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Geração 90, sobressaem Marçal Aquino e Fer-

nando Bonassi.

Nos anos 2000, começa a ganhar corpo uma literatura também chamada de 

marginal, por documentar a vida em bairros violentos das grandes metrópoles 

e nas prisões, como lemos em Capão Pecado (2000), de Ferréz (Reginaldo Ferreira 

de Sá), que apresenta um relato do cotidiano do bairro Capão Redondo, em São 

Paulo. Um trecho desse romance foi trabalhado no Capítulo 3 do volume 2 desta 

coleção. 

Jovens autores retomam alguns procedimentos da prosa imediatamente ante-

rior à sua geração e introduzem nela traços inovadores. Fica evidente a multipli-

cidade de estilos na prosa brasileira contemporânea e as dificuldades de agrupar 

os autores em tendências, especialmente os mais recentes. André Sant’Anna é um 

dos nomes que se firmou no panorama literário contemporâneo.

Minhas memórias

André Sant’Anna

Eu acordei muito cedo, porque eu tinha que chegar 

no trabalho muito cedo, porque, no dia anterior, eu 

tinha deixado muito trabalho por fazer, porque eu 

tinha acordado muito cedo e não tinha conseguido 

fazer todo o trabalho que eu tinha pra fazer, porque 

eu passei o dia todo com muito sono e não consegui 

me concentrar no trabalho que eu tinha pra fazer, 

porque eu estava muito tenso, porque, se o meu che-

fe percebesse que eu não conseguia me concentrar, 

porque eu estava com muito sono, ele ia me dar uma 

bronca, porque o trabalho que eu tinha pra fazer era 

muito importante pro meu chefe, porque, se o traba-

lho que eu tinha pra fazer fosse feito, o chefe do meu 

chefe não daria uma bronca no meu chefe, porque a 

firma onde o chefe do meu chefe, o meu chefe e eu 

trabalhamos conseguiria agradar o cliente que pediu 

o trabalho, que eu tinha pra fazer, pra firma onde o 

chefe do meu chefe, o meu chefe e eu trabalhamos. 

Eu fui fazer a barba, porque o meu chefe não gos-

ta de me ver com a barba por fazer, e fiquei com 

muita raiva da fábrica que fabrica lâmina de bar-

bear, que era cliente da firma onde o chefe do meu 

chefe, o meu chefe e eu trabalhamos, porque a lâmi-

na de barbear não era de qualidade, porque era mais 

lucrativo fabricar lâmina de barbear sem qualidade 

que fabricar lâminas de barbear com qualidade.

As lâminas de barbear dos Estados Unidos e da 

Europa são muito melhores que as lâminas de bar-

bear brasileiras, porque os consumidores de lâminas 

de barbear americanos e europeus são muito mais 

exigentes que os consumidores de lâminas de bar-

bear brasileiros, porque lá, nos Estados Unidos e na 

Europa, a concorrência entre as fábricas de lâminas 

de barbear é maior, porque os consumidores de lâ-

minas de barbear americanos e europeus são mais 

exigentes, porque os consumidores de lâminas de 

barbear americanos e europeus detestam quando 

as lâminas de barbear cortam a cara deles. 

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

Eu peguei o ônibus muito cedo e o trocador do 

ônibus me tratou muito mal, porque o trocador do 

ônibus tinha acordado muito cedo, porque o troca-

dor do ônibus morava muito longe da garagem da 

empresa de ônibus, porque trocadores de ônibus 

moram longe, porque trocadores de ônibus ganham 

muito mal, porque trocadores de ônibus não fre-

quentam a escola por muito tempo, porque os pais 

dos trocadores de ônibus ganham muito mal. 

Eu tratei o trocador do ônibus muito mal, por-

que eu estava com muito sono e também porque 

a minha cara estava ardendo, porque a lâmina de 

barbear tinha cortado a minha cara, porque a lâmi-

na de barbear era brasileira. 

Eu dei uma nota de dez pro trocador do ônibus, 

porque eu não tinha dinheiro trocado, e o trocador do 

ônibus fez cara feia, porque o trocador do ônibus es-

tava de mau humor, porque estava com muito sono e 

teria que se concentrar para contar as moedinhas do 

troco, porque o preço da passagem de ônibus sempre 

tem um valor quebrado por centavos e nem eu, nem 

o trocador do ônibus sabemos por quê. 

