teoria para 

voltar à Base, acompanhado de um guerrilheiro. O 

professor, fazendo uma careta, respondera:

— Somos dezasseis. Ficaremos catorze.

Matemática simples que resolvera a questão: era 

difícil conseguir-se um efectivo suficiente. De mau 

grado, o Comandante deu ordem de avançar. Vinha 

por vezes juntar-se a Teoria, que caminhava em 

penúltima posição, para saber como se sentia. O 

professor escondia o sofrimento. E sorria sem âni-

mo. À hora de acampar, alguns combatentes foram 

procurar lenha seca, enquanto o Comando se reu-

nia. Pangu Akitina, o enfermeiro, aplicou um penso 

no ferimento do professor. O joelho estava muito 

inchado e só com grande esforço ele podia avançar.

Aos grupos de quatro, prepararam o jantar: arroz 

com corned-beef. Terminaram a refeição às seis da 

tarde, quando já o Sol desaparecera e a noite cobrira 

o Mayombe. As árvores enormes, das quais pendiam 

cipós grossos como cabos, dançavam em sombras 

com os movimentos das chamas. Só o fumo podia 

libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas 

e as lianas, dispersando-se rapidamente no alto, 

como água precipitada por cascata estreita que se 

espalha num lago. 

Eu, O Narrador, Sou Teoria.

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra rece-

bi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao 

branco defunto do meu pai, comerciante português. 

Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. 

Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu 

represento o talvez. Talvez é não para quem quer ou-

vir sim e significa sim para quem espera ouvir não. 

A culpa será minha se os homens exigem a pureza e 

recusam as combinações? Sou eu que devo tornar- 

-me em sim ou em não? Ou são os homens que de-

vem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as 

pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os 

maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros 

são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

O Comissário Político, alto e magro como Teoria, 

acercou-se dele.

— O Comando pensa que deves voltar ou espe-

rar-nos aqui. Dentro de três dias estaremos de volta. 

Ficará alguém contigo. Ou podes tentar regressar à 

Base aos poucos. Depende do teu estado.

O professor respondeu sem hesitar:

— Acho que é um erro. Posso ainda andar. Temos 

pouca gente, dois guerrilheiros a menos fazem uma 

diferença grande. O plano irá por água abaixo.

— É pouco, mas talvez chegue.

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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— Posso discutir com o Comando?

— Vou ver.

O Comissário voltou para junto do Comandante 

e do Chefe de Operações. Momentos depois, fazia 

sinal a Teoria. O professor levantou-se e uma dor 

aguda subiu-lhe pelo joelho até ao ventre. Sentiu 

que não poderia ir muito longe. A escuridão relativa 

escondia-lhe as feições e ninguém se apercebeu da 

careta. Procurou andar normalmente e aproximou-

-se dos três responsáveis.

O Comandante Sem Medo contemplou-o fixa

-

mente, enquanto o professor se sentava, gritando 



calado para esconder as dores insuportáveis. Estou 


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