O trocador do ônibus começou a cochilar, a bater 

a cabeça no vazio, a babar, e eu fiquei com mais 

raiva ainda do trocador do ônibus, porque a baba 

do trocador do ônibus era muito nojenta, princi-

palmente quando o trocador do ônibus percebia 

que estava babando e sugava para dentro da boca 

a própria baba. 

Eu cochilei, porque eu estava com muito sono, 

porque eu tinha acordado muito cedo, e também 

babei, mas não senti nojo da minha baba, porque 

a baba era minha mesmo e eu não tenho nojo da 

minha própria baba, porque, desde que eu nasci, a 

minha baba vive comigo e eu me acostumei com ela. 

Eu cheguei na firma e sorri para o meu chefe, 

porque, se eu não sorrisse, o meu chefe ia achar que 

eu estava de mau humor, sem vontade de trabalhar 

muito, e o meu chefe queria que eu trabalhasse mui-

to, porque o chefe do meu chefe esperava que o meu 

chefe me fizesse trabalhar muito, porque o chefe 

do meu chefe, que era o dono da firma, esperava 

ganhar muito dinheiro com o trabalho que o meu 

chefe queria que eu fizesse.

Eu trabalhei muito.

Eu estava com muito sono e trabalhei muito. 

Na hora do almoço, eu não pude sair para almo-

çar, porque ir até algum lugar para almoçar tomaria 

muito do meu tempo, porque, além de andar três 

quarteirões até o lugar mais próximo onde houvesse 

comida, o que demoraria quinze minutos, só na 

ida, porque os semáforos para pedestres demoram 

a ficar verdes, porque os carros têm prioridade na 

cidade onde eu moro, porque existem muitos carros 

na cidade onde eu moro, porque ninguém gosta de 

andar a pé e os carros estão muito baratos, porque 

a indústria automobilística emprega muita gente, a 

comida demoraria a ficar pronta, porque nesse lu-

gar, a quinze minutos de distância da firma onde eu 

trabalho, a comida sempre demora para ficar pron-

ta, porque lá todo mundo é incompetente, porque lá 

todo mundo é brasileiro e o consumidor brasileiro 

nunca reclama de nada, porque o brasileiro é feliz. 

Eu pedi o almoço pelo telefone e perdi apenas 

cinco minutos, do tempo que eu tinha para traba-

lhar, pedindo a comida, e fiquei trabalhando en-

quanto a comida não chegava. 

O meu chefe saiu para almoçar, porque o meu 

chefe estava com muita fome, porque o meu chefe 

tinha acordado muito cedo, porque, como ele era 

o meu chefe, ele tinha que chegar cedo na firma, 

porque ele tinha que ver se eu chegava cedo e se eu 

fazia o meu trabalho direito. 

A minha comida chegou e eu estiquei as pernas 

em cima da mesa, porque as minhas pernas esta-

vam muito cansadas e o meu chefe não estava lá 

pra me dar uma bronca porque eu estava com as 

pernas em cima da mesa, porque o meu chefe não 

gosta que eu coloque as pernas em cima da mesa, 

porque colocar as pernas em cima da mesa é sinal 

de relaxamento e alguém que trabalha como eu 

trabalho não pode relaxar. 

A minha comida era um frango xadrez de um res-

taurante chinês de pronta-entrega e estava muito 

ruim, porque os pedaços de frango estavam meio crus, 

porque o cozinheiro do restaurante chinês de pron-

ta-entrega, que era brasileiro, estava com muita pres-

sa para preparar a comida, porque todo mundo que 

trabalha em escritório e não pode sair para almoçar 

pede frango xadrez na hora do almoço, porque frango 

xadrez é gostoso e rápido de fazer, porque é só misturar 

os ingredientes e jogar molho de soja em cima. 

Eu fiquei com muita fome, porque o frango xa-

drez estava meio cru e não dava pra comer, e con-

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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tinuei com muito sono, porque eu tinha acordado 

muito cedo.

Eu quase cochilei, porque eu estava com muito 

sono, porque eu tinha acordado muito cedo, mas 

não cochilei, porque eu ouvi a voz do meu chefe vin-

do pelo corredor, porque ele estava falando muito 

alto com o chefe dele, porque o meu chefe estava 

muito entusiasmado, explicando como era bom o 

carro novo dele, porque carro sempre dá assunto e 

é muito importante ter um assunto para conversar 

com o chefe da gente, porque, pelo jeito como o 

chefe da gente fala com a gente, a gente percebe se 

o chefe da gente está satisfeito com a gente ou não. 

O meu chefe não falou comigo, porque o meu 

chefe só fala com o chefe dele, porque ele quer ser 

amigo do chefe dele, porque assim ele fica sem 

medo de perder o emprego. 

Todo mundo tem medo de perder o emprego, 

porque sem emprego ninguém ganha dinheiro, por-

que dinheiro é só pra quem trabalha muito, me-

nos na Europa, porque, na Europa, quem não tem 

emprego ganha o dinheiro do seguro-desemprego, 

porque na Europa tem mais dinheiro, porque os 

europeus trabalham muito, porque quem trabalha 

muito na Europa ganha muito dinheiro. 

Eu falei boa-tarde pro meu chefe, porque eu que-

ria saber se o meu chefe estava satisfeito comigo, 

porque eu tinha medo de perder o meu emprego, 

mas o meu chefe não falou boa-tarde pra mim e eu 

fiquei com medo de não conseguir acabar o traba-

lho que eu tinha pra fazer, porque eu não conseguia 

me concentrar, porque eu estava com muito sono, 

porque eu tinha acordado muito cedo. 

Eu fiquei trabalhando sem conseguir trabalhar, 

não conseguia me concentrar porque eu estava com 

muito sono, porque eu tinha acordado muito cedo e o 

meu chefe passou perto da minha mesa umas três ve-

zes, porque ele queria saber se eu estava trabalhando 

direito, porque o trabalho que eu tinha pra fazer era 

muito importante para a firma do chefe do chefe do 

meu chefe, e eu fiquei com muito medo, porque, se o 

meu chefe percebesse que eu não estava conseguindo 

trabalhar, porque eu estava com muito sono, ele me 

daria uma bronca e falaria pro chefe dele me mandar 

embora porque eu não fazia o meu trabalho direito. 

No final da tarde, o meu chefe falou comigo, por-

que ele queria saber se o trabalho que eu tinha pra 

O contista, roteirista, publicitário e músico André Sant’Anna 

(1964), em 2013. Ele publicou seu primeiro livro, 

Amor, em 1998.

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fazer estava pronto, porque o chefe do meu chefe 

tinha perguntado pro meu chefe se o trabalho que 

eu tinha pra fazer estava pronto. 

Eu disse pro meu chefe que eu já estava acaban-

do o trabalho que eu tinha pra fazer, e o meu chefe 

disse pra mim que o trabalho que eu tinha pra fazer 

tinha que estar na mesa dele no dia seguinte, bem 

cedo, porque o cliente já estava nervoso, porque o 

trabalho que eu tinha pra fazer não estava pronto. 

Eu disse pro meu chefe que eu ia ficar na firma 

até mais tarde, porque eu ainda tinha que acabar o 

trabalho que eu tinha pra fazer.

O meu chefe foi embora, porque ele tinha que 

chegar em casa cedo, porque ele tinha oferecido 

um jantar pro cliente, porque ele precisava agradar 

o cliente, porque o cliente não podia ficar nervoso 

porque o trabalho que eu tinha pra fazer não tinha 

ficado pronto. 

O meu chefe foi embora e não falou boa-noite pra 

mim, porque ele estava com muita pressa, porque 

ele tinha que jantar com o cliente. 

Eu disse boa-noite pro meu chefe. 

Eu fiquei trabalhando até tarde, porque eu não 

estava conseguindo acabar o trabalho que eu tinha 

pra fazer, porque eu não conseguia me concentrar, 

porque eu estava com muito sono, porque eu tinha 

acordado muito cedo. 

R

eprodução/Arqui



v

o do escritor

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UNIDADE 4  MUNDO DO TRABALHO (II)

O trabalho que eu tinha pra fazer não ficou muito 

bom, porque eu não consegui me concentrar, por-

que eu estava com muito sono, e eu deixei o trabalho 

que eu tinha pra fazer em cima da mesa do meu 

chefe e fui embora do escritório com muito medo, 

porque o trabalho que eu tinha pra fazer não ficou 

muito bom e o meu chefe podia perceber e pedir pro 

chefe dele me demitir, porque eu era incompetente, 

porque eu era brasileiro, porque eu nasci no Brasil, 

porque os meus pais eram brasileiros e os brasileiros 

gostam muito de fazer sexo. 

Eu não fui direto pra casa, porque eu queria beber 

pelo menos uma cerveja antes de dormir, porque 

eu estava sem sono, porque, depois de passar o dia 

inteiro com sono, o sono passou, porque o meu 

organismo produziu muita adrenalina, porque eu 

estava com muito medo de perder o meu emprego. 

Eu cheguei no boteco perto da minha casa e o 

boteco perto da minha casa estava fechando, por-

que os funcionários do boteco perto da minha casa 

estavam com muito sono, porque eles tinham acor-

dado muito cedo, porque eles tinham que trabalhar 

muito o dia todo. 

Eu perguntei pro dono do boteco perto da minha 

casa se eu podia tomar só uma cerveja e o dono do 

TEXTO 18


Nove noites

Bernardo Carvalho

Ninguém nunca me perguntou. E por isso tam-

bém nunca precisei responder. Não posso dizer que 

nunca tivesse ouvido falar nele, mas a verdade é que 

não fazia a menor ideia de quem ele era até ler o 

nome de Buell Quain pela primeira vez num artigo 

de jornal na manhã de 12 de maio de 2001, um sába-

do, quase sessenta e dois anos depois da sua morte 

às vésperas da Segunda Guerra. O artigo saiu meses 

antes de outra guerra ser deflagrada. Hoje as guer-

ras parecem mais pontuais, quando no fundo são 

permanentes. Li várias vezes o mesmo parágrafo e 

repeti o nome em voz alta para me certificar de que 

não estava sonhando, até entender — ou confirmar, 

não sei — que o tinha ouvido antes. O artigo tratava 

das cartas de outro antropólogo, que também havia 

morrido entre os índios do Brasil, em circunstân-

cias ainda hoje debatidas pela academia, e citava 

de passagem, em uma única frase, por analogia, o 

caso de Buell Quain, que se suicidou entre os índios 

Krahô, em agosto de 1939. 

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boteco perto da minha casa disse que não, porque 

os funcionários do boteco perto da minha casa ti-

nham que ir embora, porque eles precisavam dor-

mir, porque eles tinham acordado muito cedo e 

trabalharam muito o dia todo. 

Um dos funcionários do boteco perto da minha 

casa jogou um balde cheio de água e sabão no chão 

do boteco perto da minha casa, porque, antes de ir 

pra casa dormir, os funcionários do boteco perto 

da minha casa tinham que lavar o chão do boteco 

perto da minha casa. 

A água com sabão encharcou o meu sapato e eu 

fiquei com muita raiva do funcionário do boteco 

perto da minha casa, porque eu queria muito beber 

uma cerveja, porque, se eu não bebesse uma cerveja 

e não comentasse com alguém aquele pênalti rou-

bado do jogo do domingo passado, eu ficaria com a 

impressão de que esse dia, no qual eu acordei muito 

cedo, porque eu tinha muito trabalho pra fazer, não 

tinha existido. 

E, se esse dia não tivesse existido, eu não estava 

vivo, porque a vida é feita de dias que existem. 

SANT’ANNA, André. Sexo e amizade. São Paulo:  

Companhia das Letras, 2007. p. 89-96.

Romances


Entre os autores de tendências contemporâneas do gênero literário romance, 

destacam-se os nomes de Bernardo Carvalho (um trecho de romance dele foi 

apresentado no Capítulo 4 do volume 1 desta coleção) e Milton Hatoum.

De Bernardo Carvalho, transcrevemos um trecho da obra 

Nove noites, que 

mistura ficção e realidade para contar a história de um etnólogo norte-americano. 

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CAPÍTULO 8  DISSERTAÇÃO EM PROSA

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Procurei a antropóloga que havia escrito o arti-

go. A princípio, foi seca no telefone. Deve ter achado 

estranho que alguém lhe telefonasse por causa de 

um detalhe do texto, mas não disse nada. Trocamos 

alguns 

e-mails, que serviram como uma aproxima-

ção gradual. Preferia não me encontrar pessoalmen-

te. Queria ter certeza de que os meus objetivos não 

eram acadêmicos. Mas mesmo se de início chegou 

a desconfiar do meu interesse por aquele homem, 

não perguntou as minhas verdadeiras intenções. Ou, 

pelo menos, não insistiu em saber as minhas razões. 

Supôs que eu quisesse escrever um romance, que meu 

interesse fosse literário e eu não a contrariei. A histó-

ria era realmente incrível. Aos poucos, conforme me 

embrenhava naquele caso com as minhas perguntas, 

passou a achar natural a curiosidade que eu demons-

trava pelo etnólogo suicida. Talvez por discrição e por 

sentir que, de alguma forma e por uma experiência 

que ela não teria podido conceber, eu também havia 

intuído naquele caso algo que mais tarde ela própria 

me revelaria ter suscitado desde sempre, quando por 

fim nos encontramos e ela me fez a pergunta. Foi ela 

quem me indicou as primeiras pistas. 

Os papéis estão espalhados em arquivos no Brasil 

e nos Estados Unidos. Fiz algumas viagens, alguns 

contatos, e aos poucos fui montando um quebra- 

-cabeça e criando a imagem de quem eu procurava. 

Muita gente me ajudou. Nada dependeu de mim, 

mas de uma combinação de acasos e esforços que 

teve início no dia em que li, para o meu espanto, o 

artigo da antropóloga no jornal e, ao pronunciar 

aquele nome em voz alta, ouvi-o pela primeira vez 

na minha própria voz. 

Buell Quain se matou na noite de 2 de agosto 

de 1939 — no mesmo dia em que Albert Einstein 

enviou ao presidente Roosevelt a carta histórica 

em que alertava sobre a possibilidade da bomba 

atômica, três semanas antes da assinatura do pacto 

de não agressão entre Hitler e Stalin, o sinal verde 

para o início da Segunda Guerra e, para muitos, uma 

das maiores desilusões políticas do século XX. Topei 

com uma referência à carta de Einstein, por mera 

coincidência, logo que comecei a vasculhar a morte 

de Quain. Ele não chegou a ver nada. O mundo dele 

não foi o meu. Não viu a guerra, não viu a bomba 

— ainda que, na loucura final das suas observa-

ções sobre os Krahô, e com base nas lembranças das 

revistas científicas que lia na adolescência, tenha 

tentado aplicar “os mesmos princípios matemáticos 

que governam os fenômenos atômicos” aos fenôme-

nos sociais, detectando nos índios “síndromes de 

comportamento cultural” análogas às leis da física. 

Tinha um fascínio quase adolescente pela ciência 

e pela tecnologia. 

Não podia ter pensado que quanto mais o homem 

tenta escapar da morte mais se aproxima da autodes-

truição, não podia lhe passar pela cabeça que talvez 

fosse esse o desígnio oculto e traiçoeiro da ciência, 

sua contrapartida, embora muito do que observou 

entre os índios e associou por intuição à sua pró-

pria experiência pudesse tê-lo levado a alguma coisa 

muito próxima dessa conclusão. Quando se matou, 

tentava voltar a pé da aldeia de Cabeceira Grossa 

para Carolina, na fronteira do Maranhão com o que 

na época ainda fazia parte de Goiás e hoje pertence 

ao estado do Tocantins. Tinha vinte e sete anos. 

CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo:  

Companhia das Letras, 2002. p. 13-15.

O romancista, contista e jornalista Bernardo Carvalho (1960), 

em 2013. Publicou, em 1993, seu primeiro livro de contos, 


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